Resenha: Vance Joy – Dream Your Life Away

Lançamento: 05/09/2014
Gênero: Indie Pop, Folk
Gravadora: Liberation Music / Atlantic Records
Produtores: Ryan Hadlock, James Keogh, Edwin White e John Castle.

James Keogh é um cantor e compositor australiano, atualmente com 27 anos, mais conhecido por Vance Joy. Em 2013 ele assinou um contrato de cinco álbuns com a gravadora Atlantic Records e lançou seu single de estreia, “Riptide” no mesmo ano. Suas maiores inspirações são músicos como Bob Dylan e George Harrison, enquanto seu estilo é classificado por muitos como um “fácil de ouvir” e/ou “acústico base”. Seu primeiro álbum de estúdio é intitulado “Dream Your Life Away” e foi lançado em 05 de setembro de 2014 na Austrália, pela Liberation Music, e 09 de setembro do mesmo ano nos Estados Unidos, via Atlantic Records, e no restante do mundo através da Warner Music. Em sua semana de lançamento atingiu o número #1 na parada de álbuns da Austrália e a posição #17 da Billboard 200 dos Estados Unidos. “Dream Your Life Away” foi um bom começo para um ex-jogador de futebol australiano, que abandonou o esporte para seguir sua carreira de músico. É um disco feito com uma honestidade e sinceridade suficiente para agradar e espalhar a nostalgia juvenil de suas letras.

Formado por 13 faixas, é um material que gira em torno da peça central “Riptide”, oferecendo várias músicas nesse molde familiar, temas românticos e introspectivos, além de sonoramente explorar um lado acústico e a música folk-pop. Para ser mais específico, “Dream Your Life Away” poderia ser classificado como algo entre o som descontraído do Jack Johnson e da seriedade da banda Mumford & Sons. Quase todas as melodias desse álbum são alegres e agradáveis, embora não particularmente memoráveis, ao passo que suas harmonias são doces e fortes. O álbum consegue realizar a difícil façanha de encontrar um lugar entre o cruzamento de um som comercial e de qualidade. Funciona como um bom álbum devido, principalmente, à sua simplicidade, com cada faixa sendo reduzida aos componentes centrais da melodia, voz e letra. “Winds of Change”, primeira faixa, é uma canção de amor com um olhar um pouco lunático e melancólico. Comandado por cordas dedilhadas e um suave sintetizador, é comovente e encantadora em uma simplicidade da qual, particularmente, Vance Joy parece sentir-se confortável.

O segundo single do álbum, “Mess Is Mine”, abre com um toque de tambor estável e atraente, enquanto uma simples linha de guitarra acústica apoia a voz expressiva de Vance Joy. O refrão é mais agitado, com palmas, baixo e bateria, que enfatizam ainda mais o seu vocal e adicionam uma energia extra. Em alguns momentos sua melodia e batida até nos remete a banda Mumford & Sons. Certamente é um dos destaques do disco, sua letra, inclusive, ainda possui versos com uma certa carga emocional, como por exemplo: “Quando você pensa em amor, você pensa em dor?”. Em faixas como “Wasted Time”, Joy usa suas habilidades de contar histórias em prol de verdadeiras emoções. Essa é a segunda música com maior duração, onde ele utiliza uma guitarra simples, bons arranjos e vocais experimentais, que fazem você perceber o quão cativante eles podem ser. O indie-folk “Riptide” é, sem dúvida, o ponto alto e grande sucesso do álbum, uma canção muito sólida e talvez a mais completa. A partir das letras peculiares à natureza boba dela, é uma música que realmente mereceu todos os elogios que recebeu.

Vance Joy

Muito conhecida por seu lirismo otimista, metáforas e referências à cultura pop, “Riptide” foi escrita por Vance Joy, que também a produziu junto do baterista Edwin White. Suas cordas dedilhadas, o ukulele a solo e a simplicidade serena do seu lirismo dão um show a parte. A faixa seguinte, “Who Am I”, fica um pouco aquém das quatro primeiras músicas apresentadas. Ela soa quase idêntica a canção “Play with Fire”, que está presente no seu EP “God Loves You When You’re Dancing” de 2013. Portanto, embora seja uma música divertida, acaba deixando de ser interessante por não ter nada de muito especial. “From Afar”, sexta faixa, é uma das canções mais bem escritas e atraentes do registro. Ela fala sobre o amor não correspondido, abrangendo emoções de um garoto que nunca se acertou com determinada garota. Há uma verdadeira sinceridade por trás (“Eu tenho vivido com as migalhas do seu amor / E eu estou morrendo de fome agora”) e funcionou muito bem como primeiro single promocional. Sua atmosfera sonora consiste em sutis acordes e um intenso e triste vocal. Tal como acontece com grande parte do registro, é uma canção sobre o amor, mas que consegue ser comovente em sua simplicidade.

“We All Die Trying to Get It Right”, por sua vez, traz uma melodia na guitarra meio indefinida e acaba por ser um momento monótomo. Infelizmente, não é um número tão forte ou muito memorável. Por outro lado, a bela balada “Georgia” é uma das faixas que mais se destacam. Ela é uma doce homenagem, não só para uma garota, mas também à música “Georgia On My Mind” de Ray Charles (“A maneira como você me beija / Irá funcionar toda vez / Chamando-me para voltar para a cama / Cantando Georgia On My Mind”). No geral, é uma pista de amor, comovente, melancólica, bem trabalhada, com um bom enquadramento feito pelo violão e letras que combinam perfeitamente com a leveza e estética da voz de Vance Joy. “Red Eye”, faixa mais longa, é outra música muito poderosa, particularmente, no mesmo naipe de “Riptide”. O seu refrão, um pouco mais explosivo que o habitual, consegue seduzir facilmente o ouvinte. Apesar de sua letra ser meio incomum, com Joy se comparando a um cão (“Bem, você sabe que eu ainda sou um cão / E eu estou confiando em meu nariz / Será que vai me mostrar o caminho?”), os seus vocais funcionaram de uma boa maneira.

Vance Joy

O riff de guitarra da otimista “First Time” é bem cativante, enquanto sua estrutura também é muito semelhante à de “Riptide”. É uma canção que, em primeira audição, parece um pouco repentina demais, por conta do seu ritmo mais rápido que as demais. Em sua letra Joy tenta contar uma história, um pouco entendiante e repetitiva, sobre o primeiro amor. A décima primeira faixa, “All I Ever Wanted”, pode não ser uma das fortes do álbum, mas ainda assim é decente. Sua batida é mais contundente e a sonoridade mais pop que as outras, no entanto, ainda é uma canção com elementos de folk. “Best That I Can” é uma balada de amor lenta, que não tem nada além do seu já demonstrado suave alcance vocal. Sua letra é admirável, pois possui frases e situações bem relacionáveis. O álbum ainda termina com outro número mais lento e emocional, chamado “My Kind of Man”. Essa demonstra, além de falsetes, um pouco mais dos elementos doces e crus do vocal de Joy. Suas letras ainda conseguem enviar um estado de espírito reflexivo para o público, mas sem prejudicar as vibrações positivas que irradiam o restante do disco.

Enfim, apesar de não ser uma música bombástica para encerrar o álbum, certamente foi um final muito apropriado. No geral, “Dream Your Life Away” é uma estréia bonita, uma compilação de canções doces, leves e descontraídas, mas que não chegam a expressar uma grande visão artística. O seu som é indie-folk, mas os temas das músicas pisam decididamente no território pop, tratando quase que exclusivamente de relacionamentos. A voz de Vance Joy é agradável e transparece de uma sinceridade que te faz querer cantar junto. Mesmo a base temática da maioria de suas músicas serem, relativamente, pouca inspiradora, com esse disco Joy pode provar que é um bom contador de histórias. É refrescante ouvir uma emoção investida em um trabalho de estreia, soando ocasionalmente como uma versão mais relaxada da banda Mumford & Sons. No entanto, ressalto que “Dream Your Life Away” também tem suas falhas, como por exemplo, o seu sentimentalismo global que pode ser visto como um aspecto positivo ou como uma falta de criatividade e experimentação.

Essa falta de experimentação permite que o registro comece a se arrastar em determinados momentos, com o uso repetitivo da guitarra acústica e estruturas musicais muito semelhantes a de “Riptide”. Como já mencionado, as letras também se concentram em poucos temas, carecendo de uma maior diversidade. Embora o minimalismo dentro do seu conteúdo lírico seja relacionável, acaba ficando quase demasiado repetitivo em suas ideias. O ritmo e o arranjo de cada música é diferente, porém, é difícil escapar da sensação de que todos eles expressam o mesmo sentimento, ainda que sejam construídos a partir de progressões de acordes distintos. Dito isto, não dá para negar que Vance Joy carece de uma certa diversidade, mas também é inegável que ele compensa essa falha em entusiasmo, sinceridade e bons vocais. Esperemos que a sua carreira não viva na sombra de “Riptide”, porque é evidente que ele é capaz de oferecer algo muito maior futuramente.

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Favorite Tracks: “Mess Is Mine”, “Riptide”, “From Afar”, “Georgia” e “Red Eye”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.