Resenha: The Last Shadow Puppets – Everything You’ve Come to Expect

Lançamento: 01/04/2016
Gênero: Pop Barroco, Rock Experimental, Rock Psicodélico
Gravadora: Domino Records
Produtor: James Ford

Para quem não conhece, The Last Shadow Puppets é um projeto paralelo de Alex Turner (Arctic Monkeys), Miles Kane (ex-The Rascals), James Ford (Simian Mobile Disco) e Zach Dawes (Mini Mansions). Com o Arctic Monkeys atualmente em um hiato, trabalhar com o The Last Shadow Puppets foi a melhor maneira que Alex Turner encontrou para preencher o seu tempo livre. Demorou oito anos, mas, finalmente, o grupo lançou o seu segundo álbum de estúdio. Intitulado “Everything You’ve Come to Expect”, o disco foi lançado em 01 de abril de 2016 pela gravadora Domino Records. Quando o Arctic Monkeys entrou em hiato em agosto de 2014, Turner reencontrou o seu amigo, Mikes Kane, e começou a criar novas músicas para The Last Shadow Puppets. O primeiro álbum da banda foi o “The Age of the Understatement”, lançado em 15 de abril de 2008. Um excelente disco, muito bem recebido pela crítica, que combinou o melhor do garage rock dos britânicos com o post-punk e o pop sinfônico.

Desde aquela época, Alex Turner lançou três álbuns com o Arctic Monkeys, enquanto Miles Kane trabalhou em dois discos solo. Agora, juntos novamente, após focar em outros projetos, a dupla de amigos nos presentou com outro ótimo material. Embora Turner e Kane não sejam os mesmos de oito anos atrás, há uma grande familiaridade nesse álbum com o seu primeiro lançamento. Com o “Everything You’ve Come to Expect”, a banda The Last Shadow Puppets optou por jogar pelo lado seguro. Pode não ser o que os fãs mais devotos esperariam, mas, por outro lado, isto é uma coisa boa. “Aviation”, faixa de abertura e terceiro single do álbum, é uma das quatro canções onde Miles Kane fornece vocais. Ela começa de forma incrível, oferecendo uma verdadeira enxurrada de cordas, antes de partir para algo mais habitual. É uma música de abertura maravilhosa, que nos faz lembrarmos o porquê os britânicos do The Last Shadow Puppets são tão talentosos. Como tantas outras canções deles, essa é tão cinematográfica que soa como um verdadeiro tema de James Bond.

“Aviation” é realmente brilhante e não se distancia do repertório apresentado no álbum “The Age of the Understatement”. Ela possui um ritmo constante, favorecido pela combinação de guitarras, percussões e cordas dramáticas ao fundo. Os vocais suaves de Alex Turner estão no ponto e acrescentam novas dimensões à música, assim como o forte sotaque de Miles Kane harmoniza da melhor maneira possível. Aqui, os vocais de ambos se misturam naturalmente, assim como em boa parte do álbum. “Diga a ele o que quer, e querida / Ele pode encontrar o que você precisar”, Turner canta na abertura de “Miracle Aligner”. Em última instância, essa faixa caracteriza algumas das melhores linhas do álbum. Liricamente, é repleta de sedução, luxúria, senso de urgência e esperança. É outra música de destaque, uma vez que apresenta um som otimista e vocais maravilhosos. A produção geral é extremamente forte, acompanhada por uma linha de baixo cativante, riffs de guitarra poderosos, um sulco atraente e versos dinâmicos.

The Last Shadow Puppets (2)

É uma faixa que não cai muito longe do território musical apresentado pelo Arctic Monkeys no álbum “AM”. Os vocais mais contidos, por muitos momentos, quase transformam-se em suaves sussurros. Vocalmente, Alex Turner raramente decepciona. No geral, o álbum dificilmente vacila, pois a próxima faixa, “Dracula Teeth”, se encaixa adequadamente ao som oferecido pelas duas primeiras canções. Embora o título lembre um filme de terror, ela possui vocais suaves e um bom conteúdo lírico. Aqui, Turner compara os sentimentos de estar apaixonado com o medo de uma noite escura. “Eu acordei em um suor frio e minha pele começa a rastejar / Você está pairando sobre a minha cama olhando para mim”, Turner canta no refrão. Musicalmente, a faixa começa com uma forte batida de tambor e um floreio orquestral, antes dos vocais abafados tomarem conta. Uma guitarra, muito bem executada por Kane, e seções de cordas, completam a composição da música.

Em seguida, a faixa-título, “Everything You’ve Come to Expect”, oferece um som xaroposo que parece uma trilha sonora de um parque de diversão mal assombrado. É uma canção que se move sem pressa, a partir de um arranjo de cordas dramático e alguns tambores. Essas cordas são sombrias e traçam em torno da batida de tambor, a fim de criar uma valsa elegante e igualmente assustadora. Um órgão sintetizado também é jogado ao fundo, juntamente com a orquestra completa e vocais em falsete. Nesta faixa, a sabedoria lírica de Alex Turner é colocado à prova, uma vez que a letra é estranhamente poética. Ele inclina-se para algo psicodélico nas letra, enquanto brinca com a imaginação do ouvinte. “Cavaleiros Fantasma, Rato e o Papagaio / Colarinho de pele de crocodilo em um cachorro de diamante / Ballet para vagabundos nas lixeiras no final do beco / Enquanto caminho pelo Chalé da Sombra da Morte”, ele canta no refrão. A letra é absurdamente esquisita e sem sentido, tanto que soa exagerada.

Entretanto, de alguma forma, ela combina com a sonoridade sonhadora da música. “The Element of Surprise”, quinta faixa, é outra canção muito bem executada. Ironicamente, não é uma música difícil de definir, como sugere o título, pois oferece uma melodia pop muito grudenta. Se não fosse por seus vocais tão suaves, ela não soaria fora do lugar se estivesse presente na tracklist do “The Age of the Understatement”. Liricamente, é uma canção espirituosa que oferece tudo que poderíamos esperar da capacidade lírica de Alex Turner. Dessa vez, ele concentrou-se em falar sobre a obsessão da sociedade pela tecnologia. Esse comentário social é intercalado com batidas de tambor, cordas orquestrais e belas harmonias de marca registrada da banda. Até esse ponto do álbum, as coisas estavam bem calmas, porém, “Bad Habits” chega para dar um pouco de agitação. Lançada como primeiro single, essa canção tropeça ao redor de um ritmo desenfreado, enquanto Kane exibe uma entrega vocal energética.

Ele entra em total contradição perante as faixas anteriores interpretadas por Alex Turner. Quando ele grita “bad habits”, em um tom agressivo, encarna algo que realmente não combina com o pop barroco das outras faixas. Em alguns momentos, a música parece até uma versão inacabada de “Brick by Brick” do Arctic Monkeys. Os gritos de Kane são elevados por cordas assustadoras, um baixo, fortes tambores e solos de guitarra desordenados. A música não chega a ser um desastre, mas peca por pisar em um território clichê. Outra música muito agradável é “Sweet Dreams, TN”, sétima faixa do repertório. É uma canção doce e frenética na mesma intensidade, que exemplifica o som de todo o álbum. Ela segue através dos luxuosos vocais de Alex Turner, enquanto ele entrega linhas sinceras sobre um romance. “Eu sempre me sinto meio doente sem você, querida / Não tenho nada para lamber sem você, querida / Nada parece perseverar sem você, querida / Não é que eu me apaixonei”, ele canta de forma apaixonante.

The Last Shadow Puppets

Essa canção tem a combinação perfeita entre o charme vocal e letras honestas de Turner. Musicalmente, ela percorre todo o seu caminho sob o suporte da bateria e de maravilhosos arranjos de cordas. Embora a maioria das canções são fortemente apresentadas por Alex Turner, há algumas exceções no disco como, por exemplo, “Used to Be My Girl”. Essa canção permitiu Miles Kane sair de uma simples harmonização vocal para o centro das atenções. Essa faixa coloca Kane a frente dos holofotes, enquanto ele exibe uma performance vocal mais escura. Ele não chega a fornecer vocais tão elegantes quanto os de Alex Turner, em vez disso, concentra-se em apresentar um som psicodélico contemporâneo. “Eu sou um falso, eu sou um falso / Uma fraude, uma cobra / Me dê todo o seu amor para que eu possa encher com o ódio / Garota, eu estou em um estado / Meu coração derreteu ontem / Meu coração derreteu ontem como o seu”, ele canta, enquanto é acompanhado pela percussão, riffs de guitarra e cordas adicionais.

A faixa “She Does the Woods”, por sua vez, possui uma borda estranha e uma sensação de terror que sufoca o ambiente geral. Ela continua explorando a mesma atmosfera escura e pesada da faixa anterior, enquanto Turner documenta as vantagens de fazer sexo ao ar livre. “Ela se vira de costas para a terra / E me mostra onde eu estou destinado a ir (…) / Eu a vejo iluminada por trás, olhando para mim”, ele canta. É uma música que lembra as primeiras escritas de Turner e mostra que ele não abandonou certos artifícios ao longo de sua carreira. O mistério na borda desta música, por sua vez, é incrivelmente construído por habituais tambores, ondas de cordas e ótimos violinos. Em seguida, Kane ganha novamente destaque durante a faixa “Pattern”. Essa canção surge através de cordas incrivelmente hipnóticas e uma melodia alegre. Há um senso de grandeza nesta faixa, mas, estranhamente, ela parece não engatar. Não é uma música ruim, longe disso, porém, fica um pouco abaixo do esperado se comparada as melhores faixas do registro.

“E nunca em meus sonhos mais loucos / Me ocorreu tentar ir dormir”, Miles Kane declara ao tentar resumir o conceito do álbum. Fechando o disco, temos a faixa “The Dream Synopsis”, uma canção abertamente autobiográfica escrita por Alex Turner. Aqui, ele descreve um sonho estranhamente simpático: “Uma ventania malévola chegou urrando / No Centro de Sheffield / Havia restos de palmeiras por toda parte / E um Coliseu romano / Não é chato quando eu falo sobre meus sonhos?”. Essa última linha, em particular, serve como uma brincadeira auto-depreciativa e engraçada. Guiada por um piano, cordas orquestrais, vocais contidos e um ambiente noturno, essa faixa acaba fechando o álbum com uma nota alta. Ao todo, The Last Shadow Puppets fez outro trabalho impressionante com o seu segundo álbum de estúdio. Eles realmente conseguiram corresponder às expectativas dos fãs. Foi muito bom ver Alex Turner e Miles Kane juntos novamente. Agora, nos resta torcer para que The Last Shadow Puppets não demore mais oito anos para lançar um novo álbum.

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Favorite Tracks: “Aviation”, “Miracle Aligner”, “Dracula Teeth”, “Everything You’ve Come to Expect”, “Sweet Dreams, TN”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.