Review: Amanda Palmer – There Will Be No Intermission (2019)

Lançamento: 08/03/2019
Gênero: Rock alternativo, Punk rock
Gravadora: Cooking Vinyl
Produtor: John Congleton

Catártico em sua honestidade, “There Will Be No Intermission” não está vestido com a mesma teatralidade do seu trabalho passado, mas continua sendo carregado com o drama da vida real.

Amanda Palmer, a compositora da The Dresden Dolls – uma banda de dark-cabaret – sempre foi teatral, isso faz parte de sua identidade. Cada movimento que ela faz é enquadrado e atinge proporções revolucionárias. Você provavelmente se lembra quando ela arrecadou mais de 1 milhão de dólares de seus fãs no Kickstarter para fazer seu segundo álbum solo. O slogan “nós contra eles” usado para reunir seus fãs sempre foi um destaque a parte. É também o tipo de coisa que encoraja o desprezo dos críticos. No entanto, uma coisa é fato: Amanda Palmer pode escrever músicas maravilhosas. É por esse motivo que comparo mentalmente Amanda Palmer e David Bowie. Além das diferenças superficiais, ambos músicos foram compositores que tentaram lançar seu ofício como um ato político. Nos anos 70, Bowie foi uma revolução sexual. Para Amanda Palmer, é uma coisa incompreendida, opressora. Ela se enquadra como Joana D’Arc – veja a capa do álbum – mas na realidade parece o norte-carolinense Ben Folds. Já se passaram sete anos desde que “Theater is Evil” (2012) foi lançado, mas ela ficou bastante ocupada fazendo música desde então – com projetos, homenagens e colaborações pontuais. E, como sugere o título do seu terceiro álbum solo, “There Will Be No Intermission”, toda essa coisa é longa. Quase 80 minutos, na verdade, sendo que duas músicas ultrapassam a marca de 10 minutos. E muitas vezes, há pouco mais que voz e piano nessas composições.

Na era do Spotify e da Apple Music, o “There Will Be No Intermission” parece a coisa mais ousada que Amanda Palmer fez em mais de uma década. Seus fãs vão adorar. “Benji” (2014), da banda Sun Kill Moon, foi tanto um álbum quanto uma gravação de poesia de palavra falada. Os longos trechos das canções permitiram que Mark Kozelek formasse entradas grosseiras e igualmente honestas num diário, sob o disfarce de música. Palmer adota um método semelhante aqui, com muitas dessas músicas meticulosamente recontando pensamentos e eventos dos últimos anos. Mesmo com temas envolvendo maternidade, envelhecimento e morte, esse álbum não é exatamente um passeio emocional, mas sua natureza confessional e obscura permite uma maior intimidade do que Palmer costuma oferecer em sua músicas. E, apenas para ser claro, ela nunca foi uma pessoa fechada. No entanto, dessa vez, ela substituiu as metáforas por recontagens exatas de seus pensamentos. Se você tem ouvido a Sun Kill Moon nos últimos anos, você sabe que ela perdeu o enredo depois de “Benji” (2014). O que tornou tal disco tão excelente foi sua transitoriedade do tempo; o narrador saltava dos dias atuais para fragmentos de memórias, muitas vezes de outras pessoas. A abordagem da Amanda Palmer é mais direta, o que rouba o estilo de algumas de suas poesias. Dada as suas preocupações em “The Ride”, você tem a sensação de que Palmer prefere ser clara do que poética, visto as circunstâncias sociopolíticas de hoje.

“Suicídio, homicídio, genocídio / Cara, é um monte de coisas que você pode escolher”, é o tipo de coisa que você escreverá nos pensamentos mais sombrios, embora não seja exatamente sutil ou profundo. Mas, tanto quanto eu poderia lamentar sobre algumas das escolhas que Amanda Palmer fez aqui, eu ainda acho estranhamente possível ouvir um álbum que é tão longo quanto um filme e duas vezes mais prolixo. John Congleton, que ultimamente está tendo momentos excelentes, ajudou a amarrar tais arranjos esparsos em um todo. Se “Theatre Is Evil” (2012), no qual ele também trabalhou, foi um passeio fascinante, esse novo álbum é a sua resposta lógica, pegando “A Mother’s Confession” como exemplo e estendendo-a até seu ponto de ruptura. Embora nenhuma dessas faixas seja suficiente para impedi-la de prosseguir seu caminho ou implorar para ser ouvida em momentos inconvenientes, é agradável de escutar, devido ao assunto desagradavelmente desconfortável. Dito isto, “There Will Be No Intermission” faz um trabalho fantástico de abrir os olhos para experiências que não seriam ouvidas. Se fornecer uma chance de andar no lugar de outra pessoa é essencial para a verdadeira arte, este álbum é a arte em sua forma mais elevada. Embora o título possa fazer você acreditar de outra forma, os instrumentais são o que elevam este álbum de ótimo para fantástico.

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    SCORE - 78%
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Favorite Tracks:

“The Ride” / “Drowning in the Sound” / “A Mother’s Confession”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.