Resenha: Usher – Hard II Love

Lançamento: 16/09/2016
Gênero: R&B, Hip-Hop, Trap
Gravadora: RCA Records
Produtores: Usher Raymond IV, Mark Pitts, Jaha Johnson, Coup D’etat, B.A.M., Rock City, Pop & Oak, Raphael Saadiq, Tricky Stewart, The-Dream, Metro Boomin, PartyNextDoor, D’Mile, Frank Dukes, Paul Epworth, R!O, Kamo, f a l l e n, Carlos St. John, Fisticuffs, J. Hill, Tane Runo, Geniuz League, K-Major e xSDTRK.

Em setembro de 2016 Usher retornou ao cenário musical com um novo álbum. Na verdade, foi um lançamento silencioso, uma vez que não teve tanto buzz ou promoção em torno dele. Em seu oitavo álbum de estúdio, “Hard II Love”, o cantor mostra o porquê é um veterano da indústria. Semelhante aos seus lançamentos anteriores, o álbum é transparente enquanto ele atravessa a fina linha entre o romântico e o festeiro. Um dos principais motivos de sua longevidade é devido à sua capacidade de transitar por diferentes gêneros e personas. “Hard II Love” apresenta 15 faixas de R&B e colaborações com os rappers Future e Young Thug. É um álbum sensual com vocais encharcados por um apelo sexual, que funciona bem numa mistura de R&B, hip-hop e trap. O falsete de Usher é um forte componente para este álbum. Apesar do seu título, o disco fala sobre o amor e apresenta algumas faixas bastante românticas. Usher é um cantor versátil e, dessa vez, apela para uma abordagem mais urbana do que seus últimos lançamentos. A produção do álbum é muito audaciosa e poderosa, graças às suas inspirações contemporâneas. O gênero R&B é, sem dúvida, o local onde Usher mais brilha. “Hard II Love”, certamente, abre espaços para comparações com o “Confessions” (2004), álbum que cimentou o lugar de Usher na indústria. E, apesar de fortes acenos para tendências atuais, “Hard II Love” é um dos seus álbuns mais focados e coesos.

Desde o “Confessions”, Usher já embarcou na criação de canções dancefloor, projetos EDM e álbuns recheados por enchimentos. Ele trabalhou com artistas como David Guetta e Martin Garrix, emprestando seus vocais para “Without You” e “Don’t Look Down”, respectivamente. Este álbum mostra que Usher está tentando voltar para suas raízes de R&B. Seu último álbum de estúdio, “Looking 4 Myself”, ainda possuía algumas faixas EDM, tais como “Scream”, “Numb” e “Euphoria”. “Hard II Love”, por outro lado, não possui quase nenhuma batida house ou eletrônica. Seu mais recente single, “No Limit”, é o melhor exemplo disso. No geral, esse registro é tanto arrogante quanto vulnerável, nunca inclinando-se completamente para uma só direção. Em cada um dos seus álbuns Usher abraçou um tema decorrente de sua vida pessoal. “Hard II Love”, por sua vez, explora em grande parte o mesmo território lírico de “Looking 4 Myself”. Portanto, o álbum mostra a busca implacável de Usher em encontrar o significado do amor e sexo. Enquanto “Hard II Love” distancia-se dos seus predecessores, ele abraça sons trap típicos de Atlanta. Tanto que dois dos convidados do álbum, Future e Young Thug, são rappers de Atlanta. Em sua maior parte, o repertório realmente consegue mesclar um som trap com seu habitual e suave R&B. O álbum começa com “Need U”, onde Usher explora um pouco de soul ao lado de Priyanka Chopra.

Aqui é onde começam as comparações com o “Confessions”. É uma música que desenvolve-se de forma crescente, com suas boas habilidades em misturar o pop e tendências R&B. Não há nenhuma bateria por aqui, em vez disso têm finas e poderosas harmonias. A radio-friendly “Missin U” é uma faixa de R&B, com elementos de soul e funk. Possui melodias incrivelmente cativantes, especialmente a do refrão. Um baixo pesado está presente em várias canções, mas principalmente aqui. Inicialmente, a faixa parece um pouco desajeitada, mas quando o refrão entra tudo se transforma. Em “No Limit”, com Young Thug, Usher canta linhas rápidas e trêmulas que soam bem próximas do rap. É uma canção de R&B e trap cativante e com grande apelo comercial. A batida é bem carnuda e totalmente trap, graças as influências de Young Thug. A faixa ainda contém referências à canção “Make ‘Em Say Uhh” de Master P, conforme Usher canta: “Faço você dizer uh, sem limite / Tenho o Master P, sem limite, querida / Lhe dou o cartão preto, sem limite”. A próxima faixa, “Bump”, é um banger lento que lembra algumas faixas de R. Kelly. Produzida por The-Dream e Tricky Stewart, a canção impressiona pela poderosa batida. Enquanto uma tentadora amostra de “Love You Down” (Ready for the World) surge sobre “Let Me”, a colaboração com Future em “Rivals” é tingida por tons tropicais.

As linhas de baixo dessas duas canções são quentes e musicalmente influenciadas pelo hip-hop moderno. São duas faixas bem produzidas, com batidas infalivelmente cintilantes que servem os vocais de Usher. Após a hipnótica “Downtime” temos a pulsante “Crash”, primeiro single do registro. Uma ótima canção, feita de gancho após gancho. “Hard II Love” é um álbum produzido para deixar a voz de Usher respirar e não há maior exibição disso do que em “Crash”. Essa canção eletropop é brilhante por qualquer meio. Ela possui ondas de ritmos suaves, concretos e sintéticos sobre os quais o falsete de Usher alcança novas alturas. Em seguida, ele mostra seus desejos insaciáveis na crua “Mind of a Man”, ao mesmo tempo que explora um falsete apaixonado na balada “Tell Me”. Essa última possui longos oito minutos e meio de duração. Uma faixa escassa, porém, sensual, lenta e completamente conduzida por seu falsete. Permanecendo confiante e arrogante, Usher apresenta a décima faixa do repertório, intitulada “FWM”. Essa canção combina sintetizadores descontraídos, com um refrão que diz: “Foda-se comigo / Fode comigo / Fode comigo”. Apesar de boa, essa canção ameaça fortemente a coesão do álbum. É uma peça quase açucarada que entra em desacordo com a estética geral do álbum. Uma guitarra rodeia a maturidade da sóbria faixa-título “Hard II Love”, enquanto Usher lamenta: “Eu sei que sou difícil de amar, difícil de amar, difícil de amar / Eu sei que sou difícil de confiar, difícil de confiar”.

A penúltima faixa, “Stronger”, é liricamente trágica, porque lida com a morte de seu enteado. Uma canção emocionalmente trabalhada com um sentido totalmente diferente. É uma balada sustentada por um coro contundente, que pinta um retrato resiliente. Aqui, Usher está no seu estado mais vulnerável. Produzida por Rafael Saadiq, “Champions” é um dueto com o ator Rubén Blades do filme “Punhos de Aço”, onde Usher co-protagoniza como Sugar Ray Leonard. A canção é guiada por uma percussão latina, guitarras e algumas letras cantadas em espanhol. Dito isto, ela surpreende pela grande mudança de ritmo. “Hard II Love” é um álbum que beneficia-se de uma abordagem mais focada, ao invés de bangers EDM de discos anteriores. Entretanto, algo ainda está faltando para esse álbum ser completamente poderoso. É bom ver Usher recusando-se a explorar tendências atuais, em prol de permanecer com um som mais eficaz. Ele usa ferramentas das quais já está equipado, como por exemplo sua voz distinta e apelo emocional. Ao longo de repertório, sua voz serve como âncora para a colagem de gêneros díspares. Mesmo que não seja necessariamente o mais distinto, “Hard II Love” é um dos álbuns mais consistentes de Usher. Uma oferta auto-confiante, focada e convincente. Mas, é apenas isso. É fácil de ouvir, porque permite que a voz de Usher realmente brilhe.

Favorite Tracks: “Missin U”, “No Limit (feat. Young Thug)” e “Crash”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.