Review: Amen Dunes – Freedom (2018)

Lançamento: 01/06/2018
Gênero: Indie rock
Gravadora: Sacred Bones Records
Produtor: Damon McMahon, Chris Coady, Delicate Steve e Parker Kindred.

Um enorme salto para a frente, “Freedom” encontra Amen Dunes oferecendo composições poderosas, sutileza e vulnerabilidade. Um trabalho profundamente pessoal que representa um momento decisivo para Damon McMahon.

Damon McMahon, neste quinto álbum como Amen Dunes, tanto pessoal quanto social, lida com seus pais e o pesar da sua difícil educação. O seu último disco, “Love” (2014), apresentou músicas com estruturas mais convencionais e foi uma meditação apaixonada sobre a solidão e o fracasso. “Freedom”, por sua vez, representa o apogeu de sua estética maravilhosamente não refinada. A mãe de McMahon foi diagnosticada com câncer terminal quando ele embarcou na gravação do “Freedom”, e sua tristeza pode ser sentida em várias músicas do repertório. Para ele, liberdade é uma jornada que vai além das ações e palavras. Amen Dunes disse à revista SPIN, uma semana antes do lançamento, que esse álbum serve para “renunciar as idéias de si mesmo”. Esse conceito serve como base para o “Freedom”, o seu disco mais expansivo  até o momento. Escrito ao longo de três anos, esse registro é um exame profundamente vulnerável de tudo associado ao conceito de liberdade. Ao longo dos anos, Amen Dunes se aproximou do público para se tornar algo maior e mais acessível. Suas canções cresceram de forma apertadas e mais convencionalmente bonitas, enquanto sua persona ficava menos enigmática. Enquanto promovia o “Freedom”, o primeiro álbum da Amen Dunes em quatro anos, McMahon disse que sua principal influência era “boa música mainstream”, mencionando um bando de artistas populares dos anos 80 e 90, incluindo Nirvana, Oasis, Tom Petty e Massive Attack.

Usando uma abordagem vigorosa de incansáveis ​​batidas motorizadas e guitarras elétricas, “Freedom” é um registro intimista e igualmente hipnótico. Como título sugere, o disco mostra McMahon tentando escapar das recentes pressões de sua vida, que inclui o relacionamento conturbado com o seu pai e o prognóstico de câncer terminal de sua mãe. Dessa vez, o artista se concentrou mais na escrita das letras. Ele tem uma narrativa clara e quer que o ouvinte leve cada mensagem para casa. No entanto, a música parece mais simples em comparação com seus lançamentos anteriores. Se você seguiu a jornada de Damon McMahon como Amen Dunes, então você viu um artista estranho com tendências psicodélicas e lo-fi, evoluindo para um compositor poderoso capaz de se conectar emocionalmente com o público. Ao longo desta evolução, McMahon construiu um seguimento modesto, mas profundamente dedicado, em grande parte graças à sua transição para um território mais acessível. O álbum é uma mistura eclética de instrumentos e elementos atmosféricos, com tons mais escuros escondidos sob ganchos mais leves e sintonizados com teclas e acordes. Na maior parte, são as letras que definem o palco mais sombrio e pesado. É difícil rotular ou definir o “Freedom” como um determinado tipo de música. No entanto, ressalto que as letras sombrias não combinam com o sentimento positivo que a instrumentação oferece. Originalmente gravado em 2016, o álbum acabou sendo desfeito e regravado.

Como já mencionado, assim que Damon McMahon começou a regravá-lo sua mãe foi diagnosticada com câncer. Com a tragédia, muitas vezes vem o sentimentalismo e a reflexão, mas a resposta de McMahon dificilmente se torna clichê. Em vez disso, a tristeza que paira sobre o “Freedom” é tangível e às vezes confusa. Suas letras são complexas e mais parecem uma poesia. “Deve parar meu pai / Sim, o amor veio sobre mim / Querido, querido, se você quer guerra, então você tem guerra comigo”, ele canta em “Blue Rose”. Um hino sobre seu pai e a identidade masculina. O tamborine é muito cativante e se torna a parte de algo que perdura – um pulso que permanece presente durante toda a música. Talvez mais do que qualquer outra música da banda, “Blue Rose” serve como uma prova do talento de Damon McMahon como compositor. Em quatro minutos, ele é capaz de criar uma narrativa poderosa e praticamente universal que, de alguma forma, soa enigmática. Através de sintetizadores suaves, guitarras e a percussão de Chris Coady, ele descreve as forças externas que atuam em “Blue Rose” – abordando especificamente o relacionamento com o seu pai ausente. A arrepiante e assombrosa “Time” é como um passeio à meia-noite através de uma escuridão eterna com linhas de guitarra, percussão e sintetizadores. Ao sentar-se no topo de uma “nuvem prateada, tão vazia agora”, McMahon pinta uma bela paisagem que torna a vida após a morte misteriosa, em vez de assustadora.

Liricamente, “Skipping School” descreve sua vida na adolescência e o sentimento melancólico de relembrar os velhos tempos. Ela começa despretensiosa com um zumbido agitado e a percussão. Mas isso evolui para um folk em seu clímax com uma brilhante gaita e vocais mais intensos. Toda nostalgia é sustentada por um sintetizador, sobre o qual os tons de guitarra serpenteiam. Algumas expressões religiosas aparecem em “Call Paul the Suffering”, que surpreende com sua camada subjacente de reggae e ritmo mais influenciado pelo jazz. O ritmo saltitante e os padrões rítmicos do piano a tornam mais viva. É um número bizarro e inesperado que também mostra McMahon revelando um outro lado de sua arte. Essa faixa serve como uma liberdade de expressão. Essa liberdade fica mais interessante, no entanto, em “Miki Dora”, que fornece um dos melhores momentos de Damon McMahon. A faixa mantém o refrão com uma guitarra inflexível conforme ele aumenta o ritmo com sua performance vocal. Miki Dora era uma surfista problemático e uma estrela de cinema nos anos 60. Conhecido por gestos racistas como pintar uma suástica em sua prancha de surf, Dora é uma figura controversa para dizer o mínimo e a personificação da misoginia. As letras retratam um triste processo de sua vida, com frases como: “O orgulho destruiu o homem / Eu não conhecia o acordo”. Como a maioria das faixas do álbum, “Miki Dora” possui elementos do rock dos anos 80 em seu arranjo. A melodia melancólica de “Satudarah” dá ao álbum um ambiente diferente.

Ao contrário de outras faixas psicodélicas, ela é mais sensível e possui um fundo acústico. A lentidão desta faixa cria de alguma forma uma atmosfera arrastada. Uma canção que bate lentamente com sua marcha fúnebre. “Believe”, uma linda balada folk, adota uma visão sobre a mortalidade de sua mãe. Aqui, Damon McMahon brinca: “Quando eu era criança, eu tinha medo de morrer / Mas eu cresci agora”. O refrão e o sintetizador cósmico mantêm o arranjo exuberante e completamente ressonante. “Believe” se desenvolve lentamente através de uma guitarra incrivelmente sólida. A autenticidade de McMahon é inquestionável e sua voz totalmente vulnerável. Ao refletir sobre sua mãe, ele proporciona uma triste meditação e oferece uma de suas letras mais expressivas. Mas embora o tema seja pesado e emocionalmente devastador, tudo soa espiritualmente edificante. Em vez de apresentar sua dor, McMahon apenas parece hipnotizado. Os vocais dolorosos e a melodia triste que monopolizam a canção, entram em contradição com as letras, mas aumentam a força de sua composição. Em outras palavras, “Believe” é uma música fabulosa e belíssima que nos remete ao folk-rock que Neil Young fazia quando tinha 30 anos. Uma referência cultural é invocada em “Dracula”. Um pai imperfeito, uma mãe terrivelmente doente e jovens viciados em drogas, nos levam a um complexo mundo de ocasiões. Aqui, através de várias histórias, McMahon explica como podemos nos perder nas armadilhas do mundo e nos libertarmos delas.

Assim como “Dracula”, “L.A.” descreve uma jornada de amor romântico na adolescência sob um cenário jovem e selvagem. Um sintetizador evocativo, uma bateria dançante e vozes de crianças se unem para criar uma purificação atmosférica. O arranjo elegante e a paisagem psicodélica finalizam o álbum. A solene e espiritual faixa-título, “Freedom”, é o abraçar do fim e o começo de algo novo. Da linha de guitarra delicada aos vocais graciosos, há um impressionante adeus para alguém querido. Os primeiros quatro minutos são encantadores, e o último minuto é puro e psicótico. Um despertar de um artista que se libertou das correntes que o mantinha preso. Juntamente com as batidas soltas há letras como: “Você tem uma guitarra linda / E há um oceano onde você está / Onde quer que você corra / O amor virá aqui”. “Freedom” é um álbum emocionalmente sensível e bem construído impulsionado por ganchos de guitarra mal-humorados e camadas sonhadoras. O vocal embaçado de McMahon se dissolve gradualmente em cada ritmo, alastrando-se sobre ondas ondulantes de sintetizador e percussão. O sentimento nostálgico que ele cria é simplesmente maravilhoso. “Freedom” pode não agradar a todos, mas seus arranjos hipnóticos são inegavelmente irresistíveis. O resultado é um álbum impressionante que nos leva por uma completa jornada de sua vida. Cheio de vulnerabilidade, Damon McMahon tenta lidar com seus demônios pessoais, através de um repertório repleto de integridade e beleza artística.

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Favorite Tracks:

“Blue Rose” / “Miki Dora” / “Believe”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.