Resenha: The Drums – Encyclopedia

Lançamento: 23/09/2014
Gênero: Indie Pop
Gravadora: Norman Records
Produtores: The Drums.

Formado na cidade de Nova York em 2008, o The Drums, composto por Jonny Pierce (vocal) e Jacob Graham (guitarra e percussão), são herdeiros do revival do new wave que aconteceu na metade da última década. É um duo que se inspira no The Cure e, principalmente, na banda The Smiths. Lançado em setembro de 2014, o “Encyclopedia” é o terceiro álbum de estúdio da banda (o primeiro como um duo) e mostra ser também o mais original. Aqui, a voz de Jonny Pierce deixou de ser tão parecida com a de Morrissey e está mais alta do que nunca, algo que pode ser notado no primeiro single “Magic Mountains”. Antes do lançamento do segundo álbum da banda, “Portamento”, foi anunciado que o guitarrista Adam Kessler havia deixado o The Drums. Logo depois, em 2012, durante a tour, o ex-baterista e guitarrista, Connor Hanwick, também deixou a banda. Em consequência, o The Drums foi deixado de lado, enquanto Jonny Pierce e Jacob Graham estavam focados em seus projetos paralelos.

De um lado, Pierce anunciou que iria iniciar um carreira solo e lançar um álbum em 2013. Do outro, Jacob Graham também havia começado a trabalhar em outro projeto: o Cascading Slopes. Entretanto, em novembro de 2013, Pierce anunciou o adiamento do seu primeiro álbum solo, porque ele e Graham haviam começado a projetar um novo disco para o The Drums. Ambos afirmaram que trabalhar novamente e como um duo foi ótimo, porque tiveram a oportunidade de ter mais liberdade no processo criativo, assim como também definir juntos os objetivos e ideias para a banda. Pierce descreveu o “Encyclopedia” como “um despertar rude”, enquanto Graham o descreveu como “interessante e bizarro”. Aparentemente, a intenção mais clara deste álbum é conseguir o desejo de se distanciar de registros mais populares. E, a faixa de abertura, definitivamente, faz isso. “Magic Mountain” é uma composição angustiante que estabelece um clima de desespero e solidão.

The Drums

Os sintetizadores são latejantes, psicodélicos e o vocal de Pierce está mais estridente do que nunca. O riff de surf-rock é agradável e a canção gira, praticamente, em torno apenas do refrão: “Dentro de nossa montanha mágica / Nós não temos que estar com eles / Dentro de nossa montanha mágica”“I Can’t Pretend” é uma faixa mais lenta construída em torno de simples sintetizadores e um baixo sutil que, posteriormente, são unidos satisfatoriamente. É um dos melhores momentos do álbum, um verdadeiro hino. Uma vez que The Drums sempre foi classicista e melódico, aqui não poderia faltar algo dessa gama. A faixa “I Hope Time Doesn’t Change Him” cumpre esse papel, uma canção pop melodramática inspirada nos anos 1960, que também possui uma batida lenta e a predominância do baixo, porém, de forma menos intrusiva. É outro destaque do disco, que trás um estado de espírito desolado e obscuro, com um bom riff de guitarra e uma assinatura da banda: os bons vocais de apoio.

“Kiss Me Again”, quarta faixa, é um retorno a normalidade da banda. Um número cativante, frenético e dançante à todo vapor. Esta canção por inteira poderia ser resumida pela sua introdução, um ciclo que se repete após versos recheados de elementos eletrônicos. “Let Me” é muito semelhante a faixa anterior, porém, dessa vez, em meio a guitarras e uma rápida percussão. Enquanto a letra repete-se ligeiramente (Eles podem te odeio, mas eu te amo / E eles podem ir matar a si mesmos), o baixo fica pulsante e os tambores trabalhando em um ritmo elevado. É um número bem agressivo, energético e, crucialmente, vivo. “Break My Heart” leva o ritmo novamente para baixo, mas, felizmente, em forma de uma belíssima canção. Um número solitário, doce e verdadeiramente encantador. A faixa seguinte, “Face of God”, destaca-se por sua vontade de abraçar o caos, medo e tristeza, no entanto, sem perder os elementos pop grudentos. A sua letra aponta para um complexo de desenvolvimento da banda.

Musicalmente, essa canção reintroduz rápidas guitarras e apresenta uma exploração synthpop de inspiração oitentista. O refrão, apesar de pouco inspirador, consegue chamar a atenção: “Eu vi o rosto de Deus / Ele me mostrou como viver / Eu joguei de volta para ele  / Eu joguei de volta para ele”. É um bom exemplo do que a banda faz bem, ou seja, algo insistente, mas, ao mesmo tempo, extremamente cativante. A oitava faixa, “U.S. National Park”, se move através de um baixo pesado e riffs de guitarra. Aqui, as coisas parecem ser ainda mais sérias e inflexíveis: “Eu não quero morrer sozinho em volta da fogueira”. E acredite, é um dos versos mais otimistas encontrado no álbum. “Deep In My Heart”, por sua vez, traz um riff de guitarra fazendo um excelente trabalho. É outro destaque que consegue oferecer a mesma essência contagiosa de faixas passadas. A décima faixa, “Bell Laboratories”, merece elogios por sua simplicidade, entretanto, o seu som é um pouco demasiado no estilo excêntrico e experimental. A misteriosa e simples melodia também soa um pouco datada e caótica.

The Drums

Em seguida, a tristeza prevalece quando Pierce aparece irremediavelmente sombrio na faixa “There Is Nothing Left”.“Eu pensei que nós eramos importantes / Mas não importa em tudo / Coloque as mãos no meu rosto / Uma última vez / E diga adeus”, ele canta em um dos versos. Este é um tipo de crise existencial que é típico neste álbum. Afinal, quem depois de ter seu coração partido pela primeira vez, não recua e dá um passo atrás por pelo menos alguns segundos? Musicalmente, a estrutura da canção é segurada firmemente por versos agradáveis e um excelente refrão synthpop. “Wild Geese”, faixa de encerramento, é particularmente mole, suave, relativamente enxuta e fornece uma sinuosa e descontraída linha de baixo. Por incrível que pareça, aqui, o duo consegue olhar para um lado positivo: “Agora, você e eu / Somos como os gansos selvagens / que voam através do trovão / Avante e para cima / Através das nuvens / Longe da chuva / E o vento que nos sopra / Quando o céu fica preto / Quando os lobos correrem de volta / Vamos apenas esperar aqui / As primeiras luzes da manhã / Você e eu”.

“Encyclopedia” é um disco indie-pop enigmático e muito coeso, mesmo após recentes mudanças internas. Dessa vez, eles vieram com um lado mais experimental e, provavelmente, é o disco mais abrangente da carreira da banda. Praticamente todas as canções são cativantes, graças a esperteza de Pierce e Graham, que assumiram todas as decisões de gravação. Eles libertaram-se do marasmo e tiveram total liberdade para reinventar o seu som e abordagem musical. O resultado foi conseguir criar ótimas canções que exploram uma liberdade recém-descoberta. As letras e notas parecem tão verdadeiras que, dificilmente, você irá duvidar que as emoções passadas ao ouvinte não são realmente genuínas. Até os fãs da banda podem se surpreender com a honestidade e brutalidade encontrada por aqui. Isso é algo que agrada, pois percebemos uma certa evolução. A maturidade sombria que eles encontraram e a instrumentação acessível é algo que também se destaca. “Encyclopedia” está repleto de canções viciantes, grudentas, reflexivas e com a voz de Jonathan Pierce soando mais evocativa do que nunca.

72

Favorite Tracks: “I Can’t Pretend”, “I Hope Time Doesn’t Change Him”, “Break My Heart”, “Deep In My Heart” e “There Is Nothing Left”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.