Resenha: The 1975 – I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful yet So Unaware of It

Lançamento: 26/02/2016
Gênero: Indie Rock, Pop
Gravadora: Interscope Records / Polydor Records
Produtores: Mike Crossey, George Daniel e Matthew Healy.

The 1975 é uma banda inglesa de rock alternativo composta por Matthew Healy, Adam Hann, Ross MacDonald e George Daniel. O seu mais recente álbum, “I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful yet So Unaware of It”, foi lançado em 26 de fevereiro de 2016 pela Interscope Records. Geralmente, o segundo álbum é sempre o mais difícil de se criar, uma vez que após desfrutar de um sucesso inicial, os artistas sofrem muita pressão para dar continuidade no seu trabalho. As pessoas costumam esperar algo diferente e inovador, porém, igualmente bom. Ao estarem nesta posição, muitos artistas acabam se perdendo e sofrem para manter uma identidade musical. Felizmente, isto não aconteceu com The 1975. Sua estreia auto-intitulada foi lançada em 2013 e, através dela, a banda conseguiu muitos fãs e singles conhecidos como “Chocolate” e “Sex”. Aquele álbum teve muito influência da música eletrônica e elementos musicais da década de 80.

Desde então, em meio a rumores de separação, The 1975 se reinventou completamente. Depois de dois anos em turnê, a banda prometeu uma reinvenção e cumpriu. Com este disco, eles provaram ser uma banda incrivelmente versátil. Liricamente, eles falam sobre drogas, narcisismo, amor, religião e tristeza. O álbum definitivamente não exala qualquer singularidade, nem no conteúdo lírico, muito menos no som. Na produção temos uma combinação de diferentes gêneros, como indie-rock, pop, funky, dance, gospel, country-rock, folk e dream-pop. É um projeto aparentemente inspirado em artistas como David Bowie e Peter Gabriel. Na maior parte do tempo, o álbum flui sem problemas e captura um grande alcance artístico, que vai desde uma introdução cinematográfica até uma nota íntima e tranquila. O que antes era triste e envolvido pelo preto e branco, agora é movimentado por uma luz rosa fluorescente.

Para abrir o disco, mais uma vez, eles optaram por uma introdução intitulada “The 1975”. É uma faixa nebulosa que define, imediatamente, o humor do álbum. Aqui, os vocais são cheios e poderosos, enquanto uma lufada de sintetizadores cresce cada vez mais alta. Tudo isso acontece em menos de 1 minuto e meio. Canalizando o final dos anos 1980, especificamente algumas músicas de David Bowie, temos o primeiro single “Love Me”. Guitarras e um poderoso baixo entrelaçam-se por toda parte nesta canção. Um ótimo solo, executado por Adam Hann, também aparece apropriadamente no final. Lançar esse funky-rock como carro-chefe do disco foi a opção mais adequada, visto que possui um ótimo instrumental e um refrão cativante. Liricamente, a música aborda a fama e cultura das celebridades de forma bem irônica. “E me ame / Se é isso o que quer fazer”, Healy canta de forma provocante. De acordo com o vocalista, “UGH!”, o segundo single, lida com a aflição do seu antigo vício na cocaína.

The 1975

É uma canção que poderia facilmente estar presente no auto-intitulado disco de estreia da banda. “Acho que perdi meu celular / Então pode ligar para ele por mim?”, ele pergunta um pouco antes do refrão entrar. A adição de elementos funky e o sintetizador extra, fazem esta música tomar um rumo um pouco mais feliz. Ela possui um estilo minimalista e uma batida que nos remete ao Prince. Os repetitivos vocais e o baixo pesado colocam o ouvinte em um verdadeiro estado de transe. “A Change of Heart” é a primeira balada do repertório e uma das faixas mais fortes liricamente. A letra é entregue com a nitidez que os fãs já estão familiarizados, enquanto lida com um doloroso término de namoro. O ritmo do álbum, obviamente, diminui um pouco, assim como o foco permanece no descontraído sintetizador e percussão eletrônica. A orquestração totalmente eletrônica é extremamente sedutora, enquanto soa semelhante a banda Tame Impala.

A próxima faixa, “She’s American”, é divertida e um verdadeiro banger pop, excepcionalmente cativante. O baixo de Ross MacDonald é um elemento crucial nesta canção, assim como a potente bateria de George Daniel. Além disso, a faixa também mantém um foco permanente nos descolados vocais de Matthew Healy. Um breve riff de saxofone ainda marca presença e serve como o complemento ideal. É uma música pop comercial na sua forma mais simples e eficaz. Em seguida, “If I Believe You” pisa em um território mais escuro e experimental. A letra conta a história de um ex-descrente chamando por Deus. A banda aborda a religião com ajuda de um apoio gospel nos vocais e uma batida bem percussiva. Os acordes da abertura, solos de trompete e o lindo coral gospel no refrão, acrescentam uma grande magia à letra. Com cerca de quatro minutos de duração, “Please Be Naked” é a única faixa totalmente instrumental no álbum.

É uma canção lenta, tranquila, cinematográfica e estranhamente bonita, constituída apenas por uma simples linha de piano, percussão, efeitos sonoros e pequenas ondas de sintetizadores. “Lostmyhead” segue pelo mesmo caminho da faixa anterior, embora possua quatro linhas vocais que a impedem de ser outro interlúdio instrumental. Da mesma forma calmante e sinistra, suas quatro linhas se repetem sucessivamente, enquanto Healy questiona: “Você pode sentir isso?”. Inicialmente, ela é acompanhada por acordes de guitarra, seções de cordas, efeitos vocais e sons intensos. Mais tarde, por volta dos 3 minutos de duração, alguns tambores aparecem para dar uma ligeira elevação à música. “The Ballad of Me and My Brain” marca o retorno às canções mais guiadas vocalmente, combinando a ironia de “Love Me” com a introspecção adquirida em “Please Be Naked”. Mais uma vez, Matthew Healy olha para a fama, mas, dessa vez, a partir do interior de sua própria mente.

Sua estrutura instrumental é fortemente apoiada por coros vocais, além de um baixo distorcido e cintilantes sintetizadores. “Somebody Else” vê o vocalista expressando seu pesar sobre um amor perdido. É uma das canções mais densas do álbum, uma vez que a letra é de fácil interpretação. Em alguns pontos é semelhante ao disco de estreia, mas, certamente, se encaixa no contexto do “I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful yet So Unaware of It”. Sonoramente, é outra canção de destaque. Sintetizadores gelados, drones borbulhantes, bateria sintetizada, baixo e doces vocais são os seus elementos-chave. É uma faixa verdadeiramente poderosa e eficiente. “Loving Someone”, por sua vez, desvia-se do principal cenário do álbum em busca de influências R&B e hip-hop. Uma canção saltitante que apresenta versos e batidas bem rítmicas. É uma pista tranquila e divertida, porém, em grande contraste com o restante do repertório.

Apropriadamente, a faixa-título, “I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful yet So Unaware of It”, é a canção mais longa do álbum. É quase inteiramente instrumental, se não fosse pela presença de uma única linha (“Antes de sair, por favor não vá, apague a imensa luz”). Essa faixa consegue resumir a ambição desse registro, através de alguns movimentos atrevidos. Minimalistas sintetizadores, zumbidos e camadas vocais criam um verdadeiro congestionamento. Perto do seu final, tudo muda de rumo e a canção transforma-se em uma incrível pista eletro-funky. As grandes batidas dançantes de George Daniel tomam conta e fecham a canção. “The Sound”, faixa liberada antes do lançamento do álbum, é uma das melhores músicas do repertório. Ela oferece uma grande essência retrô-pop, ao lado de letras sobre uma ex-namorada. O piano house extravagante, a batida percussiva pulsante e o solo de guitarra, são unidos em perfeita sintonia com os doces vocais de Healy, para criar uma faixa pop incrivelmente atraente.

The 1975

A partir daqui, o álbum toma um rumo um pouco mais pensativo. Não permanece tão afiado como a primeira metade, porém, ainda mantém um ótimo nível. “This Must Be My Dream” é um adorável número synthpop reminiscente do primeiro disco da banda. “Me acorde do meu sonho”, Healy pede durante o refrão. A letra fala sobre ser perdoado por sua falhas, a fim de construir uma vida ao lado de uma determinada garota. Os vocais de apoio e os sintetizadores são peças fundamentais nesta canção, no entanto, o maior destaque é o maravilhoso e cativante solo de saxofone. “This Must Be My Dream” não é uma canção memorável, mas, sem dúvida, satisfatória o suficiente para fazer parte do álbum. “Paris” é uma balada mid-tempo doce e admirável, com um tom adequado e progressão bem simples. Aqui, Healy observa uma garota e mostra o seu desejo de ir para Paris: “Sabe, como eu adoraria ir à Paris novamente”. Uma descontraída guitarra, sintetizador e percussão eletrônica guiam a canção. Enquanto isso, os vocais de Healy soam mais relaxados e suaves que de costume.

Em “Nana” a banda dedica-se a cantar sobre a falecida avó de Matthew Healy. Esse tributo serviu como uma boa vitrine para ele demonstrar suas qualidades como letrista. Vocalmente, ele aparenta estar emocionado, enquanto parece buscar consolo em sua falecida avó. Uma canção que poderia ser tornar brega, acabou sendo o principal núcleo emocional do álbum. Dessa vez, uma brilhante guitarra acústica conduz a música, à medida que sintetizadores e uma percussão servem de acompanhamento. A última canção, “She Lays Down”, abre com os mesmo sons acústicos e vocais serenos de “Nana”. Essa faixa não apresenta qualquer sintetizador ou técnica de produção avançada, soando quase como uma demo. Gravada totalmente ao vivo, a música mostra apenas a voz de Healy ao lado dos dedilhados do violão de Hann. O retorno a algo mais convencional serviu como um acabamento sólido para o álbum.

The 1975 é uma banda que chama atenção, em grande parte, devido ao carisma do vocalista. E, com o lançamento do “I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful yet So Unaware of It”, mais uma vez, eles conseguiram impressionar. Apesar de algumas observações clichês sobre a fama e cultura das celebridades, o álbum está no ponto. Não é um material inovador, porém, é algo completamente diferente para a banda. No total, temos 17 músicas, quase 74 minutos de duração e um título tão longo quanto. Tudo isso pode soar um pouco prepotente, mas é algo que poderíamos esperar do The 1975. As longas faixas instrumentais, às vezes parecem perderem-se em sua própria experimentação, mas isso acaba sendo perdoado quando temos tantas músicas excessivamente cativantes. Enfim, “I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful yet So Unaware of It” é um esforço sólido, uma coleção de ótimas músicas pop, com letras interessantes e uma experiência agradavelmente eclética.

75

Favorite Tracks: “Love Me”, “UGH!”, “A Change of Heart”, “She’s American”, “If I Believe You”, “Somebody Else” e “The Sound”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.