Resenha: YG – My Krazy Life

Lançamento: 18/03/2014
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: Def Jam Recordings / CTE World / Pu$haz Ink
Produtores: Young Jeezy, YG, Sickamore, DJ Mustard, B Wheezy, C-Ballin, Chordz, Metro Boomin’, Mike Free, Terrace Martin e Ty Dolla $ign.

Keenon Daequan Ray Jackson é um rapper de Compton, Califórnia, atualmente com 25 anos e conhecido por seu nome artístico YG. Em 2009, após o lançamento do seu single “Toot It and Boot It”, com Ty Dolla $ign, ele assinou um contrato com a Def Jam Recordings e lançou algumas mixtapes. Seu álbum de estreia, “My Krazy Life” foi lançado em 18 de março de 2014 e conta com produções de Young Jeezy, que atuou como produtor executivo, DJ Mustard, Ty Dolla $ign, Metro Boomin’, Terrace Martin, entre outros. Também conta diversas participações nos vocais, como Drake, Rich Homie Quan, ScHoolboy Q e Kendrick Lamar. O disco estreou no número #2 da parada de álbuns da Billboard, com vendas na primeira semana de 61 mil cópias nos Estados Unidos. Esse disco de estreia do YG foi muito aguardado no começo de 2014 e após ouvir todo o material com bastante atenção, você pode perceber o porquê. “My Krazy Life” proporciona um olhar sobre a vida romântica e conturbada de YG, na mesma medida que foi um grande lançamento de hip-hop amplamente orientado para o mercado.

Ele é um material preenchido com esquetes que contam algumas histórias. Enquanto isso não é um conceito original, a narrativa é simples e fácil de seguir, em grande parte devido à própria atenção dada as esquetes. Mas como um conceito bem feito por si só não faz um álbum vender, YG fez questão de entregar várias faixas de hip-hop em potencial. Igualmente a outros grandes artistas de hip-hop, a arma secreta de YG foi ter um produtor de confiança ao seu lado, que foi responsável por moldar completamente o seu som. Snoop Dogg e Eminem já tiveram apoio integral de Dr. Dre, o duo Clipse tinha o Neptunes, Drake tem ao seu lado o Noah “40” Shebib e YG, por sua vez, tem como parceiro o DJ Mustard. A produção de Mustard marca mais um aspecto do qual YG faz uso para alterar fórmulas já existentes dentro do mundo do hip-hop. Na mesma qualidade que Mustard usa uma série de influências e as transforma em um som que já tornou-se sua marca registrada. Portanto, com a ajuda do seu colaborador DJ Mustard, essa estreia comercial de YG é uma surpresa visceral, cujo pontos fortes culminaram em um poderoso e impressionante material.

Enquanto muitos dos grandes álbuns de rap de hoje em dia aparentam ter vindo de qualquer lugar, o seu colaborador de longa data DJ Mustard, lidou com a maior parte da produção aqui, sendo responsável por mais da metade do registro. Ele e YG abusaram de batidas simples, hipnóticas e espaçosas, construídas em torno de palmas e, normalmente, unidas por melodias repetitivas compostas por apenas algumas notas. Comparações com o disco “Good Kid, M.A.A.D City” de Kendrick Lamar também são um pouco inevitáveis, pois o “My Krazy Life” é, igualmente, baseado em torno de uma grande narrativa de vida. Em sua essência é praticamente uma tentativa de reformulação do “Good Kid, M.A.A.D City”. YG, de forma inesperada e como um rapper verdadeiramente talentoso, usou o registro para expressar-se e contar histórias. Enquanto ele não rouba os holofotes da narrativa como Kendrick Lamar, não dá para negar o grande apelo comercial do registro. Mas motivos não faltam para notarmos o quanto “My Krazy Life” é convincente.

YG

Desde a forma como YG cresceu fortemente como um rapper, passando pela excelente produção de Mustard e edição selvagem de Young Jeezy, até o seu infalível senso de diversão. E mesmo querendo apenas se divertir, YG provou que consegue interagir bem com o legado do hip-hop da Costa Oeste dos Estados Unidos. “Momma Speech Intro”, primeira faixa, definitivamente prenuncia e estabelece o tom do disco: “Você vai acabar na prisão filho da puta, como seu pai maldito”. Uma maneira pesada para dar o pontapé inicial e uma pequena fatia da vida louca de YG. Em seguida, temos a breve “BPT”, com pouco mais de 2 minutos, onde o rapper entrega rimas incrivelmente ágeis. “Nego eu sou de BPT / Lado oeste, lado oeste / TTP, o que bloco, o que bloco / 400, rua Spruce / O que vocês estão fazendo? / Nego mate toda a carne”, ele cospe no principal gancho. Na mesma medida, os seus sintetizadores são sinistros e extremamente viciantes. A faixa três, “I Just Wanna Party”, é um banger em linha reta que conta com a participação de ScHoolboy Q e Jay Rock, além de uma ótima e minimalista produção de Mustard.

Apesar do título, “I Just Wanna Party” não é apenas uma música sobre festa, ela consegue captar grande parte da mentalidade de YG presente no álbum: “Eu só quero festa, eu não quero machucar ninguém”. Ela também fornece um dos maiores pontos fortes de YG, que é a capacidade de criar ganchos incrivelmente infecciosos. ScHoolboy Q lida com o segundo verso, encontrando-se confortável e corajosamente se gabando que “poderia vender uma chave para Deus”, fazendo referência a drogas. Jay Rock que assume o terceiro verso é todo gangsta: “I ain’t with the extras, I ain’t got a stunt double / You ain’t got no hands so they might let the gun touch you”“Left, Right”, que serviu como segundo single é, definitivamente, um dos grandes destaques do registro. Aqui, temos tambores batendo constantemente, elementos orquestrais, que inclui violinos, surgindo ao fundo e arejados sintetizadores. A produção de Mustard ficou no ponto, e apesar das letras serem bastante relacionadas a sexo, são envolventes e simples o suficiente para fazer qualquer um recitar junto.

A faixa seguinte, “Bicken Back Being Bool”, é misteriosamente codificada, possui uma narrativa legal e uma qualidade viciante. O seu instrumental estrelar e atraente é outra oferta de DJ Mustard e na letra encontramos linhas como: “Você foi para a prisão como uma cadela, voltou para casa como um dique / Negro, caramba! / Eu não jogo essa merda / Minha esposa como SEGA, eu não jogo essa puta / Eu sou um negro com uma atitude de filho da puta”. Na faixa “Meet the Flockers” encontramos YG detalhando, por demais, sobre o que fazer durante um assalto em casas. Essa canção saiu como um verdadeiro confessionário, com o rapper falando sobre algumas das coisas que fez para poder sobreviver. Nessa faixa ele ainda recebe assistência do rapper Tee Cee no segundo verso. “My Nigga”, por sua vez, foi o primeiro single do álbum e conta com participações de Young Jeezy e Rich Homie Quan. Também produzida por DJ Mustad, essa faixa interpola com “The Sky is the Limit” do rapper Lil Wayne, bem como tem sample de “Down 4 My Niggaz” do rapper C-Murder. A música foi hit nos Estados Unidos, onde atingiu a posição #19 da parada de singles e vendeu 1 milhão de downloads.

Certamente “My Nigga” é uma canção habilmente trabalhada, que serve como uma peça central e uma das mais essenciais desse disco. Boa parte do crédito deve ir, novamente, para Mustard, cuja lealdade a YG foi fundamental para a criação da música. Jeezy e Rich Homie Quan contribuiram positivamente, mas a batida e o cativante refrão são os pontos altos. Sexo é um tema que se torna o foco nas duas próximas faixas, a começar por “Do It to Ya” em parceria com TeeFLii. Não é uma canção de amor, dada a sua natureza, mas soa como uma a partir da perspectiva de YG. Apoiada por um piano é uma música que enfatiza tanto a sua melodia quanto o ritmo. Mas também tem alguns versos que passam longe de estarem presentes em um manual de cavalheirismo (“Eu disse a rosto para baixo bunda para cima / Essa é a maneira que nós gostamos de foder”). Já “Me & My Bitch”, com Tory Lanez, deixa de ser uma canção de amor tradicional para ser um exame mais profundo e pessoal de um relacionamento de YG. O rapper revela a razão por trás da sua desconfiança com o sexo oposto. O melódico gancho cantado por Tory Lanez ainda explica boa parte disso: “Usado para ter uma namorada / Agora tudo que eu tenho é enxadas / Basta olhar para uma garota / Mas ela estava comendo no baixo”.

YG

Outra música de grande destaque do repertório é “Who Do You Love?”, em colaboração com o rapper Drake, que em alguns momentos roubou a cena. “Eu sou o general, apenas certificando se meus soldados estão em linha reta / Tive que deixar o meu mano, mano tem um caso aberto / Mas eu sou grande no oeste como sou grande no sul / Então, nós vamos pagar algumas pessoas, nós vamos descobrir isso”, ele recita de forma prepotente. Inspirada por uma canção de mesmo nome de Lil Boosie, “Who Do You Love?” tem uma batida pesada, um sintetizador nervoso e tudo de melhor das produções de Mustard. “Really Be (Smokin N Drinkin)” também apresenta outra linha sólida a partir do seu convidado, no caso, Kendrick Lamar, que surge como um relâmpago na hora do seu verso. “Eu acordei esta manhã, eu tinha um tesão / Fui dormir ontem à noite sem nenhuma vadia, mano, eu estava solitário”, é a primeira linha entregue nesse pegajoso confessionário. Essa faixa puxa o ouvinte para dentro do seu stress, do qual YG diz ser a razão pelo qual fuma e bebe. Com uma batida escura, fornecida por Metro Boomin’, a faixa “1AM” lida com uma pressão sofrida pelo rapper. É um número autobiograficamente conduzido, com YG referenciando a falta de disciplina da sua juventude.

O interlúdio “Thank God” reencena um telefonema que foi entregue para a sua mãe quando ele foi preso. A música apresenta um primeiro verso cantado por Big TC e, posteriormente, um rap interpretado por RJ. A faixa de encerramento, “Sorry Momma”, é um ode implorando por redenção em uma homenagem à sua mãe. Conta com a participação de Ty Dolla $ign e Terrace Martin no saxofone, sendo basicamente uma reminiscência de “Dear Mama” de 2Pac. A sua produção é exuberante e muito bonita, especialmente, pela inclusão do sax. YG assume a responsabilidade das suas próprias ações, por causa de um roubo, e pede desculpas a ela. Aqui, o rapper confessa: “Eu invadi casas e vendi coisas roubadas para você / Eu sei que não é o tipo de coisa que seu filho deve fazer”. Um verdadeiro contador de histórias, “My Krazy Life” do rapper YG está cheio de contos de rua, tiroteios, festas, invasões à domicílio, relacionamento materno e diversão com o sexo oposto. Juntamente com o seu produtor executivo, Young Jeezy, YG montou um álbum sólido e deu aos seus fãs um pouco do que já aconteceu em sua vida louca.

O trabalho notável da produção teve, como já mencionado, dedo de DJ Mustard, Ty Dolla $ign, Metro Boomin’, Terrace Martin, entre outros, que contribuíram para a entrega de um ótimo material. “My Life Krazy” certamente foi um álbum de estreia mais do que satisfatório que atingiu os objetivos que se propôs alcançar e deu uma nova energia para os lançamento de rap da Costa Oeste. Metade das canções deste álbum tem menos de três minutos, transmitindo a sensação de ser curto demais para um disco de hip-hop, no entanto, não é nada que tire o seu brilho. Porque ele está repleto de emoções instantâneas e lições. Suas músicas podem ser alvos de corpo e mente, mas também são essencialmente histórias contadas de formas diferentes e atraentes. Com base nos singles, seria fácil descrever YG como um rapper de rua tipicamente agressivo, mas no geral, esse registro é detalhado, expansivo e muito bem feito para os padrões de um álbum de estreia. Verdadeiramente não há erros que podem ser encontrados nitidamente em cada faixa, pois praticamente todas elas tiveram um papel relevante para a narrativa do disco. E além da natureza ostensiva de suas rimas, o trabalho feito aqui serviu para mostrar o potencial de YG. Dificilmente se tornará um clássico moderno do rap, mas, sem dúvida, “My Krazy Life” foi um dos melhores lançamento do gênero em 2014.

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Favorite Tracks: “I Just Wanna Party (feat. ScHoolboy Q & Jay Rock)”, “Left, Right (feat. DJ Mustard)”, “My Nigga (feat. Young Jeezy & Rich Homie Quan)”, “Who Do You Love? (feat. Drake)” e “Really Be (Smokin N Drinkin) [feat. Kendrick Lamar]”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.