Resenha: Tori Amos – Native Invader

Lançamento: 08/09/2017
Gênero: Rock Alternativo, Pop Barroco, Chamber Pop, Eletrônica, Pop Rock
Gravadora: Decca Records
Produtor: Tori Amos.

No ano passado, Tori Amos aventurou-se pelas montanhas da Carolina do Norte em busca de inspiração. Infelizmente, alguns eventos atrapalhou os seus planos. Além do estresse das eleições norte-americanas, Tori Amos viu sua mãe sofrer um grave acidente vascular cerebral que a deixou incapaz de falar. Consequentemente, o seu novo álbum de estúdio, “Native Invader”, baseia-se em eventos de sua própria vida e aborda muitas questões pessoais. Neste álbum, podemos dizer que Amos está no seu auge. As instrumentações e arranjos de algumas músicas parecem ter sido retirados diretamente da década de 90. Mesmo assim, “Native Invader” não parece nem um pouco datado. Os seus maiores pontos fortes estão nas letras, onde Amos explora conceitos e metáforas interessantes ao lado de referências culturais e literárias. Quase todos os temas são expressos de forma enigmática e completamente misteriosa. Sem dúvida, é preciso muito talento e dedicação para chegar ao ponto de lançar um décimo quinto álbum de estúdio. Tori Amos possui tal talento, pois é uma artista com uma visão incrível. “Native Invader” é um registro pessoal e político que apresenta o melhor da voz mezzo-soprano da cantora. Aqui, Amos faz o que sabe de melhor, ou seja, apresenta baladas no piano com algumas surpresas inusitadas.

Mais uma vez, ela foi auxiliada por seu marido Mark Hawley, com quem trabalha desde o disco “Boys for Pele” (1996). O álbum começa com “Reindeer King”, uma bela canção com mais de 7 minutos de duração. Aqui, os lindos e obscuros vocais de Tori Amos são acompanhados por um profundo e ressonante piano. No entanto, há uma paisagem sonora evocativa, estéril e congelada. Vocalmente, Amos parece tão confiante como no início de sua carreira. Em seguida, uma batida eletrônica define o ritmo de “Wings”, enquanto o sintetizador e guitarra nos lembram que Tori Amos não tem medo de se arriscar. “Às vezes grandes garotos precisam chorar”, ela canta. Uma guitarra elétrica esfumaçada e órgãos apresentam “Broken Arrow”, outra faixa intimamente expansiva. O primeiro single, “Cloud Riders”, possui elementos country e mostra a cantora reconectando-se com sua herança americana. Mais uma vez, suas letras são bizarramente poéticas. “Up the Creek”, um dueto com sua filha, Natashya Hawley, é uma canção particularmente potente. Possui melodias frenéticas, orquestração intensa e sintetizadores tipicamente oitentista. No papel, isso parece não funcionar, mas é um destaque do repertório. Hawley conseguiu complementar muito bem sua mãe, à medida que ambas fazem sutis referências políticas.

Ademais, a quebra do piano concorre fortemente com o solo de guitarra de grande efeito. A quase política “Breakaway” é uma representação minimalista do talento de Tori Amos. Uma balada de piano solo com palavras evocativas e poéticas, e linhas como: “Eu me sinto traída pelos nossos chamados amigos / Não pelos amigos que devemos ter feito”. Mais tarde, “Wildwood” apresenta batidas eletrônicas, guitarras arejadas e bongôs, enquanto “Bang” entra em contraste com algumas de suas músicas mais flexíveis. Uma ótima canção de 6 minutos de duração com rígidas teclas de piano, pesadas guitarras e forte percussão. Aqui, sua voz está tão leve e fluída como sempre foi, de modo que causa um efeito incrivelmente exuberante. Os bongôs e outros instrumentos de percussão de “Bats” minimizam a beleza das letras, ao passo que “Climb” a vê mostrando sua preocupação com as mulheres. Por fim, “Mary’s Eyes” é uma forte faixa de encerramento e grande homenagem para a mãe da cantora. “Native Invader” é exatamente o que poderíamos esperar de Tori Amos, ou seja, um registro sinuoso, sombrio e encantador, composto por melancolia, dores pessoais e cordas de piano. Ela permaneceu fiel à forma. É um álbum previsível, porém, muito bom. Por mais que ela caía numa zona de conforto familiar, é um disco poderoso e bastante agradável.

Favorite Tracks: “Cloud Riders”, “Breakaway” e “Bang”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.