Resenha: Tori Amos – Unrepentant Geraldines

Lançamento: 09/05/2014
Gênero: Rock Alternativo, Pop, Pop Rock
Gravadora: Mercury Classics
Produtores: Tori Amos.

A mezzo-soprano Tori Amos lançou em 2014 o seu décimo quarto álbum de estúdio, chamado “Unrepentant Geraldines”. Esse disco tornou-se o seu oitavo álbum de estúdio a estrear no Top 10 da Billboard dos Estados Unidos. Indicada oito vezes ao Grammy Award, Tori Amos é uma artista classicamente treinada e além de cantora e compositora, também é pianista. Ela servia originalmente como vocalista do grupo pop dos anos 1980, Y Kant Tori Read, antes de seguir em carreira solo no início da década de 1990. Ela foi curiosamente uma das poucas artistas de rock alternativo que usava o piano como seu instrumento principal. Já foi nomeada e ganhou vários prêmios de diferentes gêneros, que vão desde VMAs à música clássica com um Echo Award em 2012. Tori Amos costuma utilizar personagens elaborados e metáforas estendidas para ilustrar seus pontos de vista, assim como também usa inspirações subjetivas para suas letras.

Ela sempre foi uma artista confessional, especialmente, na intersecção do apego emocional, pessoal e político. Com esse disco não foi diferente, ela utilizou todas essas características no envolvimento de suas letras. Aqui no “Unrepentant Geraldines” encontramos Tori Amos explorando o que significa ser uma mulher com 50 anos, uma mãe e esposa. Ela explorou temas através de suas relações com a arte visual. E logicamente o piano e a sua bela voz dominam o álbum. Mesmo não retornando ao seu auge na década de 1990, Amos ainda tem uma voz artística que soa totalmente natural. É surpreendente ouvir o quanto esse disco deriva de sua franqueza e não sente-se nem um pouco forçado. “Unrepentant Geraldines” é formado por 14 canções que possuem, além do piano e voz, bons arranjos, loops de bateria e sintetizadores que servem de ambiente.

Após embarcar em gêneros musicais menos comerciais com seus últimos trabalhos, Tori Amos retornou com uma coleção de músicas pop acessíveis, que agradam com facilidade. É um material que realmente está embrulhado com a excitação que você poderia esperar de uma artista revigorada. Resumindo, “Unrepentant Geraldines” é pessoal, político, refrescante e escasso de truques ou colaborações desnecessárias. A apropriadamente intitulado “America” é a faixa de abertura, ela apresenta um som sereno que parece quase uma homenagem a Simon & Garfunkel. É uma música gentil, suave, inspirada pelo folk e com brilhantes melodias, onde ela canta: “A outra America / Você pode procurar seu Domingo / Sentada sobre um córrego / Apenas ela sozinha”. “Trouble’s Lament” foi o primeiro single do disco e é rock acústico fresco, sensual e convidativo. Foi uma escolha certeira para carro-chefe do álbum, pois possui bons vocais, letras escuras, harmonias encantadoras e ótimos acordes de piano.

Tori Amos

Na elegantemente composta “Wild Way” Tori Amos aborda o seu casamento. “Eu te odeio, eu faço, eu odeio que você é o único que pode me fazer sentir linda“, ela murmura nos primeiros versos. Um verdadeiro poema de amor em forma de uma canção completamente autobiográfica. Aos 50 anos sua voz não cresceu esganiçada, e aqui, nessa faixa, percebemos claramente o quanto ainda continua poderosa. Em última análise, “Wild Way” é uma balada simples para os padrões de Amos, mas que não deixou de ser suave e comovente. A faixa seguinte, “Wedding Day”, é basicamente uma retrospectiva sobre como o amor transforma-se com o tempo. Essa canção possui uma mistura fascinante de batidas tribais e elementos country. Seus arranjos são cheios de detalhes, com inclusão de flauta, piano e emaranhados de guitarra.

“Weatherman” é outra lindíssima e emocionante canção, destacada pelos belos vocais de Tori Amos e o piano. Ao passo que “16 Shades of Blue” é uma faixa inquietante e um pouco estranha, que apresenta a cantora como um personagem lutando para defender-se de uma série de argumentos e a marginalização da sociedade. Sonoramente, temos algumas batidas de disco programadas, piano e sintetizadores fazendo parte da sua estrutura. “Você diz / “Supere isso, Se 50 é o novo preto / Este pode ser o seu dia de sorte”, ela canta, escolhendo sua idade atual como exemplo. E depois fala diretamente àqueles que a criticam: “Há aqueles que dizem / Agora estou velho demais para jogar”. Na sétima faixa, “Maids of Elfen-Mere”, temos elementos fantásticos habitando-a, uma canção com todos os integrantes clássicos das músicas de Tori Amos. Os seus vocais em camadas e uma linha quente de piano, fazem dela outra boa jogada desse álbum.

Tori Amos

Seu conteúdo lírico é mais pesado, com um tema fantasioso, quase de outro mundo, que pode ser útil na medida que se refere ao cotidiano. “Promises”, por sua vez, é um dueto com sua filha de 13 anos, Tash Hawley. É uma música cheia de sentimentalismo e simplesmente adorável, que oferece um olhar intimista sobre um relacionamento entre mãe e filha, de ambas as perspectivas. A faixa “Giant’s Rolling Pin” aborda escândalos de espionagem da NSA e FBI de uma forma meio esquisita. Tem um estado de espírito jovial, uma melodia desajeitada e, embora retrate sua narrativa com elementos ficcionais, parece estar ligada com algum fato da vida da própria cantora. “Selkie” é uma das melhores faixas do registro, mostrando a todos o porque Tori Amos é uma artista interessante. O vocal da cantora e o piano estão, mais uma vez, incrivelmente emocionais.

Em seguida, na faixa-título, “Unrepentant Geraldines”, a cantora aborda explicitamente a vontade de derrubar um patriarcado capitalista e religioso. “Pai Nosso da ganância corporativa / Você absolver ladrões corporativos”, ela zomba, enquanto um coro ao fundo murmura: “Este é o dia do julgamento”. No refrão Amos ainda faz uma declaração: “Eu vou me curar de sua religião / Eu vou me libertar de sua agressão”. É a canção mais longa do registro, com quase 7 minutos de duração e a mais orientada para o rock. “Oysters” é outra música muito bonita, com uma boa progressão de acordes e onde Amos canta sobre a busca para recuperar um sentido perdido de si mesma (“Porque eu estou trabalhando meu caminho de volta”). Essa balada é certamente uma das que mais evocam a sonoridade dos primeiros trabalhos da cantora. A penúltima faixa, “Rose Dover”, é uma canção de ninar, com um tom experimental, musicalmente aventureira e traz um órgão escuro permeando em sua composição.

Na letra Tori afirma que crescer não significa perder a curiosidade da infância. Porque para ser adulto você não precisa perder algo que tinha quando era uma criança. Enquanto o encerramento, “Invisible Boy”, é outra linda balada orientada no piano que soa reconfortante e realmente apropriada para ser a faixa final do registro. Na letra ouvimos Amos confortando seu marido, ao passo que ele luta contra seus medos. Ao escutar todo o “Unrepentant Geraldines” podemos notar que Tori Amos parece mais à vontade do que nunca. Embora no início pareça ser um material modesto, esse disco possui uma leveza irresistível e melodias encantadoras. Após passar cinco anos imersa em temas clássicos, arranjos orquestrais e músicas teatrais, essa mudança que ela trouxe para esse álbum, foi muito bem-vinda. Ou seja, “Unrepentant Geraldines” parece ter sido um verdadeiro renascimento para ela e é um disco auto-confiante do qual todos os seus fãs devem ter se agradado. No final, esse álbum veio para restabelecer a sensação de intimidade que Tori Amo havia criado com sua audiência durante todos os anos de sua carreira.

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Favorite Tracks: “America”, “Trouble’s Lament”, “Wedding Day”, “Promise” e “Selkie”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.