Resenha: The Lumineers – Cleopatra

Lançamento: 08/04/2016
Gênero: Folk Rock, Indie Rock
Gravadora: Dualtone Records
Produtor: Simone Felice

A banda The Lumineers foi criada por dois amigos de longa data, o vocalista Wesley Schultz e o baterista Jeremiah Fraites. Schultz e Fraites se apresentam juntos desde 2002, enquanto a violoncelista Neyla Pekarek juntou-se a eles em 2010. O pianista Stelth Ulvang, por sua vez, juntou-se à banda como membro integral em 2012. Após a saída de Ben Wahamaki no ano passado, Byron Isaacs foi o responsável por assumir o controle do baixo. Quatro anos depois do enorme sucesso de “Ho Hey”, The Lumineers lançou o seu segundo álbum de estúdio. Intitulado “Cleopatra”, o disco foi lançado oficialmente em 08 de abril de 2016. Seu álbum auto-intitulado conquistou o coração dos amantes da música indie, enquanto fez a banda tornar-se conhecida mundialmente. Neste novo projeto, The Lumineers mantém as melodias simplistas e a mesma vibração acústica de seu disco de estreia. Eles continuam a contar boas histórias através de um repertório com 11 faixas. O grupo também tentou maximizar o potencial de cada música, usufruindo de melhores harmonizações, riffs de piano, dedilhados de guitarra e uma seção rítmica em potencial.

As guitarras mais cruas e os fortes vocais de Wesley Schultz provam que a banda não abandonou suas raízes. Envolvido por um tom mais grave e melancólico, “Cleopatra” vê a banda focando na composição, em vez de um possível sucesso comercial. Embora a sua estrutura musical não seja inovadora, é um disco elegante e todo coeso. Entretanto, o álbum também pode ser considerado uma faca de dois gumes, porque pode tanto encantar aqueles com a sua simplicidade, como também pode fazer os menos familiarizados caírem no sono por causa de sua natureza relaxante. “Sleep on the Floor”, faixa de abertura, abre com uma forte base de tambor que, sem dúvida, é um dos melhores elementos da música. É uma jogada inteligente iniciar o repertório com uma faixa como esta, uma vez que ela tem um fraseado musical semelhante ao de “Ho Hey”. Embora a canção possua mudanças de tempo, boas harmonias e uma guitarra poderosa, ainda tem uma natureza crua típica do primeiro álbum. Schulz consegue manter-se no centro das atenções, mesmo competindo com a ótima percussão.

“Sleep on the Floor” é encantadora, corajosa, peculiar e, definitivamente, define o tom para o restante do registro. “Ophelia”, o primeiro single liberado para este álbum, é outra faixa que chama atenção. É uma canção despojada, modesta, crua e intensa, que faz uma inusitada combinação de piano com vibrações folk. Sua melodia é muito cativante, assim como as letras, harmonias e o saltitante piano. A letra é prematuramente tradicional, fresca e no melhor estilo Lumineers. O refrão é um ótimo exemplo do poder de repetição e simplicidade que a banda tem: “Oh, Ophelia / Tu já esteve em minha mente, menina, desde o dilúvio / Oh, Ophelia / O céu ajuda o tolo que se apaixona”. Dessa vez, o vocalista Wesley Schulz encontrou apoio no piano para transmitir toda a emoção das letras. “Eu era Cleópatra, eu era jovem e uma atriz / Quando você se ajoelhou no meu colchão, e pediu minha mão”, ele canta na abertura de “Cleopatra”, a faixa-título. Liricamente, essa canção foi inspirada por uma taxista da Geórgia, que contou sua história de vida para Schulz durante a passagem dele por lá.

The Lumineers

É uma das faixas mais fortes de todo o álbum. Ela é uma clara representação da escrita ousada e inventiva do vocalista, pois consegue ficar longe de qualquer clichê. Inicialmente, ela oferece uma batida e energia um pouco diferentes das duas primeiras faixas. Seu ritmo é mais rápido e, no geral, é uma canção mais dirigida pela guitarra. A quarta faixa, “Gun Song”, não é tão memorável como as faixas anteriores e, obviamente, não foi construída com o intuito de se tornar um sucesso crossover. Mas, por outro lado, a sua crueza, estrutura, balanço e dedilhados acústicos, são muito cativantes. A letra é autobiográfica e uma história distintamente pessoal. Ela consegue captar cenas de quando Wesley Schultz era mais novo: “Eu não posso acreditar no que eu encontrei na gaveta de meias do papai / Gaveta de meias / Era uma pistola, uma Smith & Wesson, santa, puta merda”. As imagens evocativas da infância dele, combinadas com uma certa carga de inocência, permeiam em volta da boa percussão e interessante guitarra acústica.

“Angela”, por sua vez, é uma das peças centrais do disco. Ela possui uma natureza musical muito semelhante com a das outras faixas, entretanto, ainda assim, consegue soar única. É uma canção muito triste e melancólica, que apresenta uma suave guitarra e uma ótima progressão de acordes. Muitas vezes, a simplicidade facilita o ouvinte conectar-se melhor com o trabalho do artista e “Angela” coloca isso à prova. Sua estrutura é padrão e, fora do contexto do álbum, não parece tão notável. Entretanto, a forma como suas rimas, vocais, coros e refrão são utilizados, é realmente magnífica. Outra canção incrivelmente simples e suave é “In the Light”, sexta faixa da tracklist do álbum. Ela não é tão pegajosa como “Angela”, porém, consegue demonstrar um ótimo crescimento conforme progride. Ao longo do caminho, outros instrumentos vão surgindo e lhe dão uma nova abordagem. Inicialmente, é delicada e conduzida apenas pela guitarra acústica e uma contida batida. Ela transmite uma tranquilidade muito agradável, enquanto o piano vai ganhando mais destaque.

The Lumineers

De forma eficiente, Jeremiah Fraites faz com que o doce piano coloque uma maior dinâmica na música. “Gale Song” é uma canção dramática e igualmente fascinante. Sua vibe assustadora e vocais mais graves proporcionam uma audição incrivelmente sedutora. Em sua composição, inicialmente, temos apenas uma poderosa guitarra acústica e eventuais teclas de piano. Porém, mais tarde, ela ganha o apoio da contundente percussão de Fraites. Seu ambiente é escuro, sutil e assombrosamente belo. “E, oh, e isso tudo também passará / Essa solidão não durará por muito tempo / Eu não estava lá para tomar o lugar dele / Eu estava à dez milhas de distância”, Schulz canta aqui. “Long Way from Home”, oitava faixa, é uma canção apaixonante com um dos melhores trabalhos na guitarra. Igualmente a maioria das outras faixas, é um número que brilha, principalmente, por causa de sua simplicidade. Aqui, Schulz mostra a verdadeira intimidade de um homem e sua guitarra. Não é um grande destaque, mas ainda possui seus méritos.

Não é aquele tipo de música que fica presa em sua cabeça, mas, sem dúvidas, proporciona uma boa escuta. Assim como “Long Way from Home”, a próxima faixa, “Sick in the Head”, é quase solo, pois Schulz toma o centro do palco para si ao lado de sua guitarra. É uma faixa estranha que assume, liricamente, uma postura defensiva: “As pessoas dizem que eu não sou bom / Me deixe fora, oh sim, eles deveriam / Foda-se, eles são apenas doentes da cabeça”. Os vocais são suaves, tristes e os acordes de guitarra bem repetitivos. “Sick in the Head” não oferece nada além de uma combinação simplista de melodia e batida. É uma canção mais orientada para a melancolia, com letras escuras e um ritmo mais lento. Mas, apesar desse contraste, fica a par com a dinâmica das outras canções o disco. A décima faixa, “My Eyes”, é o pico do mau humor e solidão da banda. É uma balada melancólica e um pouco assustadora, embora possua momentos otimistas durante o refrão. Schultz ressoa através de um vocal emocional que, basicamente, resume todo o sentimento de solidão da música.

A canção possui um brilho agridoce, graças a melodia e presença do piano. A guitarra dessa vez é colocada totalmente atrás dos vocais pensativos de Wesley Schulz. “Patience”, faixa de encerramento, possui cerca de 1 minuto e meio de duração e é apenas instrumental. A banda optou por fechar o registro com uma bela melodia de piano, que complementa o álbum como um todo. Em conclusão, “Cleopatra” é uma incrível viagem, profundamente pessoal e classicamente escrito. É repleto de melodias interessantes, independente do seu resultado demasiadamente emotivo e melancólico. Em última instância, é um disco folk agradável, com alguns momentos realmente muito bons. Entretanto, em contrapartida, não é brilhante o tempo todo. Em termos de coesão, é eficaz, porém, muitas canções individuais têm dificuldade para destacar-se. A primeira metade é muito boa, acima da média, no entanto, o nível não é mantido quando passamos pelo meio do álbum. Algumas canções não apresentam uma precisão técnica, são muito parecidas entre si e acabam não oferecendo nada de memorável. Mas, embora não seja melhor que o álbum de estreia, é um registro que vale a pena escutar.

65

Favorite Tracks: “Sleep On the Floor”, “Ophelia”, “Cleopatra”, “Angela” e “Gale Song”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.