Review: Charlie Puth – Voicenotes (2018)

Lançamento: 11/05/2018
Gênero: Pop
Gravadora: Atlantic Records
Produtores: Charlie Puth, Rickard Goransson, Johan Carlsson e Jason Evigan.

“Voicenotes” pode não ser eficiente nas narrativas, mas possui treze faixas incrivelmente cativantes, um grande senso de criatividade e é um passo na direção certa.

Oinício do estrelado do Charlie Puth começou com o grande hit “See You Again”, que tem mais de 3,5 bilhões de visualizações no YouTube. Esta canção foi destaque da trilha sonora do filme “Velozes & Furiosos 7” (2015) e permaneceu por 12 semanas no topo da Billboard Hot 100. Foi o single responsável por gerar um mega hype para o cantor de Nova Jersey. Depois de assinar com a gravadora Atlantic Records, Puth decidiu lançar o seu primeiro álbum, “Nine Track Mind” (2016). Como esperado, a Atlantic o fez lançar um disco de estreia rapidamente, para assim aproveitar do sucesso de “See You Again”. Entretanto, o resultado disso foi um completo desastre. Comercialmente, o “Nine Track Mind” (2016) conseguiu bons resultados, porém, é um registro musicalmente e artisticamente muito fraco. Mas apesar do sucesso repentino, Charlie Puth parecia insatisfeito com o seu primeiro álbum. Segundo ele, o “Nine Track Mind” (2016) não o representava como músico e não era o que ele realmente gostaria de oferecer. Felizmente, Puth conseguiu crescer e evoluir como artista nos dois últimos anos. Ele reinventou seu som e intensificou suas composições, a fim de lançar um registro muito mais polido. Lançado em 11 de maio de 2018, “Voicenotes” é tudo o que ele queria que seu álbum de estréia fosse. Certamente, possui um som bem diferente da sua estreia.

Puth abandonou aspectos alegres e inocentes, em favor de apresentar algo mais maduro e interessante. Sem restrições de tempo, ele teve liberdade para gravar esse novo álbum. Há momentos em que sua voz está soulful e a maior parte do repertório é impulsionada por refrões brilhantes, produção funky, linhas de baixo infecciosas e batidas inspiradas pelos anos 80 e R&B tradicional. Surpreendentemente, as baladas conduzidas pelo piano se saíram melhor do que o esperado. Os refrões pegajosos compensam suas limitações líricas e, embora nada por aqui seja inovador, Charlie Puth conseguiu expandir seus horizontes. A maior parte do repertório apresenta grandes sintetizadores, algo que podemos notar logo na faixa de abertura, “The Way I Am”. Esta canção possui um riff de guitarra elétrica viciante que combina muito bem com os vocais do Charlie Puth. Ela é beneficiada por algumas agradáveis linhas melódicas, enquanto a produção é dinâmica e equilibrada. O cativante refrão não é profundamente lírico, mas resume o tema proposto. “Talvez eu fique um pouco nervoso / Talvez eu não saia mais / Sinto que eu realmente não mereço isso / A vida não é nem um pouco como era antes”, ele canta aqui. A honestidade é sua principal força nesta primeira faixa. O grande hit do álbum, “Attention”, é uma faixa pop-rock instantaneamente pegajosa, com fortes influências de disco e funk.

Embora tenha sido lançada há um ano, é uma faixa que permanece empolgante. Utilizando perfeitamente uma linha de baixo, Charlie Puth mescla alguns falsetes com a batida e fala sobre uma ex-namorada que “apenas quer atenção”. Mesmo com letras triviais, ele conseguiu utilizar sua flexibilidade vocal com grande precisão. “Você só quer atenção, você não quer meu coração / Talvez você apenas odeie o pensamento de mim com alguém novo / Sim, você só quer atenção, eu sabia desde o começo / Você só está se certificando de que eu nunca te superei”, ele canta no refrão. Apesar da música ser uma oferta otimista, a emoção presente na sua voz é muito evidente. Sob uma vibe old-school, Charlie Puth diminui o ritmo um pouco e apresenta “LA Girls”. É uma faixa melódica e mid-tempo, com sintetizadores, linha de baixo, batidas de tambor e cintilantes riffs de guitarra. Liricamente, é uma canção onde Charlie Puth se arrepende de ter terminado seu relacionamento apenas para procurar outras garotas em Los Angeles. “Como diabos eu fui pego? / Saindo com essas garotas de Los Angeles / Eu sinto falta do meu amor”, ele indaga a si mesmo no refrão. O ritmo se encaixa na narrativa, porém, é uma música um pouco esquecível se comparada com as duas primeiras faixas. O segundo single, “How Long”, possui uma produção sedutora e é outra oferta irresistível.

É uma continuação lírica de “Attention”, embora o clichê da composição não possa ser ignorado (“Há quanto tempo isso vem acontecendo? / Você está aprontando comigo / Enquanto me chama de bebê”). Assim como “Attention”, este single encaixa-se perfeitamente na paisagem sonora proposta pelo cantor. É uma música pop e funk com ótimas linhas de baixo e um refrão extremamente charmoso. Ademais, “How Long” também mostra mais do seu alcance vocal, especialmente durante os falsetes. “Done for Me”, em parceria com Kehlani, é uma faixa pop conduzida por uma linha de baixo reflexiva, sintetizadores pulsantes e batidas de tambor. Reminiscente de clássicos dos anos 80, esta canção vê Charlie Puth questionando seu relacionamento. “O que você está pensando? / Acha que poderia estar melhor com um outro alguém?”, ele pergunta nas primeiras linhas. Um dueto cativante onde ambos cantores mostram uma boa química e apresentam uma peça genuinamente funky. Os falsetes do Puth realmente combinaram com os doces vocais da Kehlani. Liricamente, ouvimos a dupla discutindo uma relação fracassada, onde o casal prefere se separar e seguir em frente. “Eu minto por você, amor / Eu morro por você, amor / Choro por você, amor / Mas me diga o que você já fez por mim”, ele canta no refrão.

Kehlani oferece uma resposta clara, conforme diz: “Não implorarei seu amor / Não direi “por favor” / Ah, não, não direi “por favor” / Não ficarei no chão de joelhos / Você sabe, eu dei tudo isso / Amor, honestamente”. “Done for Me” é certamente uma discussão entre duas pessoas, com perguntas e respostas. As letras podem não ser exemplares, mas há um pouco de drama em sua borda. Embora o sintetizador lembre muito os dois primeiros singles, “Done for Me” é uma peça muito bem produzida. As harmonias do Charlie Puth e Kehlani estão no ponto e exibem um equilíbrio ideal. Vocalmente, Puth está se tornando cada vez melhor. Há uma maior leveza em sua voz e o tom está mais sutil e equilibrado. “Patient”, a primeira balada do “Voicenotes”, vê Charlie Puth pedindo desculpas e uma segunda chance para sua ex-namorada. Desta vez, o cantor reconhece seus erros: “Esses erros, eu já cometi o bastante / Quando você precisou de mim, eu não estava lá / Eu era jovem, eu era burro, eu era tão imaturo”. Um número soulful e extremamente honesto com um gancho aparentemente inspirado pelo Bruno Mars. Esta canção dá ao Charlie Puth uma chance de exibir novas facetas vocais, especialmente quanto usa um estilo mais emocional e sedutor. Acentuada por um piano elétrico e tons de R&B, “Patient” é uma balada encantadora. “If You Leave Me Now” é uma peça inesperadamente acapela em colaboração com o grupo Boyz II Men.

Uma faixa de R&B nostálgica que mostra Charlie Puth apostando nos falsetes, enquanto o Boyz II Men utiliza suas lendárias harmonias. “If You Leave Me Now” é uma balada despojada que coloca o foco totalmente nos vocais. É uma canção refrescante que tenta capturar os dias de glória do R&B. De forma emocional, Puth pede para sua garota não deixá-lo: “Porque, garota, se você me deixar agora / Se você desistir e simplesmente for embora / Você levará a maior parte de mim / E todas as coisas nas quais acredito”. O ritmo muda quando “BOY” entra em ação, uma vez que ela possui vibrações retrô, melodias jazzísticas e sensação oitentista. Enquanto a produção é o ponto alto, as letras são um pouco bregas. “Você me diz que eu sou muito jovem / Mas eu te dei o que você queria, baby, como você ousa me tratar como um garoto”, ele canta sobre uma batida irresistível. O riff de sintetizador, linha de baixo e a batida eletrônica formaram uma combinação perfeita para o seu alcance vocal. A influência do funk oitentista é muito forte ao longo da notável “Slow It Down”. É uma canção extremamente cativante que prospera sob um bom ritmo, sintetizadores, efeitos vocais e demais elementos sonoros. Embora a batida seja básica, sua voz permanece no centro do palco. O acústico “Change”, com James Taylor, fornece uma vibração otimista sob acordes de piano e melodias bem descontraídas.

Uma balada de folk-pop com influências do soft-rock, que mostra Charlie Puth se unindo com uma de suas maiores inspirações musicais. Apesar de parecer incoerente com o restante do repertório, “Change” possui um agradável violão e piano elétrico. Comparada com as outras colaborações do álbum, ela não tem o mesmo impacto. Entretanto, sua mensagem é pungente e muito bem simplificada. Para o Charlie Puth, essa é a música mais importante que ele já escreveu. “Somebody Told Me” é outra peça contagiante que lembra a magia dos anos 80. Seu ritmo acelerado leva o cantor de volta para assuntos que envolvem o coração. Liricamente, esta faixa o vê encarando a realidade de que sua pretendente está apaixonada por outra pessoa há algum tempo. “Talvez eu devesse ter notado / Que você estava apenas meio apaixonada / Talvez eu devesse ter notado / Que eu não sou o único”, ele canta sobre uma batida carregada pelo sintetizador. “Empty Cups” é mais uma canção acessível e radio-friendly, onde Puth canta sobre uma batida inspirada pelo funk. Apesar das letras serem desprovidas de qualidade, não posso deixar de mencionar o poderoso groove desta canção. A luxuosa “Through It All” contém elementos gospel e é conduzida especialmente pelo piano. Esta canção mostra Charlie Puth relembrando as experiências pelas quais passou nos últimos anos.

Embora seja um grande desvio do ritmo funky e dançante de todo o álbum, “Through It All” é uma canção aguçada que encerra o álbum adequadamente. Ao todo, “Voicenotes” é um grande passo em frente para o Charlie Puth. Eu fiquei realmente impressionado com a sua evolução. Sua personalidade, voz e estilo funcionam perfeitamente neste cenário pop-funk. Embora ele ainda precise aprimorar o seu lirismo, é um disco pessoal que fala sobre suas experiências na vida e no amor. Diferente do seu álbum de estréia, desta vez ele foi capaz de demonstrar melhor suas habilidades como compositor. Sonoramente, “Voicenotes” proporciona uma experiência auditiva completamente agradável. Não dá para negar que Puth é um artista talentoso, por isso não foi à toa que ele produziu e co-escreveu todas as músicas do álbum. Suas limitações líricas podem ser ignoradas em determinados momentos, porque a produção consegue se sobressair. A instrumentação é particularmente impressionante, além dos vocais que felizmente tiveram chances de brilhar. Tudo somado, “Voicenotes” fez o Charlie Puth crescer e adquirir um senso de maturidade. Aqui temos um ar de autenticidade que permaneceu ausente no “Nine Track Mind” (2016). Ele possui um novo potencial a partir de agora, e esperamos que não seja desperdiçado.

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Favorite Tracks:

“Attention” / “BOY” / “Slow It Down”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.