Review: Charlie Puth – Voicenotes (2018)

“Voicenotes” pode não ser eficiente nas narrativas, mas possui treze faixas incrivelmente cativantes, um grande senso de criatividade e é um passo na direção certa.

Oinício do estrelado do Charlie Puth começou com o grande hit “See You Again”, que tem mais de 3,5 bilhões de visualizações no YouTube. Esta canção foi destaque da trilha sonora do filme “Velozes & Furiosos 7” (2015) e permaneceu por 12 semanas no topo da Billboard Hot 100. Foi o single responsável por gerar um mega hype para o cantor de Nova Jersey. Depois de assinar com a Atlantic Records, Puth decidiu lançar o seu primeiro álbum, “Nine Track Mind” (2016). Como esperado, a gravadora o fez lançar um disco de estreia rapidamente, para se aproveitar do sucesso de “See You Again”. Entretanto, o resultado disso foi um completo desastre. Comercialmente, o “Nine Track Mind” (2016) conseguiu bons resultados, porém, é um registro musicalmente e artisticamente muito fraco. Mas apesar do sucesso repentino, Charlie Puth parecia insatisfeito com o seu primeiro álbum. Segundo ele, o “Nine Track Mind” (2016) não o representava como músico e não era o que ele realmente gostaria de oferecer. Felizmente, Puth conseguiu crescer e evoluir como artista nos dois últimos anos. Ele reinventou seu som e intensificou suas composições, a fim de lançar um registro muito mais polido. Lançado em 11 de maio, “Voicenotes” é tudo o que ele queria que seu álbum de estreia fosse. Certamente, possui um som bem diferente do seu antecessor. Puth abandonou aspectos alegres e inocentes, em favor de apresentar algo mais maduro e interessante.

Sem restrições de tempo, ele teve liberdade para gravar esse novo álbum. Há momentos em que sua voz está soulful e a maior parte do repertório é impulsionada por refrões brilhantes, produções funky, linhas de baixo infecciosas e batidas inspiradas pelos anos 80 e R&B tradicional. Surpreendentemente, as baladas conduzidas pelo piano se saíram melhor do que o esperado. Os refrões pegajosos compensam suas limitações líricas e, embora nada seja inovador, Charlie Puth conseguiu expandir seus horizontes. A maior parte do repertório apresenta grandes sintetizadores, algo que podemos notar logo na faixa de abertura, “The Way I Am”. Esta canção possui um riff de guitarra elétrica viciante que combina perfeitamente com os vocais do Charlie Puth. Ela é beneficiada por algumas agradáveis linhas melódicas, enquanto a produção é dinâmica e equilibrada. O cativante refrão não é profundamente lírico, mas resume o tema proposto. “Talvez eu fique um pouco nervoso / Talvez eu não saia mais / Sinto que eu realmente não mereço isso / A vida não é nem um pouco como era antes”, ele canta. O grande hit do álbum, “Attention”, é um número pop rock instantaneamente pegajoso com fortes influências de disco e funk. Embora tenha sido lançada há um ano, ela permanece fresca e empolgante. Utilizando uma perfeita linha de baixo, Charlie Puth apresenta alguns falsetes e fala sobre uma ex-namorada que “apenas quer atenção”

Mesmo com letras triviais, ele conseguiu utilizar sua flexibilidade vocal com grande precisão. “Você só quer atenção, você não quer meu coração / Talvez você apenas odeie o pensamento de mim com alguém novo / Sim, você só quer atenção, eu sabia desde o começo / Você só está se certificando de que eu nunca te superei”, ele canta no refrão. Sob uma vibe old-school, Puth diminui o ritmo e apresenta “LA Girls”. Uma faixa melódica e midtempo com sintetizadores, linhas de baixo, batidas de tambor e cintilantes riffs de guitarra. Liricamente, Puth se arrepende de ter terminado seu relacionamento apenas para procurar outras garotas em Los Angeles. “Como diabos eu fui pego? / Saindo com essas garotas de Los Angeles / Eu sinto falta do meu amor”, ele indaga no refrão. O ritmo se encaixa na narrativa, porém, é uma música um pouco esquecível se comparada com as duas primeiras faixas. O segundo single, “How Long”, possui uma produção sedutora e é outra oferta irresistível. Uma continuação lírica de “Attention”, embora o clichê da composição não possa ser ignorado. Assim como “Attention”, este single encaixa-se perfeitamente na paisagem sonora proposta pelo cantor – uma música pop e funk com ótimas linhas de baixo e um refrão extremamente charmoso. Ademais, “How Long” também mostra mais do seu alcance vocal, especialmente durante os falsetes. “Done for Me”, com Kehlani, é uma fatia pop conduzida por uma linha de baixo reflexiva, sintetizadores pulsantes e batidas de tambor.

Reminiscente de clássicos dos anos 80, esta canção vê Charlie Puth questionando seu relacionamento. “O que você está pensando? / Acha que poderia estar melhor com um outro alguém?”, ele pergunta nas primeiras linhas. Um dueto cativante onde ambos mostram uma boa química e apresentam uma peça genuinamente funky. Os falsetes do Puth realmente combinaram com os doces vocais da Kehlani. Liricamente, ouvimos a dupla discutindo uma relação fracassada, onde o casal prefere se separar e seguir em frente. “Eu minto por você, amor / Eu morro por você, amor / Choro por você, amor / Mas me diga o que você já fez por mim”, ele canta no refrão. Kehlani oferece uma resposta clara, conforme diz: “Não implorarei seu amor / Não direi “por favor” / Ah, não, não direi “por favor” / Não ficarei no chão de joelhos / Você sabe, eu dei tudo isso / Amor, honestamente”. “Done for Me” é certamente uma discussão entre duas pessoas, com perguntas e respostas. As letras podem não ser exemplares, mas há um pouco de drama em sua borda. Embora o sintetizador lembre os dois primeiros singles, “Done for Me” é uma peça muito bem produzida. Suas harmonias estão no ponto e exibem um equilíbrio ideal. Vocalmente, Puth está se tornando cada vez melhor. Há uma maior leveza em sua voz e o tom está mais sutil e equilibrado. “Patient”, a primeira balada do álbum, o encontra pedindo desculpas e uma segunda chance para sua ex-namorada.

Desta vez, o cantor reconhece seus erros: “Esses erros, eu já cometi o bastante / Quando você precisou de mim, eu não estava lá / Eu era jovem, eu era burro, eu era tão imaturo”. Um número soulful extremamente honesto com um gancho aparentemente inspirado pelo Bruno Mars. Esta canção lhe dá a chance de exibir novas facetas vocais, especialmente quanto usa um estilo mais emocional e sedutor. Acentuada por um piano elétrico e tons de R&B, “Patient” é uma balada encantadora. “If You Leave Me Now” é uma peça inesperadamente acapela em colaboração com o grupo Boyz II Men. Uma balada de R&B nostálgica que mostra Charlie Puth apostando nos falsetes, enquanto Boyz II Men utiliza suas lendárias harmonias. “If You Leave Me Now” é despojada e coloca o foco totalmente nos vocais. Uma canção refrescante que tenta capturar os dias de glória do R&B. De forma emocional, Puth pede para sua garota não deixá-lo: “Porque, garota, se você me deixar agora / Se você desistir e simplesmente for embora / Você levará a maior parte de mim / E todas as coisas nas quais acredito”. O ritmo muda quando “BOY” entra em ação, uma vez que ela possui vibrações retrô, melodias jazzísticas e sensação oitentista. Enquanto a produção é o ponto alto, as letras são um pouco bregas. “Você me diz que eu sou muito jovem / Mas eu te dei o que você queria, baby, como você ousa me tratar como um garoto”, ele canta sobre uma batida irresistível. O riff de sintetizador, a linha de baixo e a batida eletrônica formam uma combinação perfeita para o seu alcance vocal.

A influência de funk oitentista é muito forte ao longo da notável “Slow It Down”. Uma canção extremamente cativante que prospera sob sintetizadores e fortes efeitos vocais. Embora a batida seja básica, sua voz permanece no centro do palco. O acústico “Change”, com James Taylor, fornece uma vibração otimista sob acordes de piano e melodias descontraídas. Uma balada de folk-pop com influências de soft rock, que mostra Charlie Puth se unindo com uma de suas maiores inspirações musicais. Apesar de parecer incoerente com o restante do repertório, “Change” possui um agradável violão e um ótimo piano elétrico. Comparada com as outras colaborações do álbum, ela não tem o mesmo impacto. Entretanto, sua mensagem é pungente e bem simplificada. Para o Charlie Puth, essa é a música mais importante que ele já escreveu. “Somebody Told Me” é outra peça contagiante que lembra a magia dos anos 80. Seu ritmo acelerado leva o cantor de volta para assuntos que envolvem o coração. Liricamente, ele encara a realidade de que sua pretendente está apaixonada por outra pessoa há algum tempo. “Talvez eu devesse ter notado / Que você estava apenas meio apaixonada / Talvez eu devesse ter notado / Que eu não sou o único”, ele canta sobre o sintetizador. “Empty Cups” é mais uma canção acessível e radio-friendly, onde Puth canta sobre uma batida inspirada pelo funk. Apesar das letras serem desprovidas de qualidade, não posso deixar de mencionar o poderoso groove desta canção.

A luxuosa “Through It All” contém elementos gospel e é conduzida especialmente pelo piano. Esta canção mostra Charlie Puth relembrando as experiências pelas quais ele passou nos últimos anos. Embora seja um grande desvio do ritmo funky e dançante de todo o álbum, “Through It All” é aguçada e encerra o álbum adequadamente. Ao todo, “Voicenotes” é um grande passo em frente para o Charlie Puth. Eu fiquei realmente impressionado com a sua evolução. Sua personalidade, voz e estilo funcionam perfeitamente neste cenário pop-funk. Embora ele ainda precise aprimorar o seu lirismo, é um disco pessoal que fala sobre suas experiências amorosas. Diferente do seu álbum de estreia, desta vez ele foi capaz de demonstrar melhor suas habilidades como compositor e produtor. Sonoramente, “Voicenotes” proporciona uma experiência auditiva completamente agradável. Não dá para negar que Puth é um artista talentoso, por isso não foi à toa que ele produziu e co-escreveu todas as músicas do álbum. Suas limitações líricas podem ser ignoradas em determinados momentos, porque a produção consegue se sobressair. A instrumentação é particularmente impressionante, além dos vocais que felizmente tiveram chances de brilhar. Tudo somado, “Voicenotes” fez o Charlie Puth crescer e adquirir um senso de maturidade. Aqui temos um ar de autenticidade que permaneceu ausente no “Nine Track Mind” (2016). Ele possui um novo potencial a partir de agora, e esperamos que não seja desperdiçado.

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Favorite Tracks:

“Attention” / “BOY” / “Slow It Down”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.