Resenha: Yellowcard – Lift a Sail

Lançamento: 07/10/2014
Gênero: Rock Alternativo
Gravadora: Razor & Tie
Produtores: Neal Avron.

A banda Yellowcard já possui 18 anos de carreira e em 2014 lançaram seu nono álbum de estúdio, intitulado “Lift a Sail”. Para quem não sabe, o Yellowcard foi formado na Flórida e atualmente é composto por Ryan Key, Sean Mackin, Ryan Mendez e Josh Portman. Eles são mais conhecidos por seus singles “Ocean Avenue”, “Lights and Sounds” e “Light Up the Sky”. Após entrarem em um hiato de dois anos a partir de 2008 até 2010, eles voltaram em março de 2011 com o disco “When You’re Through Thinking, Say Yes” e, em seguida, lançaram “Southern Air” em agosto de 2012. “Lift a Sail” foi precedido pelo single “One Bedroom” e é o primeiro trabalho da banda a não apresentar o envolvimento do baterista Longineu W. Parsons III, que deixou a mesma em março de 2014 e foi substituído, temporariamente, por Nate Young da banda Anberlin. Também é o primeiro material lançado por sua nova gravadora, a Razor & Tie da qual eles assinaram um contrato em abril de 2014.

Formado por 13 faixas, “Lift a Sail” estreou em #26 na Billboard 200, com vendas na primeira semana de 14 mil cópias nos Estados Unidos. É um álbum um pouco diferente dos outros trabalhos do Yellowcard, acredito que qualquer fã de longa data deve concordar com isso. Este disco apresentou uma banda que mudou, tanto emocionalmente, como liricamente e sonoramente. É um material bem menos energético, no entanto, compensou essa falta com bastante precisão e criatividade. O seu andamento segue em torno de expandir as fronteiras do grupo em novos e desconhecidos territórios. É um proposta interessante fazer uma abordagem mais orientada para o rock e, de certa forma, algo mais ousado para os membros do Yellowcard. Eles construíram um disco com uma proposta diferente, mas encontraram uma maneira de manter um certo grau de familiaridade com seus seguidores de longa data. A transição do pop-punk para o rock alternativo foi admirável, e a maioria das canções encontradas nesse registro ainda foram construídas sobre uma musicalidade, abertamente, simplista e com ganchos melódicos bons o suficiente.

A honestidade da escrita desse registro também é uma grande atração, pois permitiu uma maior conexão com seus fãs. A banda decidiu abrir o repertório com uma faixa instrumental, intitulada “Convocation”. Ela possui menos de 2 minutos e fornece uma melodia solene e otimista interpretada pelo violinista Sean Mackin. Essa canção consegue imediatamente ditar o tom para o restante do álbum. Na mesma medida, o violino e as belas camadas de som nos lembra exatamente quem é o Yellowcard e criam uma atmosfera de calma e reflexão. Logo em seguida, a banda salta direamente para um som mais pesado com “Transmission Home”. Essa possui tambores exuberantes de Nate Young, que realmente faz a música decolar, e um riff de guitarra alucinante que progride continuamente durante toda a sua execução. Essa canção soa ainda mais bonita por causa da doce melodia no piano e dos suaves violinos apresentados na ponte. Seguindo com um som eletrizante temos “Crash the Gates”, onde o vocalista Ryan Key canta com uma angústia e raiva, enquanto o seu pano de fundo lembra alguns trabalhos do 30 Seconds to Mars.

Yellowcard

O pré-refrão é cheio de sintetizadores arejados e uma boa batida eletrônica, mas os riffs de guitarra elétrica e o refrão são, em particular, ainda mais viciantes. Embora seja mais estereotipada do que o restante do disco, o segundo single, “Make Me So”, é uma mistura cativante de uma bateria eletrônica com riffs rápidos e um refrão explosivo, que acabam por entreter. É basicamente um retorno ao clássico som do Yellowcard, com guitarras mais leves entrelaçadas com o violino. Ela tem uma abordagem que mantém-se completamente fiel às raízes punk-rock da banda. Você também pode contar com o Yellowcard quando trata-se de uma canção de amor pop-punk, no caso, “One Bedroom”, que foi lançada como primeiro single. Uma balada mid-tempo simplista, porém, criativa e uma grande combinação de um novo e velho som. Esta canção é certamente um dos destaques. Na verdade, acredito que seja facilmente a melhor faixa do álbum. Ela começa com uma bateria eletrônica e uma melodia acústica suave, e alguns outros instrumentos que criam harmonias incríveis. Mais tarde, tudo isso leva a música para um solo de guitarra desafiante que ressoa até a música desaparecer gradualmente.

“Fragile and Dear”, sexta faixa, mostra a banda empregando alguns elementos eletrônicos em seu som, fundido-os com suas melodias brilhantes e uma guitarra energética. Essa música muda um pouco o ritmo do registro, pois baseia-se quase que completamente em um contratempo eletrônico. O momento em que as cordas do violino de Sean Mackin harmonizam, a canção fica bastante comovente. A letra também é muito boa e refinada, outro trabalho de Ryan Key, que firma ainda mais seu status de escritor da banda e mostra, mais uma vez, suas habilidades como compositor. Outro grande destaque do álbum é a faixa “Illuminate”, que usa uma abordagem mais pesada, algo reminiscente do disco “Light and Sounds” (seu último trabalho no gênero pop-punk, antes de começarem a acenar para o rock alternativo). Aqui, Ryan Key soa mais forte e confiante, a medida que brinca com falsetes e arrepia vocalmente. A letra é carregada de boas energia, como ouvimos ele cantando diretamente para o seu amor, com um grande otimismo sobre o futuro: “Você me imagina, o que você vê? / Talvez um futuro pleno em rampas / E pensando esperança hoje à noite a partir do que já foi feito”.

“Illuminate” é um número realmente gracioso, cheio de adrenalina e gloriosamente amplificado pelo ritmo da percussão e guitarra apaixonada de Nate Young e Ryan Mendez, respectivamente. “Lift a Sail” é o primeiro álbum que Key grava como um homem casado, logo, aqui contém um maior número de canções de amor. “Madrid”, por exemplo, é uma homenagem muito bem escrita sobre quando ele conheceu sua esposa. É uma suave e delicada música acústica, com destaque para os seus vocais emotivos. Sua letra é, sem dúvida, uma das mais sinceras do álbum, acompanhada perfeitamente pelo violino de Sean Mackin. A nona faixa, “The Deepest Well”, consiste em letras do mesmo naipe de “Crash the Gates” e apresenta o convidado Matty Mullins, vocalista da banda Memphis May Fire. Sua voz limpa se mistura muito bem com a estável e já estabelecida de Ryan Key. Com guitarras ressonantes, uma bateria esmagadora e um melódio refrão, essa faixa é o lar de alguns dos tons mais pesados encontrados no disco.

Em seguida, a faixa-título, “Lift a Sail”, cria uma imagem para representar a fé da banda: “Se um vento frio começa a subir / Agora estou pronto, estou pronto agora / Com a última vela erguida / Agora estou pronto, estou pronto agora”. É uma canção muito significativa para o registro, visto que vai direto ao ponto e tem uma forte ligação com a forma como Ryan Key lidou quando sua esposa ficou internada por conta de um terrível acidente de Snowboard. Sonoramente, é uma canção muito linda, sofisticada e com uma melodia encantadora. Outra homenagem à esposa de Key, aparece na faixa “MSK”, sigla que se refere ao fuso horário de Moscou, Rússia. Impulsionada por uma criativa composição carregada de cordas, “MSK” apresenta uma instrumentação sem nenhum tambor ou guitarra. É uma música que realmente destaca o som do violino de Sean Mackin, algo que fez a banda ficar tão conhecida. Foi uma mudança agradável, notável por seus riffs de violino e a abordagem minimalista emparelhada com letras emocionais. É uma música que descreve a dificuldade da relação de Ryan Key e sua esposa por causa do tempo, visto que ela reside e vive na Rússia.

Yellowcard

Esse álbum proporciona uma forte dose de rock e experimentação do gênero alternativo, no entanto, ainda há uma grande quantidade do som clássico do Yellowcard, como podemos ouvir na faixa “My Mountain”. Essa oferece algumas das melhores letras do disco, centrando-se na perda de um ente querido e dedicado ao avô de Key, que faleceu antes do lançamento deste álbum. Ela tem uma mensagem clara de auto-crença, falando sobre como suportar as provações da vida e faz uma alusão às cinzas de seu avô que foram espalhadas por uma montanha. Key canta lindamente no refrão: “E se você precisar de mim eu nunca vou estar muito longe / Eu estou sempre com você como a criança em seu coração”. Musicalmente, é uma pista sólida, com uma percussão ativa e latejante, além de riffs, sintetizadores e ritmo rápidos. O registro termina na faixa “California”, uma balada conduzida por um lento piano. É outro ode escrito para a esposa de Key que, embora seja bastante simples e longo demais, é uma linda canção. Aqui, encontramos ele cantando versos como: “Quando tudo o que eu posso ver / Escurece eu sinto que você está aqui comigo / E eu, eu estou me segurando em você / Quando as sombras tentam me engolir / Você é a única luz que eu sempre precisarei / E eu, eu estou me segurando em você”.

É impressionante como tanta coisa aconteceu com a banda desde o seu último álbum. Afinal, nesse meio tempo o violinista Sean Mackin foi tratado de um câncer de tireoide, o baterista original da banda, Longineu W. Parsons III, decidiu sair depois de 17 anos, eles trocaram de gravadora e Ryan Key passou por momentos delicados após o fatal acidente de Snowboard deixar sua, até então, noiva paraplégica. Com essa série de tumultuados acontecimentos, não é surpreendente ver que o “Lift a Sail” é o álbum mais ambicioso e experimental do Yellowcard. Eles exploraram sons diferentes e instrumentação eletrônica, enquanto Ryan Key amplificou sua composição para expressar os acontecimentos de sua vida nos últimos anos. Logo, percebemos o quanto essa banda passou por um tremendo crescimento artístico recentemente. É bom saber que eles souberam sair rapidamente de momentos de dor e desgostos, e partir para um lado mais sábio e otimista.

“Lift a Sail” é um disco muito simples, mas é igualmente eficaz. Suas mensagens de esperança serviram de fato como uma crença para toda a banda. Enquanto as mudanças da vida deles são bastante significativas aqui, percebe-se que o Yellowcard ainda se apresenta como uma banda de rock confiante e eminentemente capaz. O álbum, como um todo, é construtivo e um canal para todas as ideias, emoções e inspirações que cada letra foi capaz de evocar. É nada além do que mais um trabalho coeso, sólido e criativo, capaz de combinar ganchos energéticos, melodias suaves e letras relacionais. Os anos passaram e o Yellowcard, francamente, mudou para melhor, entregando um lirismo mais profundo e com um grande senso de maturidade. Apesar de estarem em torno de quase 20 anos de carreira, a banda ainda continua a desafiar e reinventar-se. “Lift a Sail” pode não ser uma abrangente obra-prima, mas é um catalisador crucial para deixar qualquer fã animado sobre o futuro do Yellowcard.

70

Favorite Tracks: “Transmission Home”, “Crash the Gates”, “One Bedroom”, “Illuminate” e “Lift a Sail”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.