Review: Anne-Marie – Speak Your Mind (2018)

Lançamento: 27/04/2018
Gênero: Pop, EDM
Gravadora: Asylum Records / Atlantic Records
Produtores: Steve Mac, Jennifer Decilveo, Nick Monson, Tom Meredith, MdL, Amir Amor, Chris Loco, Moon Willis, Levi Lennox, Marshmello, The Invisible Men, Nana Rogues, Jonathan White, Team Salut, MNEK, TMS, Sam Klempner, Teddy Geiger, Zah Nicita, Fred Ball, Fraser T Smith, Lostboy, Jack Patterson, Mark Ralph, David Guetta e Lotus IV.

Na melhor das hipóteses, “Speak Your Mind” é uma coleção de músicas pop polidas e inofensivas. Mas, infelizmente, o repertório não tem forças suficientes para realmente se tornar memorável. Não é um grande sucesso, mas também não é um fracasso.

Anne-Marie Rose Nicholson é uma cantora e compositora inglesa de Essex. Desde 2014, ela passou a participar de faixas de atos como Magnetic Man, Gorgon City e Raized by Wolves. Mas foi com o grupo Rudimental que ela ganhou maior atenção internacional. Posteriormente, em 2016, Anne-Marie participou dos vocais de “Rockabye” e conseguiu um smash-hit ao lado do Clean Bandit e Sean Paul. Foi este single que a impulsionou de vez para o cenário mainstream. Além de apoiar Ed Sheeran em sua turnê, ela já recebeu cinco indicações ao BRIT Awards. Desde que lançou seu primeiro single solo, Anne-Marie passou a ter uma presença frequente no maior chart do Reino Unido. Com base em seu histórico repentino, é seguro dizer que ela é uma artista de sucesso. Atualmente, seu single de maior sucesso é “FRIENDS”, um dueto com o DJ americano Marshmello. Foi a partir daí que sua equipe decidiu que era um bom momento para lançar o seu primeiro álbum, “Speak Your Mind”. A cantora britânica nos leva através de doze faixas na versão padrão, enquanto oferece uma experiência com sons pop e EDM. É um álbum que pode não deixar sua marca, mas é uma tentativa confiante de uma artista que ainda está descobrindo onde ela se encaixa.

“Speak Your Mind” a vê colaborando com um grande elenco de artistas e produtores, incluindo Steve Mac, Nana Rogues, TMS, Tom Meredith e, claro, Marshmello. Ela também co-escreveu algumas faixas com nomes como Emily Warren, Ina Wroldsen, Jennifer Decilveo e Ed Sheeran. A voz da Anne-Marie é provavelmente a estrela do álbum, uma vez que ela valoriza cada elemento das músicas. Sua voz é incrivelmente forte, e o ouvinte consegue entender seu instrumento. Ela testa a si mesma, levando sua voz para várias áreas diferentes e sem grandes esforços para atingir cada nota. Entretanto, o repertório em si precisa de um pouco mais de emoção para ela realmente conseguir brilhar. Uma coisa é certa, Anne-Marie soube criar um álbum cheio de hits em potencial. É um disco muito radiofônico – um feito teoricamente comum para o material de estreia de uma cantora pop. Mas, embora Anne-Marie consiga mostrar seu verdadeiro talento como vocalista, ela depende muito de sons eletrônicos para capturar a atenção do ouvinte. Apesar de ter alguns hits adoráveis, o restante do “Speak Your Mind” não segue o exemplo. É um debut-album sólido e coeso, mas ao mesmo tempo simplista e linear. Ademais, ele utiliza muitas tendências que estão em alta no mercado.

O repertório abre com “Cry”, uma faixa cativante que agarra você imediatamente devido à poderosa bateria. É uma peça mid-tempo que vê Anne-Marie entregando algumas letras agressivas. “Você nunca encontrará / Outra peça de luxo como eu / Você é um filho da puta / Você não podia nem fazer meu chá / Culpado, você é inocente demais / É um pouco tarde demais para começar e tentar / 2% meu amante, 98% foi perda de tempo”, ela canta. “Cry” é uma canção pop poderosa direcionada a um ex-namorado que tentou fazer papel de vítima após a separação. A letra é cheia de atitude, enquanto os vocais são atrevidos e a entrega confiante. Em outras palavras, “Cry” foi a abertura ideal para o álbum. O segundo single, “Ciao Adios”, é uma das canções mais bem sucedidas da Anne-Marie até hoje. Aqui, você pode sentir sua ferocidade e arrogância, conforme ela não deixa sentimentos do passado atrapalharem o seu presente. É uma das faixas mais contagiantes, dançantes e infecciosas do registro. Musicalmente, “Ciao Adios” é uma canção dance-pop com influências de dancehall sob uma produção otimista. Depois de iniciar as coisas com acordes de uma guitarra, uma batida contundente entra e conduz a música.

É preciso algumas escutas para se conectar verdadeiramente com a mensagem, porque as letras são atrevidas e brincalhonas. Dessa vez, Anne-Marie faz o papel de uma garota que descobre que seu namorado está a traindo. “Eu estou na sua cola, sim você / Eu não sou sua número um / Eu vi você, com ela / Se beijando e se divertindo / Se você está dando todo o seu dinheiro e tempo / Eu não vou sentar aqui desperdiçando o meu com você / Tchau, adeus, pra mim chega”, ela canta no refrão. Seus vocais estão instantaneamente reconhecíveis e vão do registro mais baixo para o mais alto. O staccato parcial dos versos a faz soar muito imprevisível, e, mesmo que o tema não faça referências ao verão, “Ciao Adios” é completamente ensolarada e refrescante. Lançada em 2016, “Alarm” foi a introdução de Anne-Marie para muitas pessoas. Apesar de ter quase dois anos, ela se encaixa perfeitamente no “Speak Your Mind”, visto que sua vibração atrevida é evidente. Há um balanço de hip-hop embutido nas batidas e um groovy irresistível por toda parte. É uma canção electropop que, mesmo depois de tanto tempo, continua sendo um dos melhores singles da Anne-Marie. Em seguida, “Trigger” a encontra tentando alcançar um meio-termo com seu ex-namorado.

Apelando para um diálogo aberto sobre a violência doméstica, essa faixa cria um comentário muito comovente. Dessa vez, a cantora deixa sua marca sobre uma infusão tropical, cantando: “Venha, apenas mostre alguma misericórdia / Você realmente quer me machucar? / Isso não irá consertar as coisas mais rápido / Não precisamos puxar o gatilho”. Divulgado no final de 2017, “Then” mostra um lado mais suave da Anne-Marie. Liricamente, ela segue por uma direção similar a de “Cry”, porém, os vocais destacam sua vulnerabilidade. É um dos momentos mais despojados e sinceros do registro. Embora sua entrega vocal seja emotiva e frágil, consegue transmitir a mensagem de que está melhor sozinha. Dessa vez, você pode realmente sentir a mágoa em sua voz enquanto canta. As cordas do piano e a batida são suaves e não ultrapassam os limites – em vez disso batem o suficiente para complementar o alcance de sua voz. “Eu te amei, eu te amei, eu te amei / Mas isso foi antes / Isso foi antes”, ela confessa nessa pseudo-balada. “Perfect”, por sua vez, é uma das ofertas mais pessoais do “Speak My Mind”. Aqui, Anne-Marie reconhece: “Estou bem com não ser perfeita / Porque isso é perfeito para mim”.

Ao longo da canção, ela aponta para questões que envolvem a confiança corporal, ansiedade e a saúde mental. Eu realmente gosto da música porque fala sobre abraçar suas imperfeições e peculiaridades, bem como se sentir confortável em sua própria pele. “E vou amar quem eu quiser amar, porque esse amor não tem gênero”, ela diz enquanto enfatiza que devemos amar quem quisermos, independentemente do seu sexo. Sonoramente, “Perfect” é uma canção guiada pelo piano, ritmo jazzístico e tom soulful. Inesperadamente, Anne-Marie conseguiu combinar seu estilo extravagante com uma mensagem sobre aceitação. A sétima faixa do álbum é “FRIENDS”, seu hino da friendzone em colaboração com o DJ Marshmello. Você já teve um amigo(a) que de repente lhe disse que estava apaixonado(a) por você, porém, você não sentia o mesmo? Então, é exatamente sobre isso que essa música fala. Aqui, Anne-Marie deixa claro que está perfeitamente feliz em permanecer na amizade. “Você diz que me ama, eu digo que você é louco / Não somos nada além de amigos / Você não é meu amante, é mais como um irmão / Conheço você desde que nós tínhamos dez anos”, ela canta no primeiro verso.

O refrão é ardente e empolgante, conforme Anne-Maria canta: “Já não deixei óbvio? / Já não deixei claro? / Quer que eu soletre para você? / A-M-I-G-O-S”. “FRIENDS” é uma faixa pop e EDM infecciosa que, embora pareça um pouco desajeitada na primeira escuta, possui muitos requisitos para fazer sucesso. A produção se destaca pela presença proeminente de um violão na introdução e durante os versos. O início da música é relativamente leve e carregado pelo violão mencionado. A programação de bateria só aparece durante o refrão, enquanto o ritmo permanece adequado. Consequentemente, o segundo verso é mais consistente e, ao contrário da primeira parte, é ancorado pela bateria. Há um ritmo simples e contagiante por toda música, enquanto a instrumentação contém a assinatura do DJ americano. “FRIENDS” não é a canção mais romântica, pelo contrário, é caracterizada por um conteúdo brutalmente honesto. Embora não seja inovadora, possui um grande polimento EDM e é cativante por todos os meios. Em “Bad Girlfriend”, Anne-Marie nos atrai com uma melodia de piano, antes de fornecer uma inesperada batida de R&B. Enquanto ela listou as falhas de seu ex-namorado nas faixas anteriores, aqui ela descreve por que é uma namorada tão ruim.

“Eu sou uma péssima namorada, eu sou uma péssima namorada / Você me diz seu aniversário, eu esqueço de novo / Eu posso ver suas chamadas, mas não vou atendê-las / Estou rindo mas não acho que você seja engraçado / Eu vou ficar porque você me dá todo o seu dinheiro / Eu sou uma péssima namorada”, ela canta no refrão. A ousadia das letras se aproxima da acidez da Lily Allen, enquanto Anne-Marie confessa que talvez não seja a melhor pessoa para se namorar. “Heavy” é outra faixa pop que foi lançada em 2017, embora tenha sido comparada com “Ciao Adios”. Produzida por The Invisible Men, ela contém batidas tropicais por toda parte. É uma música subestimada que talvez não tenha recebido a atenção que merecia quando foi lançada, especialmente por mostrar a capacidade vocal da Anne-Marie. Contraditoriamente, apesar do seu título, “Heavy” é uma das músicas mais suaves do álbum e, mais uma vez, lhe permite explorar seu lado vulnerável. As letras são ancoradas pela confissão de que seu relacionamento está ficando intenso demais de todas as formas erradas. Enquanto “Alarm” e “Ciao Adios” eram sobre Anne-Marie lidando com ex-namorados, “Heavy” é sobre as lutas dentro de um relacionamento disfuncional. “Quando foi que isso ficou tão pesado? (…) / Quando ficamos tão ruins em ser honestos?”, ela se questiona.

Pode não ser tão forte ou instantâneo como os dois singles citados, mas é surpreendentemente ventoso. Sua entrega contida, quase sussurrada no refrão é linda e, a leve batida tropical, soa razoavelmente fresca. Há um grande apelo comercial neste álbum, talvez em parte devido à personalidade da Anne-Marie. Cada faixa revela um pouco sobre quem ela é, como por exemplo, a nostalgia de “2002”. É uma canção pop alegre e descontraída, na qual Anne-Marie relembra uma paixão inocente que ela teve no começo de sua adolescência. O refrão é incrivelmente cativante e cita algumas canções famosas do final dos anos 90 e começo dos anos 2000, incluindo “Oops!… I Did It Again”, “99 Problems”, “Bye Bye Bye”, “The Next Episode”, “Ride wit Me” e “…Baby One More Time”. Pode-se dizer que “2002” foi lançada como um agradecimento para tais artistas, graças ao auxílio de Ed Sheeran, Julia Michaels, Steve Mac e Benny Blanco. “2002” é aquele pop puro que você estava esperando da Anne-Marie. Uma música lúdica que reflete sobre o ano em questão e os pensamentos inocentes que temos quando ficamos apaixonados na adolescência.

“Eu sempre lembrarei / O dia que você beijou meus lábios / Leve como uma pena / E foi assim / Não, nunca foi melhor / Do que o verão de 2002 / Nós tínhamos apenas onze anos”, ela canta no primeiro verso. Inicialmente, a canção começa com um simples dedilhado de guitarra e, mais tarde, adiciona estalar de dedos e uma batida inspirada no começo da década de 2000. É inegável que naquela época a música pop costumava ser mais simples e despreocupada. Tenho a impressão que as batidas eram um pouco bregas, mas tinham tudo para criar músicas marcantes e inesquecíveis. Produzida apenas por Steve Mac e com vocais adicionais de Ed Sheeran, “2002” é a balada mais nostálgica e despreocupada da cantora britânica. Uma narrativa cativante e otimista sobre um romance de sua infância feita especialmente para o verão. Mesmo que você não tenha nascido na década de 90, poderá facilmente se apaixonar pelo refrão. “Oops, I got 99 problems singing ‘bye, bye, bye’ / Hold up, if you wanna go and take a ride with me / Better hit me, baby, one more time”, ela canta enquanto cita algumas das músicas mais memoráveis daquela época. Não dá para negar que “2002” possui um dos refrões mais liricamente divertidos e edificantes do álbum. Aliás, você saberá que ela foi co-escrita por Ed Sheeran logo depois das primeiras notas.

Porque é uma faixa sobre memórias da infância com guitarras acústicas semelhantes às de “Castle on the Hill”. Eu realmente gostei do arranjo dessa música, e senti que a guitarra funcionou muito bem como principal condutor. Também é incrível como eles conseguiram colocar tantas referências a outras músicas no refrão. Por causa disso, podemos perdoar Anne-Marie e seus co-escritores pelo fato de, ironicamente, nenhuma música citada ter realmente sido lançada em 2002. Para uma faixa chamada “Can I Get Your Number”, há uma timidez inicial forte o suficiente para transmitir o medo da rejeição. No entanto, ela flui através de uma batida empoeirada infundida pelo reggae. Felizmente, ela não recicla letras clichês e, portanto, não se torna tão cansativa. É uma oferta alegre, onde Anne-Marie joga com cautela e toma atitude com um parceiro. Consequentemente, encoraja aqueles a correr riscos quando se trata de um romance que vale a pena. “Mas e se essa merda for amor / Posso, posso pegar o seu numero esta noite / Se não, então eu poderia me arrepender pelo resto da minha vida”, ela canta no refrão. Embora seja uma canção sonoramente insípida, possui letras relacionáveis.

“Machine” é a faixa final da versão padrão do registro e uma das ofertas mais obscuras da Anne-Marie. Aqui, ela discute o que seria uma máquina em comparação com um ser humano. Ela ressalta que a principal vantagem seria não ter que lidar com nossas emoções. Ela reconhece que é sensível ao ponto de ser afetada por pessoas e situações ao seu redor. “Se eu fosse uma máquina / Eu não seria afetado / Por violência na tela da televisão / Não teria um coração / Então você não pode quebrá-lo”, ela confessa. “Machine” pode até ser considerada sua música mais pessoal, porque mostra a verdade sobre ela. Enquanto conhecemos seu lado atrevido, evidente em faixas como “Cry” e “Ciao Adios”, podemos conhecê-la melhor em músicas como essa. No entanto, embora as letras sejam honestas, “Machine” carece de uma produção mais eficaz. Dito isto, posso afirmar que o “Speak Your Mind” não é tão impressionante quanto eu esperaria. Também é longo demais e falta um poder de permanência. Embora seja cativante, ele provavelmente não vai envelhecer tão bem, já que a tendência tropical está desgastada. Se ela conseguir transformar seu som em algo mais atemporal e exibir um star quality mais forte, poderá ter potencial para se tornar mais familiar no mainstream.

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Favorite Tracks:

“Cry” / “FRIENDS (with Marshmello)” / “2002”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.