Review: Circa Waves – What’s It Like Over There? (2019)

Lançamento: 05/04/2019
Gênero: Indie rock
Gravadora: PIAS Recordings
Produtor: Alan Moulder

O refrões banhados pelo sol e os riffs de tirar o fôlego sumiram – em seu lugar há vocais maçantes, instrumentais melodramáticas, produções polidas e letras melancólicas.

Quando se trata de mergulhar em um novo som, o Circa Waves é destemido. Cada um dos seus álbuns apresentou um lado diferente. Fortemente influenciado por Arctic Monkeys e The Strokes, o seu primeiro disco, “Young Chasers” (2015), foi um lançamento medíocre e igualmente promissor. O incrível “Different Creatures” (2017), por sua vez, capitalizou o que sua estréia criou, com uma produção coesa e composições muito mais maduras. Sua proficiência para músicas de alta energia com um disfarce comercial, os serviu extraordinariamente bem durante seus primeiros anos. Mas, à medida que eles lançaram seu terceiro LP, a banda claramente mudou de ideia quando se trata de direção. Dito isto, “What’s It Like Over There?” os vê criando um indie-rock com influências do pop e uma pitada de melancolia. Embora o álbum tenha sido gravado em Liverpool, seu conteúdo foi inspirado em sua viagem aos Estados Unidos durante a última turnê. E apesar de não ser uma reviravolta completa em seu som original, esse disco vê o grupo tentando evoluir, se esquivando da ferocidade e entregando algo muito mais suave e pungente. A transição é sempre difícil para qualquer banda, mas ainda parece que o grupo é apaixonado por suas raízes. O vocalista e guitarrista Kieran Shudall tem um tenor que falsifica sua voz apropriadamente.

A maior parte das canções são sobre relacionamento e suas frequentes armadilhas. Dramas cotidianos elevados por músicas como “The Way We Say Goodbye”, onde a dor é transmutada pela movimentação das guitarras. No entanto, a influência dos Estados Unidos também é muito clara, especialmente em faixas como “Me, Myself and Hollywood” – que de certa forma posiciona Shudall como um cara isolado do mundo. A ênfase individual de alguns instrumentos, como o violão, aumenta a intimidade dessa canção. Este sentimento de isolamento em um lugar lotado como Los Angeles, é mantido através de uma série de músicas do álbum. Embora o romance, a mágoa e a saudade sejam temas predominantes ao longo do repertório, são os pensamentos introspectivos por trás das letras que formam sua verdadeira essência. Tematicamente honesto sobre o que significa ser humano, este álbum possui muitas baladas atadas com amor e solidão. No entanto, sua escrita às vezes cai no lado clichê da história. Isso é perceptível em “Sorry I’m Yours”, que fala sobre deixar de lado o orgulho de alguém que você ama. Cheia de exuberância, “Movies” é uma faixa que combina o som pop que eles estão perseguindo com o Circa Waves de antigamente. O contagiante refrão provavelmente vai ficar preso em sua cabeça por horas. Igualmente influenciado pelo pop é “Passport”.

Uma balada de piano com um lento desenvolvimento e elementos old-school, que transporta o ouvinte para Hollywood retratado nos filmes. O álbum contém vários momentos que nos convida a fugir para um mundo fictício. A música mais ambiciosa do repertório é “Times Won’t Change Me”, que apresenta um piano feroz e algum aceno para o gospel. Um número bluesy diferente de qualquer coisa que a banda tenha feito antes. Essa música mostra um grupo possivelmente familiarizado com a era “X&Y” (2005) do Coldplay. “Savior”, que encerra o álbum, possui ecos do Led Zeppelin, mas nunca se torna tão grandioso ou pomposo como as bandas dos anos 70. O apelo do Circa Waves reside talvez na combinação paradoxal do rock e o charme contundido da voz do Kieran Shudall. Em “What’s It Like Over There?”, a banda seguiu por um caminho que já estava destinado a acontecer; uma mudança sísmica para algo muito mais pop e descontrolado. Em vez de ir mais longe com o que eles conseguiram em “Different Creatures” (2017), Circa Waves decidiu jogar pelo lado seguro. Qualquer identidade ou personalidade que eles criaram foram jogadas no lixo. O principal problema com “What’s It Like Over There?” é sua composição preguiçosa e sem entusiasmo. É um álbum duplamente decepcionante, considerando que é o produto de uma banda que já mostrou talento e os meios para fazer um registro decente.

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São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.