Resenha: Troye Sivan – Blue Neighbourhood

Lançamento: 04/12/2015
Gênero: Eletropop, Dream Pop
Gravadora: EMI / Capitol Records
Produtores: Alex Hope, SLUMS, Alex JL Hiew, Caleb Nott, Dan Hume, Pip Norman, Emile Haynie, Bram Inscore, Jack Antonoff e XXYYXX.

A era digital tem pavimentado o caminho para muitos músicos mundo à fora e, o jovem australiano Troye Sivan, é um que se beneficiou-se disso. Além de cantor, compositor e ator, ele também é um YouTuber de grande alcance, tanto que seu canal possui quase 4 milhões de inscritos. Como ator Sivan representou o personagem Wolverine enquanto jovem no filme X-Men Origens, e, mais recentemente, estrelou na trilogia Spud no papel principal. Mas ele não é um YouTuber que teve sorte na música, pelo contrário, é um cantor e compositor astuto que leva a música muito a sério. E, depois de cativar a todos com os EPs “TRXYE” e “WILD”, Sivan acabou de lançar, em 04 de dezembro de 2015, o seu primeiro álbum completo: “Blue Neighbourhood”. O disco foi precedido por uma série de vídeos no YouTube que ajudaram a desenvolver o conceito de suas músicas. Os vídeos concentravam-se nas dificuldades de um relacionamento homossexual durante a juventude e como foi para Troye Sivan lidar com a homofobia durante a adolescência. No “Blue Neighbourhood” há um pouco de tristeza e sabedoria, um trabalho que consegue demonstrar o real talento por trás do cantor. Um material escuro e maravilhosamente atraente, que aproveita todas as oportunidades para contar boas histórias.

“Blue Neighbourhood”, definitivamente, mostra que Troye Sivan sabe o que está fazendo. Liricamente, o disco é maduro e entrega temas como solidão, romances, amor, luxúria e descobertas. Embora as seis faixas do seu último EP estejam presentes aqui, o disco não pode ser considerado uma compilação estendida de seus trabalhos anteriores. Pelo contrário, é um álbum, assim como os de Lana Del Rey, repleto de conteúdos cinematográficos, instigantes e envolventes, que abraça um som eletro-pop extremamente viciante. A sua versão padrão é composta por 10 faixas e, tanto liricamente quanto melodicamente, é bastante forte e criativa. Abrindo o álbum temos o já conhecido single “WILD”, canção de abertura do EP de mesmo nome. Produzida por Alex Hope e co-escrita por Sivan, “WILD” é uma faixa proficiente de eletropop e dream-pop que fala sobre um amor proibido e o desejo por ele. “Deixe este bairro azul / Nunca soube amar poderia doer tão bem / Isso me deixa selvagem”, ele canta no início do refrão. Esta linha, em especial, é a melhor parte da música e, praticamente, define todo o conceito do álbum. Sonoramente, a música abre perfeitamente em torno de um coral de crianças, que serve para situá-la no período da vida do qual o lirismo retrata. Concomitantemente, temos uma percussão apaixonada, boas linhas melódicas e a voz grave de Sivan que, consequentemente, a faz captar perfeitamente a essência de um amor proibido.

“WILD” é extremamente cativante, cheia de confiança, uma música pop realmente brilhante e, na minha opinião, um dos mais fortes singles lançados em 2015. Em seguida, temos a magnífica “FOOLS”, uma das minhas faixas favoritas do disco e uma das melhores de sua curta carreira. Os seus dois primeiros versos são deslumbrantes, enquanto entrega uma produção melancólica excepcional. Ela possui uma grande dose de doçura e vulnerabilidade, bem como equilibra perfeitamente a voz de Sivan ao grosso instrumental. Liricamente, é uma canção que pinta um amor não correspondido e fala sobre cometer o erro de se apaixonar pela pessoa errada. No empolgante refrão ouvimos o cantor retratar a si mesmo como um tolo: “Só os tolos se apaixonam por você, só os tolos / Só os tolos fazem o que faço, só os tolos se apaixonam”. Inicialmente, a faixa começa como uma balada de piano, mas, rapidamente, muda o seu cursor, com ajuda de excelentes sintetizadores, e transforma-se em um verdadeiro hino eletrônico com direito a um final absurdamente explosivo. Em comparação com as duas faixas anteriores, uma batida mais rápida nos leva para “EASE”, primeira das três músicas do álbum que apresenta outro artista. Para esta faixa, ele colaborou com o duo neozelandês Broods, formado por Georgia Nott e Caleb Nott.

Troye Sivan

A batida e a sensação geral dessa pista, inclusive, soa como algo que a dupla faria, uma mistura perfeita entre música eletrônica e indie-pop. A escrita é madura, vulnerável e se traduz como uma combinação entre o som de Troye Sivan e Broods. As letras conflituosas concentram-se nas dificuldades de lidar com situações onde se está sozinho. Ela fala sobre a carreira agitada de Troye, das viagens onde ele precisa estar fora de casa e longe de sua família e amigos. Sonoramente, possui uma bela melodia, ao passo que a maneira como Troye e Georgia entrelaçam suas vozes é totalmente relaxante. Os vocais de ambos combinaram lindamente e fazem esta canção sentir-se muito confortável para o ouvido. A quarta faixa é “TALK ME DOWN”, canção que foi destaque na terceira parte da série de vídeos que Troye lançou antes do álbum. Ela conta uma história sobre um casal que terminou um relacionamento de forma negativa. Embora seu título soe clichê é, liricamente, uma canção totalmente coesa com o restante do repertório. “Eu quero dormir ao seu lado / Mas isso é tudo que eu quero fazer agora”, ele canta durante o refrão. Essa linha, em especial, encapsula um pouco da dor e medo que sentimentos por não termos uma companhia. Sivan canta honestamente sobre desejar uma afeição física do seu amante, enquanto exala sentimentos e emoções tangíveis.

Musicalmente, “TALK ME DOWN” é uma balada que explora um som mais lento através de um ambiente desolador. Em perfeita harmonia com o estilo musical já distinto do cantor, a faixa emprega um arranjo de cordas cinematográficas e consegue encantar. Tomando uma rota mais relaxada, o álbum segue com a faixa “COOL”, onde o cantor fala sobre momentos do seu passado. “Eu só estava tentando ser legal / Eu só estava tentando ser como você”, ele confessa durante o refrão. Inicialmente, a letra pode simplesmente soar como se Troye estivesse falando sobre tentar impressionar e ser como alguém. No entanto, é muito mais do que isso, pois também fala sobre um amor perdido. “COOL” pode não ser uma das canções mais fortes do álbum, mas, não deixa de ser muito atraente. Especialmente, por seu tom mais fresco, sua guitarra arejada e a produção mais tropical. Em “HEAVEN” Troye Sivan, ao lado da também australiana Betty Who, tenta explorar a luta da comunidade LGBT em relação à religião. “Sem perder um pedaço de mim / Como posso chegar ao céu?”, ele si pergunta, antes de revelar sua resposta: “Então, se eu estou perdendo um pedaço de mim / Talvez eu não quero o céu?”. Por ir direto ao ponto, Sivan consegue expressar essa luta de uma forma muito madura.

Ele fala abertamente sobre sua sexualidade e acaba se perguntando se algum dia será verdadeiramente aceito por todos. Além disso, é um reflexo de como isso afeta sua vida após a morte, especificamente, suas chances de ir para o céu. “HEAVEN” é uma canção bastante comovente, dolorosamente honesta e emocionalmente vulnerável. Aqui, seus vocais estão incrivelmente suaves, reflexivos e são muito bem apoiados pelo recurso de harmonização vocal de Betty Who. Um destaque óbvio é “YOUTH”, faixa também lançada como single antes do álbum sair. O instrumental desta canção é incrível, sendo suave na superfície, mas entrelaçado em suas camadas. Resumidamente, batidas de hip-hop e eletropop formam o esqueleto dessa música. Suas camadas estouram através de coros vocais, batidas pesadas e amostras manipuladas. É uma verdadeira injeção de otimismo sônico que faz o ouvinte querer repeti-lá várias vezes. O seu cativante refrão nos remete a “WILD”, porém, de forma muito mais intensa. Um dos melhores momentos é quando a bateria cai contra o sintetizador no final do refrão. Enquanto isso, a oitava faixa, “LOST BOY”, é totalmente tribal, adorável, simples e bastante alegre.

Troye Sivan

É uma canção bonita e uma das minhas favoritas, onde Sivan entrega um conceito simples sobre pessoas diferentes que possuem medo de se comprometer com suas próprias emoções (“Eu sou apenas um garoto perdido / Que não está pronto para ser encontrado”). A introdução dramática no piano dá impressão que “LOST BOY” entregará algo diferente, mas sua produção geral acaba indo para a mesma área viciante de todo o álbum. Com o seu título em letras minúsculas, “for him.”, por sua vez, já exala um diferencial antes mesmo de começar. É uma colaboração com o rapper australiano Allday e uma breve mudança musical de Troye Sivan. Aqui, ele foge um pouco do seu habitual oceano de sintetizadores, para algo mais pop bubblegum e R&B. É uma canção pegajosa, doce e pessoal, que fornece uma letra interessante com descrições inteligentes sobre alguém do mesmo sexo. É outra faixa destemida e demasiadamente honesta que, realmente, não soa como uma canção de amor. Isso porque não tem nenhuma melodia sentimental, mas sim letras sólidas e uma batida saltitante que cativa facilmente. Seu único problema é o verso de Allday que, apesar de encaixar-se bem, parece um pouco fora do lugar quando isolado pelos vocais de Troye. A maravilhosa “SUBURBIA”, uma ode de Sivan para a cidade de Perth, fecha a edição padrão do registro da melhor maneira possível.

“Sim, há muita história nestas ruas / A mãe de que falam / As palavras que eu repita / Tanta história na minha cabeça / As pessoas que eu deixei / Aqueles que eu amo”, ele canta enquanto parece sentir saudades de sua casa e infância. No refrão ele ainda se pergunta se as pessoas não o esqueceram e ouvem suas músicas no rádio (“Você me ouviu no rádio? / Aumentou o volume? / No seu rádio / No subúrbio”). “SUBURBIA” é uma das mais fortes composições e um dos maiores contribuintes para o conceito do álbum. Uma peça assombrosa que resume, sonoramente e tematicamente, todo o registro. Seus arranjos orquestrais e a voz angelical de Sivan contribuíram bastante para torná-la uma das faixas mais memoráveis do álbum. Uma jóia brilhante e simplista, com uma dosagem perfeita de nostalgia, que serviu como uma conclusão fenomenal para o “Blue Neighbourhood”. No geral, fiquei muito satisfeito com o álbum. Os vocais de Troye Sivan definitivamente cresceram desde que ele começou a cantar, enquanto você pode notar a diferença. Ele conseguiu esculpir um som próprio e coeso, enquanto oferece algo pop e ao mesmo tempo inspirado pela música eletrônica. Troye pode ter levado algum tempo para lançar um álbum de estreia, mas a espera certamente valeu a pena.

Sua música é madura e ainda jovem, Sivan não tem medo de usar pronomes masculinos e escrever sobre como o amor pode ser confuso, doloroso, apaixonante e inocente. Mesmo sendo jovem, este debut álbum deixa claro que ele sabe o que quer e como deve soar. Não é um ator/YouTuber que está tentando fazer música, mas sim um cantor/compositor promissor ciente de sua força já reconhecida. “Blue Neighbourhood” é, sem dúvida, tudo que eu poderia esperar do álbum de estreia de Troye Sivan. Ele tem um conceito, é coeso, possui momentos sonoros épicos, tem letras profundas e um som fiel ao que ele demonstrou anteriormente. Cada uma de suas músicas contam uma história, enquanto ainda permite um espaço para a interpretação do ouvinte. Ele adere uma mesma fórmula em muitas faixas, entretanto, é algo que funciona a todo momento. Sua confiança e ousadia introvertida torna o trabalho do álbum ainda mais peculiar. Troye Sivan pode ter apenas 20 anos, mas sua capacidade de fazer boa música pop com letras significativas é incrível. E este é apenas o começo de sua carreira musical, portanto, será bom acompanhar toda sua jornada daqui pra frente.

78

Favorite Tracks: “WILD”, “FOOLS”, “TALK ME DOWN”, “YOUTH” e “LOST BOY”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.