Resenha: The Decemberists – What a Terrible World, What a Beautiful World

Lançamento: 20/01/2015
Gênero: Indie Rock, Folk
Gravadora: Capitol Records
Produtores: Tucker Martine.

The Decemberists é uma banda americana de indie rock fundada na cidade de Portland, Oregon, em 2001. Atualmente é composta por Colin Meloy (vocais, guitarra), Chris Funk (guitarra), Jenny Conlee (teclado, piano, órgão, acordeão), Nate Consulta (baixo) e John Moen (bateria). O seu sétimo álbum de estúdio, “What a Terrible World, What a Beautiful World”, foi lançado em 20 de janeiro de 2015 pela Capitol Records (o quarto disco deles por esse rótulo). Depois de quatro anos sem nenhum lançamento, finalmente o Decemberists voltou em 2015 com um projeto composto por 14 faixas. O título desse trabalho vem de uma linha de “12/17/12”, canção em referência à data do discurso de Barack Obama em reposta ao tiroteio na escola primária Sandy Hook, onde 20 crianças morreram. O The Decemberists é uma banda muito conhecida por concentrar, muitas vezes, suas letras em incidentes históricos e/ou folclóricos. Além disso é também conhecida por seus ecléticos shows ao vivo, onde fazem encenações extravagantes de batalhais navais e outros eventos seculares, tipicamente de interesse regional.

Suas letras costumam ser artisticamente bem trabalhadas e igualmente aventureiras. O último álbum deles, “The King Is Dead” de 2011, foi um esforço sólido, onde o folk acústico veio mais à tona proporcionando, talvez, o álbum mais facilmente acessível deles até a data. “What a Terrible World, What a Beautiful World” pode ser, basicamente, considerado um “primo” mais próximo dele. Concedido, o álbum tem uma sonoridade maior e é mais casual, além de ser um esforço musicalmente mais diversificado, com violoncelos e um foco renovado sobre o versátil guitarrista Chris Funk. Sobretudo, tendo em vista o seu potencial emocionalmente ambicioso, ele tem músicas maravilhosas e reflexos que emitem um crescimento, mesmo que seja um pouco longo em sua duração total. Também é um disco muito detalhado e folclórico, como de praxe do Decemberists, que exibe mais do talento do vocalista e compositor Colin Meloy para a conectividade universal. O próprio afirmou que essas novas músicas são possivelmente as mais pessoais que ele já escreveu, concentradas em tristeza e auto-reflexão.

O álbum, no geral, realmente mostra um novo lado envolvente para a composição e vocal de Meloy, bem como melodias que fluem em arranjos relativamente concisos. Na faixa de abertura, “The Singer Addresses His Audience”, temos uma balada acústica que aborda literalmente as mudanças que a banda passou ao longo dos anos e a relação com o seu público. Em grande parte fala sobre a necessidade de mudar para ser capaz de manter os seus fãs, com letras como: “Estamos cientes de que você cortou o cabelo / Em um estilo que o nosso baterista usava no vídeo”. Enquanto o refrão, com tom de melancolia, tem Meloy refletindo: “Tivemos que mudar / Nós sabemos, nós sabemos, que pertencemos a vocês”. Em termos de conteúdo lírico, este álbum realmente é muito menos inspirado por mitos e histórias, e sente-se muito mais pessoal e introspectivo. Assim, as músicas são um pouco menos teatrais e parecem desenvolverem-se muito mais na música popular tradicional. Um tema abrangente também é praticamente inexistente neste álbum, que é preenchido por 14 canções que mostram sua fluência em uma diversidade de gêneros e estilos pop.

The Decemberists

Sonoramente, “The Singer Addresses His Audience” é um folk-pop acompanhado por uma instrumentação bem produzida, que inclui um violão e violoncelo que, posteriormente, dão lugar a uma guitarra elétrica e uma percussão em vários sons ressonantes. Em suma, foi uma boa maneira para começar o disco. Em seguida surge a faixa “Cavalry Captain”, uma das mais cativantes e otimistas do álbum. É uma canção energética, mas não excessivamente, e com ganchos emocionantes que proporcionam uma experiência gratificante ao ouvir. A voz de Meloy soa mais forte do que nunca e encantadora aqui, enquanto as harmonias adicionam um brilho retrô incrível. Ela encapsula o foco deste registro, que se sente ponderado e equilibrado entre o pop e a música folk. As coisas permanecem divertidas na faixa “Philomena”, outra música mais narrativa, com letras maliciosamente sexuais e acompanhadas por backing vocals femininos estilo anos 1960. Não soaria totalmente fora do lugar se estivesse presente nos álbuns antigos da banda, felizmente sua leveza e natureza lúdica fazem ela sentir-se fresca.

Uma guitarra e boas harmonias acompanham algumas das marcas registradas do humor juvenil de Meloy. “Tudo que eu queria no mundo / Era apenas viver para ver uma menina nua / Mas eu descobri que eu tenho ficado rapidamente entediado / Eu queria mais, eu queria mais”, ele canta. Introduzido por uma guitarra rítmica, a faixa “Make You Better”, lançada como primeiro single, é uma das mais acessíveis e despojadas, além de ser também uma verdadeira ode a um amor perdido. Sua letra transmite um ar poético, sábio e comovente, enquanto suas melodias pop radio-friendly são hipnóticas e impressionantes. Meloy canta versos como: “E tudo que eu queria era uma lasca para chamar de minha / E tudo que eu queria era um brilho em seu brilho / Para me fazer brilhante”. Em “Lake Song” vemos Meloy deslumbrando-se com uma imagem inocente, onde canaliza e lembra de momentos que viveu quando tinha 17 anos de idade. É outra boa canção, que pinta um grande retrato agridoce em seu ritmo e instrumentação sutil. O contrabaixo, o ótimo piano e o dedilhado sincopado da guitarra acústica dão a essa música uma sensação nostálgica.

Com um minimalista trabalho na guitarra e falando sobre pessoas e situações tristes, temos a bela faixa “Till the Water’s All Long Gone”. Essa tenta desbravar novos caminhos para a banda, a começar pelo arranjo e performance vocal mais contida. Tanto a linha de guitarra acústica, como a profundidade transmitida pelo baixo e os backing vocals soulful, transmitem quase que eficazmente a mesma tristeza das letras de Meloy. “The Wrong Year”, por sua vez, foi o terceiro single e é um lindo folk-pop amparado por uma abundância de violinos e letras emotivas de Colin Meloy. É uma canção muito sólida que eu, particularmente, considero um dos grandes destaques do registro. Sua linha de guitarra e melodia são extremamente cativantes e, sem dúvida, merecem várias repetições. Já faixas como “Carolina Low” mostram o vocalista capitalizando sobre suas inclinações menos bombásticas, tornando sua voz mais suave e melancólica, sem adornos ou floreios extravagantes. Essa faixa com certeza se encaixaria bem na trilha sonora de um filme de faroeste.

Tanto a guitarra como o vocal mais relaxado dessa canção serviram bem como um complemento para a faixa seguinte: “Better Not Wake the Baby”. Essa é a mais curta do repertório, com menos de 2 minutos de duração, que explora a miséria e extrema pobreza. Explorando a tradição das melhores canções populares americanas, Meloy canta com uma alegria mórbida: “Arranquem seus olhos com uma faca de manteiga / Mas é melhor não acordar o bebê / Quanto tempo isso vai continuar? / Até quando, na verdade?”. Musicalmente, ela também segue no velho estilo do folk americano, com arranjos e instrumentos tradicionais. A décima faixa, intitulada “Anti-Summersong”, possui uma sonoridade inspirada pelo country e traz de volta as tendências auto-referenciais de Meloy. Aqui, ele diz que “não estou passando apenas para cantar outra música singalong suicídio”, em referência a faixa “Summersong” do álbum “The Wife Crane”. Ela parece mostrar a banda tentando minimizar seu passado, dirigindo-a ao seu público e convidando-os à tolerar a mudança musical e lírica deles.

The Decemberists

Um dos momentos mais simples liricamente desse álbum é a décima primeira faixa “Easy Come, Easy Go”. As suas rimas inclusive deixam muito a desejar. Ela é tão simples e ainda se deleita, uma pequena canção que tem como maior atrativo a guitarra country-rock. “Mistral”, com seu refrão pegajoso, vem em seguida e entrega alguns elementos estilísticos do álbum “The King Is Dead”. É sem dúvida uma canção bastante cativante, com uma boa mistura harmônica, corais ao fundo, além de gaitas e uma guitarra folk na instrumentação. A canção mais triste encontrada aqui é “12/17/12”, a peça central do álbum. Uma outra balada acústica com gaita, que serviu como resposta da banda ao massacre ocorrido na escola Sandy Hook em Newtown, Connecticut, nos Estados Unidos (um homem de 20 anos de idade, abriu fogo e acabou com a vida de 20 crianças e seis adultos). É a partir dos últimos versos dessa música que o título do álbum surgiu, com Meloy refletindo sobre o discurso do Presidente Obama naquela data: “Que mundo terrível, o que é um mundo maravilhoso, que mundo você faz aqui”.

Essa canção percorre um lirismo de peso, conforme Meloy conecta-se com o medo e incerteza por sua família, decretando sentimentos como: “E oh meu menino / Você não sabe que você é querido para mim / Você é um sopro de vida / E uma luz sobre a água / A luz sobre a água”.  Naquela época, Meloy teve um filho, por isso questiona como poderia ser tão feliz enquanto outros estavam lamentando-se. Ele desenha um nítido contraste entre o horrível incidente e a sua própria felicidade doméstica, lutando para segurar dois sentimentos juntos em sua mente. É ostensivamente uma ode simples a sua esposa e filhos, mas enquadrado pelo horror daquele acontecimento. Uma bela homenagem a todos aqueles que perderam a vida e as famílias das pessoas. Essa canção é realmente muito comovente e carregada com letras sinceras. Definitivamente uma das canções mais poderosas que a banda já escreveu. “What a Terrible World, What a Beautiful World” fecha com a música “A Beginning Song”, uma explosão dinâmica e otimista que deixa os ouvintes querendo mais. Não é nada de extraordinária ou especialmente memorável, mas certamente foi uma boa forma para encerrar o disco.

É uma canção que realmente consegue preencher o seu espaço e tempo, remontando ao início do álbum com o seu ritmo rápido e instrumentação efetivamente grande. Ela deixa uma mensagem de esperança e talvez simboliza o nascimento de algo novo para banda. A desvantagem de ouvir um grupo tão talentoso como o Decemberists é que eles podem perder a capacidade de surpreendê-lo. A vantagem é que você estará ouvindo uma banda que afiou seu ofício e suas experiências como músicos para um grau mais elevado. Ambos esses fatores são perceptíveis aqui no “What a Terrible World, What a Beautiful World”, pois não há nada aqui que deve ter chocado os fãs de longo prazo deles, mas também há várias canções que todos devem ter amado. A voz ligeiramente nasal de Meloy, as letras eloquentes e irreverentes, a sonoridade completa, que combina a intimidade do folk com a força do rock, tudo está presente e pode ser encontrado neste registro. O álbum não é coeso e um pouco desconexo, isso se deve ao fato de ser longo demais e possuir uma variedade de temas líricos. Mas este erro é facilmente perdoável quando você percebe que a banda não teve medo de arriscar em outros aspectos. Pois é um álbum com letras tão sinceras quanto os discos anteriores, assim como tem canções mais introvertidas e pessoais.

75

Favorite Tracks: “The Singer Addresses His Audience”, “Cavalry Captain”, “Make You Better”, “The Wrong Year”, “Mistral” e “12/17/12”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.