Review: Christina Aguilera – Liberation (2018)

Lançamento: 15/06/2018
Gênero: Pop, R&B, Hip hop
Gravadora: RCA Records
Produtores: Anderson .Paak, BRLLNT, Bryan Nelson, Charlie Heat, Che Pope, Dumbfoundead, Eric Danchick, Honorable C.N.O.T.E., Hudson Mohawke, Jon Bellion, Kanye West, Kirby Lauryen, Kosine, Mark Williams, Mell Beats, Mike Dean, Mitch Allan, MNEK, Neenyo, Nicholas Britell, Noah Goldstein, Raul Cubina, Ricky Reed e Sango.

Embora não seja perfeito, “Liberation” enfatiza a voz poderosa da Christina Aguilera e é realmente um retorno bem-vindo de uma das maiores vocalistas do século XXI.

Christina Aguilera é uma das maiores vocalistas da sua geração, isso é um fato. No entanto, semelhante a algumas de suas contrapartes do pop, a diva lutou nos últimos anos para tentar recuperar o trono concedido a ela no final dos anos 90. A ex-integrante do Clube do Mickey Mouse transformou seu sucesso juvenil em um estrelato internacional com o álbum “Christina Aguilera” (1999), que vendeu 9,2 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos. Além disso, nos calcanhares do seu álbum de estreia, ela lançou um disco em espanhol chamado “Mi Reflejo” (2000) e uma coleção festiva de Natal, intitulada “My Kind of Christmas” (2000). Em 2002, Aguilera começou a se reinventar com o “Stripped” (2002), sem dúvida o seu melhor álbum até agora. O registro vendeu mais 4,4 milhões em território norte-americano e foi premiado com 1 Grammy Award. Após uma espécie de ressurreição em 2006, com o lançamento do “Back to Basics” (2006), Christina Aguilera experimentou a maior queda da sua carreira com o “Bionic” (2010). Liderado por “Not Myself Tonight”, o álbum parecia alguns anos à frente do seu tempo e acabou tornando-se um fracasso. Então, quando ela anunciou um retorno com o “Lotus” (2012), tudo parecia ir pelo caminho certo. No entanto, ela foi duramente criticada por causa da composição amadora, enquanto singles como “Your Body” e “Just a Fool” não conseguiram replicar o sucesso dos seus primeiros hits.

Quase seis anos depois – período onde ela passou a maior parte do tempo como jurada do The Voice – Aguilera resolveu permanecer desafiadora e pavimentou o seu próprio caminho criativo com o “Liberation”. É certamente o seu álbum mais inspirado em mais de uma década. Enquanto “Accelerate” pode ter decepcionado os fãs, sua assertividade agora dá contexto ao projeto como um todo. Christina Aguilera resolveu incluir no álbum algumas baladas focadas no movimento #MeToo, e os passos necessários para desenvolver o empoderamento das mulheres. Suas mensagens e estilo foram claramente levados a sério, tanto que ela convidou Anderson .Paak e Kanye West para ajudá-la na produção. A cantora definitivamente ficou orgulhosa de assumir o controle desse projeto e isso refletiu através dos seus poderosos vocais. Esperançosamente, o “Liberation” revigora o interesse e o sucesso comercial de uma das maiores vocalistas do século XXI. Dessa vez, ela resolveu incorporar um fluxo de R&B e batidas de hip-hop no seu repertório. E não é só isso, ela também brinca com algumas melodias de reggae, música eletrônica e soul. Não importa o estilo que ela está seguindo em cada música, Aguilera é capaz de juntá-las e criar algo muito profundo. “Liberation” começa com uma faixa de 2 minutos de mesmo nome, que trata-se de uma introdução atmosférica no piano intercalado com alguns sussurros e risos de uma criança.

Isso se transforma em “Searching for Maria”, outro interlúdio que serve como um prefácio para a primeira música completa do álbum, simplesmente intitulada “Maria”. Com uma amostra vocal do Michael Jackson, a música mostra Aguilera tentando se encontrar novamente e refletindo sobre os altos e baixos de sua carreira. A busca por sua alma e identidade começa com um esforço vocálico fortemente inclinado para o hip-hop. Enquanto “Sick of Sittin'” pode ser considerado um dos destaques do álbum, o conteúdo lírico é muito encorajador. Anderson .Paak deu a Christina Aguilera uma das canções mais eletrizantes do repertório, uma que realmente foca no tema de libertação. Uma jóia eclética que apresenta influências de rock, funk e soul. Em seguida, ela recebe apoio de Demi Lovato em uma canção que foca no emponderamento feminino. Intitulada “Fall in Line”, é um número pop e R&B que se concentra em mostrar a força das mulheres. Vocalmente, é exatamente o que você poderia esperar de um dueto da Christina Aguilera e Demi Lovato. Ambas são conhecidas por não restringir seus vocais e, no geral, “Fall in Line” possui uma produção bem progressiva. Logo depois de alguns segundos, Aguilera apresenta vocais controlados e algumas nuances no primeiro verso. Lovato assume a liderança no segundo verso, mantendo um equilíbrio antes de se soltar no refrão. Posteriormente, ambas unem forças, particularmente nas duas últimas interações do refrão.

Liricamente, elas não apontam o dedo para o sexo oposto e não há nada sexualizado. É uma canção inspiradora que usa o empoderamento como mensagem principal. Embora contenha alguns clichês, não dá para negar que o conteúdo lírico de “Fall in Line” é poderoso. Enquanto isso, suas harmonias vocais estão no ponto e conseguem inspirar as mulheres a serem independentes. Mas, mesmo com todos os pontos positivos a cerca de “Fall in Line”, parece que falta algo. Não há uma magia acontecendo e a produção é monótona. Elas tentam compensar essa falha com os vocais, mas em determinados momentos exageram em suas respectivas interpretações. Provavelmente, seria uma música mais agradável se fosse mais íntima e contida. Sonoramente, “Right Moves” leva o álbum para um caminho diferente e mais otimista. No entanto, a mensagem permanece a mesma, uma vez que Aguilera implora que um homem faça sexo com ela a qualquer hora e em qualquer lugar. Sobre uma batida descontraída e ao mesmo tempo dancehall, ela fala sobre abraçar sua nova libertação sexual. É uma faixa que mistura o reggae, pop e hip-hop, e se torna obsoleta muito antes de Keida e Shenseea aparecerem. Nem tudo funciona, mas Aguilera certamente se afastou de sua zona de conforto. Enquanto isso, “Like I Do” é confiante, sexy e reflete sobre a sua própria personalidade.

É a segunda produção do Anderson .Paak e apresenta o rapper GoldLink. Conforme GoldLink introduz um fluxo cativante e soberbo, o acréscimo de sintetizadores e a flauta auxiliam Christina Aguilera. Ela se orgulha de seus próprios atributos e talentos, enquanto proclama que precisa apenas saciar seus desejos carnais. Escrita por Julia Michaels e MNEK, a maravilhosa “Deserve” dá outro sabor para o álbum. Uma balada eletrônica e atmosférica que cria uma espinha dorsal para suas confissões atrevidas e emocionais. “Às vezes acho que não te mereço / Então digo algumas besteiras só pra te magoar / Mas você sabe que eu faço tudo isso porque eu te amo / Então, meu bem, diga que eu sou aquela que te merece”, ela canta no cativante refrão. Ser capaz de se recuperar de um desgosto e não pensar duas vezes antes de se arriscar novamente, é o foco da apropriadamente intitulada “Twice”, uma balada de piano com um toque de soul que realça os talentos vocais da Christina Aguilera. Com uma mistura de convicção e desespero, Aguilera canta sobre equilibrar o amor com a perda. Mas embora seja uma canção bem arrendondada e emocional, fica aquém de suas melhores baladas. Lançada como buzz-single, “Accelerate” é uma canção de hip-hop que causou reações mistas nos ouvintes, dado a sua produção desconexa e pouco convencional. Ela possui aspectos dominantes do 2 Chainz e Ty Dolla $ign, e uma estética bem minimalista.

Produzida por Kanye West, “Accelerate” possui momentos que mostram algum potencial. Entretanto, isto é rapidamente desperdiçado por causa dos recursos estranhos que aparecem por todos os lados. No início da música ouvimos uma percussão acompanhada por gritos e vocais masculinos até que, de repente, Christina Aguilera aparece. Então, ela mescla seu canto com versos de rap e nos deixa um pouco empolgados para o refrão. Sua performance vocal está contida e sensual, e no geral a produção parece reminiscente do “Stripped” (2002). Entretanto, não estamos ouvimos uma balada poderosa como “Beautiful” ou uma canção ousada como “Dirrty”. Muito pelo contrário, “Accelerate” mistura várias ideias de forma desnecessária que só servem para causar uma confusão na mente do ouvinte. Ela possui tantas colagens sonoras que mais parece duas músicas dentro de uma. Realmente há algo de confuso acontecendo, especialmente quando os vocais dos três artistas são envolvidos em camadas. Alguns podem apreciar a reinvenção e liberdade criativa da cantora, porém, é difícil dar elogios quando a produção, melodia, letras e vocais não colaboram. Liricamente, Aguilera se gaba do seu estilo de vida e felicita o presente no decorrer de metáforas sexuais. “Não se preocupe com o amanhã / Estarei com as minhas amigas, você pode me encontrar lá / Se tentar brincar com a gente, vamos começar um tumulto aqui”, ela diz.

Quando ela canta – “Baby, it’s alright / Baby, it’s OK / Spark round late” – em cima da linha de baixo, ela consegue criar a melhor parte da música. Honestamente, “Accelerate” está longe de ser instantaneamente cativante como alguns dos seus singles adaptados para as rádios. As ad-libs de Ty Dolla $ign são dispensáveis e o verso de 2 Chainz, apoiado pelas chimbais e batidas de trap, é completamente inofensivo. O refrão é fortalecido pelo baixo grave e inesperados riffs de sintetizador, e consegue prender o ouvinte por alguns segundos. Porém, é uma música que extrapola as coisas e, mesmo com tanto talento envolvido, não consegue se sobressair. “Pipe”, com XNDA, a encontra incomodada mais uma vez enquanto corre atrás do seu homem, para que ele possa satisfazer suas necessidades. Sua entrega vocal lenta e sedutora cria uma justaposição efetiva ao conteúdo. Aqui, Aguilera continua a mergulhando no R&B sob uma batida constante e um balanço jazzístico. Embora a música não esteja repleta de substância, a produção é ótima, especialmente a programação do piano elétrico e a bateria. Vazada em forma de demo antes do lançamento do álbum, a encantadora “Masochist” encontra Aguilera reconhecendo um relacionamento ruim. Ela canta tragicamente que ainda deseja um homem que encontra alegria em sua dor e lágrimas. “Eu recebo todo meu prazer no seu quarto / No seus braços / Você recebe todo seu prazer com a minha tortura / Com meu sofrimento”, ela canta no segundo verso.

Ainda assim, o artista admite não ser capaz de se afastar dessa disfunção amorosa. O álbum fecha com um momento brilhante chamado “Unless It’s with You”. Esta balada encontra Christina Aguilera mostrando seu melhor atributo – os lindos vocais. Aqui ela teve liberdade para alcançar qualquer registro imaginável e escrever uma bela canção de amor. A segunda balada de piano do álbum é realmente o momento mais emocionalmente honesto. Aguilera canta sobre estar pronta para se casar novamente e é um dos momentos mais otimistas do repertório. “Porque eu não quero me casar / A não ser que seja com você”, ela canta no poderoso refrão. Encontrar sua alma gêmea, após anos de dúvida, é uma mensagem poderosa para encerrar o “Liberation”. O resultado final é uma coleção que é boa, com certeza, mas que poderia ser ainda melhor se ela tivesse focado mais no conteúdo lírico e menos na quantidade de recursos. Enquanto outras divas falharam em manter sua voz ao longo dos anos, Aguilera conseguiu manter seu instrumento em perfeita forma. Este é o seu melhor trabalho desde o “Back to Basics” (2006). Trabalhar com diferentes produtores ajudou a criar o álbum que ela queria fazer. Tudo somado, “Liberation” é um registro agradável e moderno. É imperfeito e falta coesão, mas graças a esse álbum ela redescobriu sua diva interior que os fãs tanto amam.

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    SCORE - 67%
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Favorite Tracks:

“Maria” / “Deserve” / “Masochist”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.