Resenha: U2 – Songs of Innocence

Lançamento: 09/09/2014
Gênero: Rock
Gravadora: Island, Interscope
Produtores: Danger Mouse, Paul Epworth, Ryan Tedder, Declan Gaffney e Mark “Flood” Ellis.

“Songs of Innocence” é o décimo terceiro álbum de estúdio da banda U2. Foi produzido por Danger Mouse, do duo Gnarls Barkley, com colaboração adicional de Paul Epworth, Ryan Tedder, Declan Gaffney e Mark “Flood” Ellis. O seu lançamento ocorreu em 09 de setembro de 2014 no evento de lançamento do iPhone 6 e, liberado no mesmo dia, sem nenhum custo, para todos os clientes da iTunes Store. O formato físico do álbum só foi lançado dia 13 de outubro, enquanto o lançamento digital esteve disponível para mais de 500 milhões de clientes do iTunes. O primeiro single foi a canção “The Miracle (Of Joey Ramone)”, que foi destaque comercial de TV da Apple, como parte da campanha promocional. Estima-se, que a Apple pagou US$ 100 milhões de dólares pelo álbum e foram notificados que aproximadamente 81 milhões de usuários obtiveram acesso à ele no primeiro mês, dos quais mais de 26 milhões o baixaram.

Em contrapartida, a reação do público não foi totalmente positiva, pois um número considerável de clientes do iTunes ficaram descontentes com o fato do álbum aparecer em suas bibliotecas musicais automaticamente, sem aviso prévio e sem a opção de excluí-lo. Posteriormente, após tantas reclamações, a Apple se viu obrigada a criar uma ferramenta especialmente para quem quisesse fazer a exclusão do álbum. Durante o período de criação, que foram de cinco anos e meio, a banda gravou uma variedade de materiais e com vários produtores. Tematicamente, o disco relembra a juventude dos membros na Irlanda, enquanto passavam por experiências de infância, amores, arrependimentos e algumas homenagem às inspirações musicais como Ramones e The Clash. Em uma entrevista à revista Rolling Stone, Bono Vox disse que é o álbum mais pessoal que ele já escreveu.

U2

Em seu lançamento físico, o disco estreou em #9 lugar nos Estados Unidos, com pouco mais de 28 mil cópias vendidas, e na #6 posição no Reino Unido, concretizando-se na pior estreia da banda em 33 anos. Claro, que a disponibilidade do álbum no iTunes, um mês antes, reduziu e prejudicou suas vendas. No geral, o repertório do disco é eclético, com a produção de Danger Mouse e as guitarras de The Edge destacando-se. A banda sempre foi aberta com relação a sua gratidão ao punk, em especial ao Ramones. Por isso, na cativante faixa de abertura, “The Miracle (Of Joey Ramone)”, eles fazem uma homenagem a Joey Ramone com excelentes e pesados riffs de guitarra. “Every Breaking Wave” lembra muito os tradicionais números do U2, sua introdução, inclusive, nos remete à “With Or Without You”. Se inicia lentamente e gradualmente constrói um bom clímax, onde temos um dos melhores riffs que The Edge desempenhou nos últimos anos. Bono soa como anos atrás, com uma boa narrativa, um ar de clareza e excelentes falsetes.

O início de “California (There Is No End to Love)” há um forte associação aos Beach Boys, enquanto sua letra fala sobre as lembranças da primeira viagem do U2 à Los Angeles. As duas faixas seguintes possuem escritas adicionais de Ryan Tedder. A começar por “Song for Someone”, uma balada que Bono escreveu para sua esposa, o seu primeiro grande amor. Assim como as baladas clássicas do U2, “Song for Someone” começa devagar, apenas com voz e violão e, conforme vai crescendo, explode em um forte refrão com lindos riffs de Edge. É uma das canções mais bonitas do álbum, pois é muito suave, emocionante e intimista. Em “Iris (Hold Me Close)” Bono canta para sua mãe, que faleceu quando ele tinha apenas 14 anos. Através de um punhado de carinho e saudade, ele nos emociona: “Hold me close, hold me close and don’t let me go / Hold me close like I’m someone / That you might know / Hold me close”. A sexta faixa, “Volcano”, continua com a tendência do U2 em mover-se em direção a um rock mais agressivo.

Uma música vibrante, acelerada e com um forte refrão. O seu baixo elétrico acentuado e o refrão, conseguem expressar a pressão e dificuldades que Bono passou quando era jovem. Apesar de ser uma ótima canção, aqui encontramos um clichê um pouco embaraçoso: o irritante canto de “You! Are! Rock n’ Roll!”. Os ritmos sussurrados de “Raised By Wolves” falam sobre carros-bomba que atacaram Dublin nos anos setenta, onde Bono escapou por pouco da morte. É uma tentativa de recriar alguns de seus comentários anti-guerra, algo que a banda costuma apresentar em suas canções. Musicalmente, “Raised By Wolves” começa com uma guitarra cortada e acelerada, que transmite muita tensão. As letras de Bono costumam ser marcadas por suas histórias pessoais, “Cedarwood Road”, por exemplo, é uma homenagem a uma rua de Dublin onde ele morou na juventude. A letra tenta capturar a tensão, medo e raiva de crescer em um lugar que te obriga a se tornar alguém diferente de si mesmo, a fim de sobreviver.

U2

É uma das melhores do registro, a começar por um belo e marcante riff, seguido de um solo de guitarra e um ótimo refrão. “Sleep Like a Baby Tonight” é a faixa mais sombria e enigmática do álbum. Consegue soar fresca do início ao fim, graças aos sintetizadores, teclados, guitarras e o falsete inquieto de Bono. O melhor da canção é o ritmo impulsionado pelo cenário synthpop, que ficou quase impecável. As lacrimejantes batidas punk de “This Is Where You Can Reach Me Now” é a penúltima faixa do disco e presta o devido zelo ao The Clash. “Depois que nós vimos o The Clash, ele serviu como um modelo para o U2”, disse Bono. A última faixa, “The Troubles”, apresenta doces vocais de Lykke Li e ainda é obscura, suave e minimalista. “Songs of Innocence” apresenta muitas letras nostálgicas, alguns tributos aos ídolos punk Joey Ramone e Joe Strummer, e muitas experiências vividas.

É, realmente, um disco de qualidade e conceitualmente relevante, embora a forma como foi entregue ao público não ter sido uma estratégia tão boa quanto a banda imaginava. Apesar de não possuir um single forte como antigos hits da banda, o álbum consegue fornecer um material de alto nível. É um trabalho competente, um grande disco e, em última instância, uma ascensão crucial na discografia do U2. Isso porque, particularmente, trata-se de uma fase bem avançada de suas carreiras. A banda lançou um disco que foi capaz de reviver o seu legado, mesmo depois de uma ausência de cinco anos no mercado musical. Eles estão entre as melhores bandas de rock da história, vencedores de nada menos que 22 Grammy Awards, o prêmio mais importante da indústria. Se por um lado temos Danger Mouse como produtor primário do álbum, que utiliza alguns truques cansativos e deixa o registro soar genérico, pelo outro temos The Edge e sua incríveis habilidades com a guitarra. Em última análise, afirmo que é um álbum bem trabalhado, profundamente humano e completamente temático.

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Favorite Tracks: “The Miracle (Of Joey Ramone)”, “Every Breaking Wave”, “Song for Someone”, “Volcano” e “Sleep Like a Baby Tonight”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.