Resenha: Zola Jesus – Okovi

Lançamento: 08/09/2017
Gênero: Pop Gótico, Dark Wave
Gravadora: Sacred Bones Records
Produtores: Zola Jesus, Alex DeGroot e James Kelly.

Depois de começar fortemente com os discos “The Spoils” (2009), “Stridulum II” (2010) e “Conatus” (2011), Zola Jesus, nome artístico de Nicole Hummel, teve um pequeno deslize em seu último álbum, “Taiga” (2014). Ela decidiu levar sua música temperamental para uma direção mais pop, entretanto, não foi bem-sucedida. Em contrapartida, em seu mais novo álbum, chamado “Okovi”, ela enterrou o experimentalismo pop a fim de explorar, novamente, o seu lado mais escuro e gótico. É um álbum com onze faixas que assume temas como perda, mortalidade, traumas, doença mental e vontade de sobreviver. Apropriadamente, “Okovi” combina as características orquestrais do álbum “Versions” (2013) com componentes eletrônicos e industriais. Para efeito de curiosidade, o título é uma palavra eslava que significa “grilhões” (corrente, cadeia, prisão). O álbum abre com “Doma”, uma faixa ambiente com exuberantes harmonias e sintetizadores. Mesmo que monótona, esta canção define o humor do álbum. O primeiro single, “Exhumed”, encontra Nicole Hummel em boa forma sobre ondas dramáticas de cordas, ritmos eletrônicos industriais e linhas de baixo de grande frequência.

Uma canção assustadora, cheia de cordas dramáticas e sons eletrônicos ameaçadores que canaliza o dano existencial na vida de Hummel. Linhas de baixo distorcidas e percussões tribais deixam a produção ainda mais vibrante. É uma faixa poderosa e com uma sensação de perda e crescimento pessoal, uma vez que possui uma de suas declarações mais abertamente poderosas. A letra realmente mostra Hummel diante de circunstâncias dolorosas e apontam para uma mudança. Esta faixa, certamente, mostra Zola Jesus no seu momento mais potente. A combinação de cordas ansiosas e uivos devastadoramente potentes dão um ar de renascimento para a cantora. A própria música atinge uma das melhores batidas e produções que Zola Jesus já colocou a mão. O videoclipe, por sua vez, é surpreendentemente estranho e visualmente assombroso. Eu acredito que nem os fãs de Zola Jesus estavam preparados para um vídeo tão gótico quanto este. “Exhumed” não é uma das músicas mais fáceis para se ouvir casualmente, entretanto, suas batidas industriais e agressivas são definitivamente marcantes. A terceira faixa, “Soak”, apresenta excelentes tambores, surpreendentes vocais e a perspectiva de uma vítima de um assassino em série.

Enquanto isso, há uma sensação de desconforto nos tons de “Ash To Bone”, principalmente por causa das distorções, melodia escura e cordas tristemente assustadoras. A quinta faixa, “Witness”, vê Zola Jesus dizendo: “Se você pudesse ver de fora / Para ser uma testemunha / Para aquelas feridas profundas e profundas / Resistir / Para manter essa faca longe de você”. As pesadas cordas rasgam por trás da voz de Hummel, enquanto um profundo significado está implícito nos versos. “Witness” é definitivamente uma grande e audaz canção que funciona perfeitamente no contexto do álbum. Zola Jesus é uma artista que tende a cavar profundamente dentro de si mesma para escrever suas músicas. Consequentemente, “Siphon” atua como uma intervenção motivacional no processo de pensamentos suicidas. Em particular, Hummel escreveu esta canção pensando em um amigo que tentou suicídio duas vezes. Aqui, ela demonstra uma preocupação com o seu amigo, dizendo que prefere que ele fique com ela em vez de tirar sua vida. “Nós só queremos salvá-lo / Puxá-lo das noites escuras / Nós só queremos mostrar-lhe / Há mais na vida”, ela canta com uma urgência desesperada.

“Adoramos limpar o sangue / De um homem vivo / Odiamos vê-lo entrar nessas / Noites escuras e frias dentro de sua cabeça / Não vou deixar você sangrar / Não posso deixar você sangrar”. A música pontua as letras com uma distorção barulhenta e forte bateria. Tudo soa muito poderoso nesta canção. Algumas cordas rasgam por cima da voz de Hummel, enquanto ela canta linhas como: “Se você pudesse ver de fora / Para ser uma testemunha / Para aquelas feridas profundas e profundas / Resistir, para manter essa faca de você”. Mais uma vez, Zola Jesus criou uma música excepcional com um essência escura e devastada. Ao contrário de algumas de suas faixas mais dançantes, “Siphon” é sombria, séria, obscura e explora a mente humana danificada. Dentro de sua composição, temos um instrumental poderoso e percussão pesada em torno dos vocais sublimes de Zola. Embora o tema da canção não seja leve, sua apresentação e abordagem tentam capturar um equilíbrio emocional. Co-produzido por WIFE e Alex DeGroot, “Siphon” fornece um ambiente pessoal com resultados pesados, escuros e exploratórios. Esta música pode ser tomada como um trabalho de pura catarse ou libertação emocional.

Pisando nos limites entre a sensibilidade eletrônica e a insanidade gótica experimental, é nada menos do uma música impressionante. “Veka”, palavra russa que significa “séculos”, é um retrato angustiante da humanidade. Ela abre com uma mistura assustadora de ruídos, antes de entrar numa marcha percussiva. Quando a batida toma o centro do palco, sua natureza fica ainda mais estranha e ameaçadora. Em seguida, “Wiseblood” apresenta um outro lado das coisas, ao questionar a mundanidade da vida que aceitamos. É uma canção que tenta exibir um eco celestial, com vocais possantes sobre nítidas percussões. A penúltima faixa, “Remains”, é provavelmente o esforço mais emocionante do repertório. Em vez de oferecer respostas concretas sobre um grande tema, Zola Jesus faz uma simples pergunta sobre um agitado toque de sintetizador e teclado: “O que resta de nós?”. Em suma, a faixa de encerramento, “Half Life”, fornece um ritmo cheio de cordas elevadas, sintetizadores, bateria, baixo e uivos desconcertantes. Uma das coisas que mais fazem “Okovi” um álbum particularmente incrível é sua natureza profundamente pessoal. Todas as músicas conseguem deixar uma marca duradoura e, quando colocadas em conjunto, formam uma coleção incrivelmente coesa e sonoramente agradável.

Favorite Tracks: “Exhumed”, “Soak” e “Siphon”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.