Resenha: Taylor Swift – reputation

Lançamento: 10/11/2017
Gênero: Pop, Eletropop, Synthpop
Gravadora: Big Machine Records
Produtores: Taylor Swift, Jack Antonoff, Max Martin, Shellback, Ali Payami, Oscar Görres e Oscar Holter.

Anos atrás uma adolescente nascida na Pensilvânia partiu para Nashville, Tennessee, para seguir uma carreira na música country. Em 2006, ela chegou rapidamente à fama com o lançamento do seu primeiro álbum de estúdio. O sucesso de Taylor Swift trouxe uma série de prêmios para si, incluindo surpreendentemente dois “álbuns do ano” na maior premiação da indústria, o Grammy. Há três anos, o mundo começou a ficar aos pés de Taylor Swift, graças ao lançamento do seu primeiro disco inteiramente pop, intitulado “1989” (2014). O disco vendeu mais de 10 milhões de cópias em todo o mundo e tornou-se um enorme sucesso com uma longa série de singles mundialmente conhecidos. Foi a partir daí que Swift deixou claro a sua vontade de abraçar a produção pop de Max Martin para poder competir com outras estrelas, como Katy Perry e Lady Gaga. Durante quase toda a sua carreira, Taylor Swift assumiu um papel de vítima, entretanto, essa versão de si mesma parece que ficou no passado. Em 2016, a sua imagem como uma garota meiga e ingênua começou a desmoronar quando Kim Kardashian a expôs. Consequentemente, Swift desapareceu dos olhos do público por alguns meses e somente retornou em 2017 com o single “Look What You Made Me Do”. Esta canção foi o primeiro single do seu sexto álbum de estúdio, chamado de “reputation”. Ao longo desse registro, Swift reconhece o fato de que ela é a vilã da história.

Ela está fria, vingativa e com uma imagem completamente diferente. Mas, independentemente de como você vê a vida pessoal ou carreira musical de Taylor Swift, é difícil negar sua grande proeza para vendas. De alguma maneira, ela conseguiu convencer sua fã base a permanecer ao seu lado, mesmo quando muda de estilo ou gênero musical. “…Ready for It?”, o segundo single do álbum, foi melhor recebido do que o primeiro, enquanto os promocionais “Gorgeous” e “Call It What You Want” parecem um retrocesso para a Taylor Swift mais doce e segura do passado. O “reputation” é um projeto escuro, complexo, impulsivo e tematicamente mais maduro. Com ajuda de produtores como Max Martin, Shellback e Jack Antonoff, é o tipo de álbum que prospera com tons dramáticos e grandes refrões. Entretanto, por todas as suas falhas, é um material que cumpre o que foi prometido. Ele lida com a reputação de Swift e a obsessão da mídia perante ela. Além disso, é um álbum que inevitavelmente abraça um estilo de produção com elementos de hip-hop, trap e eletropop. A produção eletrônica e os baixos pesados fazem a cantora desencadear algumas de suas experiências nos últimos anos. Aproximando-se dos 30 anos, Taylor Swift parece ansiosa para acabar com a imagem doce e inocente do passado. Ao utilizar fortes tendências musicais do momento, ela encheu suas canções com batidas de EDM e tambores trap.

É bom vê-la expandindo seus horizontes, embora nem sempre ela faça isso de forma natural. Suas melhores performances ao longo do álbum são definidas pela cadência e o ritmo, não pela própria melodia. A mulher que construiu sua carreira com canções românticas, como “Love Story”, “Fifteen” e “Mine”, está agora com um olhar sombrio, luxuoso e obsessivo. Desde a primeira faixa, “…Ready for It?”, fica óbvio que Taylor Swift está agressiva e no lado ofensivo. Esta faixa realmente nos prepara para o que está por vir. Começando com uma profunda, escura e grave linha de baixo, este banger possui um alargamento eletrônico, elementos de hip-hop, máquinas de ritmo, natureza industrial e profundos sintetizadores. A produção parece fora de controle, mas as batidas pesadas e vibração eletrônica nos levam para um pré-refrão brilhante. Liricamente, a linha mais atraente da música é: “E ele pode ser meu carcereiro, como Richard Burton para essa Taylor / Cada amante que tive é um erro perto dele”. Aqui, ela faz uma pequena referência ao amor de Richard Burton e Elizabeth Taylor. A segunda faixa, “End Game”, é uma colaboração entre Taylor Swift, Ed Sheeran e o rapper Future. A cantora abre a canção, enquanto o verso de Future aparece surpreendentemente cedo. “Eu tenho uma reputação, garota / E isso não me procede”, ele diz aqui. “End Game” é uma faixa eletropop fortemente influenciada pelo R&B e hip-hop, com ingredientes essenciais para fazer sucesso no mainstream.

Ademais, apresenta os principais temas do álbum: fama, drama, celebridade, relacionamentos, reputação e imagem. Mesmo que não haja uma música no álbum intitulada “Reputation”, esta canção faz o papel de apresentar o conceito por trás disso. Enquanto Swift é vocalmente consistente, Ed Sheeran parece totalmente avulso com o seu pseudo-rap. Em “I Did Something Bad”, a cantora reconhece sua reputação na indústria apresentando suas queixas contra a mídia e os críticos. Uma canção escura e inusitada que nos deixa querendo mais. Novamente, Swift canta sobre um som eletropop, elementos de trap, sintetizadores e pesadas batidas, enquanto mergulha num tema vingativo contra pessoas que a traiu. O loop vocal “da-da-da-da” após o refrão é totalmente irresistível, enquanto a profundidade das letras causam um leve choque. Apesar da linha – “Eles estão queimando todas as bruxas / Mesmo que você não seja uma / Eles tem suas forquilhas e provas / Seus recibos e razões / Acenda-me, vá em frente e acenda-me” – ser um pouco inconveniente, Taylor parece estar falando diretamente com Kanye West, Kim Kardashian, Katy Perry e até mesmo Calvin Harris. O refrão é bem cativante, ao passo que a produção de Max Martin e Shellback, com quem ela trabalhou na maior parte do álbum, está muito boa. Os sintetizadores e sons eletrônicos são muito recorrentes neste registro.

Dito isto, “Don’t Blame Me” é uma faixa synthpop, com algumas sugestões gospel, sobre um parceiro cujo amor era viciante e intenso. Assim como em “Clean” do álbum “1989” (2014), Swift utiliza uma metáfora com drogas. As linhas, “Senhor, salve-me, minha droga é meu amor / Eu estaria usando pelo resto da minha vida / Não me culpe, seu amor me deixou louca” e “Eu fico tão chapada / Toda vez, sim, toda vez que você está me amando”, produzem um toque sedutor e harmônico. A palavra “reputação” aparece novamente na faixa “Delicate”, uma canção delicada como o próprio título sugere. “Minha reputação nunca esteve pior, então / Você deve gostar de mim por quem eu sou”, possui letras sinceras e o melhor uso da palavra “reputação”. Esta faixa mostra a parte excitante de estar entrando num novo relacionamento. Aparentemente, é dedicada para o seu novo namorado, o ator Joe Alwyn. Apesar do filtro em suz voz, “Delicate” é o primeiro momento vulnerável do repertório, ao passo que consegue se distanciar da agressão eletrônica das primeiras faixas. Além da produção synthpop, Taylor faz uso de batidas de dancehall, harmonias relaxantes, instrumentos mais suaves e refrão sussurrante. “Me desculpa, mas a antiga Taylor não pode atender o telefone agora / Por quê? Oh, porque ela está morta”, ela canta no primeiro single, “Look What You Made Me Do”.

Swift escreveu a música com Jack Antonoff, enquanto Richard Fairbrass, Fred Fairbrass e Rob Manzoli, membros do grupo Right Said Fred, são creditados como compositores porque a música usa a melodia de “I’m Too Sexy”. Ao colocarmos “Love Story” ao lado de “Look What You Made Me Do”, podemos até pensar que elas são interpretadas por diferentes cantoras. Enquanto “Love Story” é um county-pop açucarado inspirado por um romance Shakesperiano, “Look What You Made Me Do” é um eletropop e dance-pop assustador. As batidas são mais assustadoras do que nunca, graças à produção de Jack Antonoff, que trabalhou recentemente no novo álbum da Lorde. Obviamente, essa canção é dirigida para os inimigos que Taylor Swift fez ao longo dos anos. Aparentemente, as letras são direcionadas para Kanye West, Kim Kardashian e Katy Perry. Como o título sugere, ela tenta culpá-los, mas sem admitir os seus próprios erros: “Eu não gosto dos seus joguinhos / Não gosto do seu palco inclinado / Do papel que você me fez passar / De idiota / Não, eu não gosto de você / Eu não gosto do seu crime perfeito / De como você ri quando mente”. Enquanto nós testemunhamos uma Taylor Swift pura ao longo dos anos, parece que sempre houve uma pessoa sinistra por trás de sua fachada. Em “Look What You Made Me Do”, ela finalmente deixou o seu verdadeiro lado vir à tona, enquanto é apoiada por uma produção dramática e consistente.

Um piano assombroso e algumas cordas fornecem uma introdução gótica para a música, antes que os vocais de Taylor Swift apareçam sob um ritmo de bateria e uma linha pesada de baixo. Inicialmente, os dois primeiros versos seguem o mesmo padrão. A batida sincopada foi emprestada de “I’m Too Sexy” (Right Said Fred), que funciona de forma estranha, mas ao mesmo tempo viciante e infecciosa. Não há dúvida que a música é extremamente repetitiva, principalmente o refrão. A maioria das palavras são cantadas na mesma nota, porém, com sintetizadores atmosféricos criando uma grande tensão. Debaixo das letras, os sintetizadores e efeitos distorcidos provam que “Look What You Made Me Do” é a canção mais obscura de sua carreira. O fato mais chocante sobre este novo single é a drástica mudança de imagem da boa Taylor Swift. Mesmo com algumas faixas vingativas, como “Blank Space” e “Bad Blood”, ela ainda possuía uma postura de vítima inocente. Entretanto, nessa nova música, ela canta durante a ponte: “Eu não confio em ninguém / E ninguém confia em mim / Eu serei a atriz / Estrelando em seus pesadelos”. São letras que nos mostram o lado mais sombrio de Taylor Swift, algo nunca destilado de forma tão direta. A atmosfera contraída dentro dos primeiros versos da música é muito boa, enquanto a totalidade de “Look What You Made Me Do” é escura e cativante.

Além disso, eu também gostei da sequência de cordas de piano que interrompem, de vez em quando, as batidas eletropop da canção. “So It Goes…”, por sua vez, é mais parecida com “I Did Something Bad”. Uma típica canção eletropop com pesados efeitos em seus vocais. É talvez uma das faixas mais sexy do repertório, uma vez que ela fala mais do que simplesmente se apaixonar: “Você sabe que eu não sou uma garota má / Mas eu faço coisas ruins com você”. Embora não seja um destaque, a produção e os fraseados melódicos são mais escuros do que de costume. O terceiro single promocional, “Gorgeous”, é o primeiro indicativo de que a “Old Taylor” não está completamente morta. Uma canção eletropop e synthpop incrivelmente radio-friendly com letras muito mais joviais. Co-escrita com Max Martin e Shellback, a cantora fala sobre um interesse amoroso e o descreve como “maravilhoso”. A produção muito mais leve e suave, além da cativante melodia, transmite um ar diferente das outras faixas, porém, não leva as coisas para outro nível. A próxima faixa, “Getaway Car”, é uma das mais fortes do repertório e uma excelente adição ao catálogo de Taylor Swift. Possui muitas referências a cultura pop, incluindo o romance de Bonnie e Clyde. A primeira faixa co-escrita e produzida por Jack Antonoff, é quase uma crônica de amor e desgosto. Inicialmente, ela abre com um tom robotizado que diz: “Não, nada de bom começa em um carro de fuga”.

Após isso, a canção segue falando de um romance que estava condenado ao fracasso desde o início. É uma música radiante que, em termos de som, é a coisa mais próxima do álbum “1989” (2014). A batida oitentista, baixo funky, sintetizador e a vibração synthpop nos fazem lembrar de “Style” e algumas recentes canções de Carly Rae Jepsen. Mais efeitos vocais e forte produção EDM voltam a aparecer na décima faixa, “King of My Heart”. É uma canção sobre encontrar um amor que ela quer manter em segredo. Certamente, não é uma das faixas mais marcantes do registro, porém, se mostra cativante depois de repetidas escutas. Alguns elementos de percussão ajudam o refrão a se tornar maior do que realmente é. Por outro lado, é uma canção sem rosto e com efeitos computadorizados que tiram os principais detalhes da voz de Swift. É justamente aqui que o álbum começa a sentir-se um pouco cansativo e longo demais. “Dancing with Our Hands Tied”, uma das faixas mais animadas do registro, possui um ritmo mais rápido, batidas implacáveis e vocais em camadas. É um canção pop up-tempo e cativante com algumas boas mudanças de ritmo tingidas de EDM. Liricamente, fala sobre se apaixonar em meio a escândalos envolvendo a mídia. É um assunto interessante, porém, já foi explorado outras vezes por ela anteriormente. Em “Dress”, Taylor Swift muda de atitude mais uma vez e nos apresenta sua canção mais explicitamente sexual até o momento.

“Diga meu nome e tudo simplesmente para / Eu não quero você como um melhor amigo / Eu só comprei esse vestido para que você pudesse tirá-lo / Grave seu nome na minha cama”, ela canta sensualmente. Uma música synthpop leve e sexy com tons e falsetes que nos fazem lembrar de “Wildest Dreams”. Sem dúvida, é uma canção estruturalmente e liricamente diferente para os padrões puritanos de Taylor Swift. Ela construiu grande parte de sua carreira em torno de ser ingênua, inocente e humilde, então a imagem mais venenosamente matizada deste álbum é um pouco chocante. “This Is Why We Can’t Have Nice Things”, por exemplo, possui um tom sarcástico e explora novamente o feud com Kanye West e Kim Kardashian, desta vez falando sobre a conversa telefônica gravada e o drama que se desenrolou depois disso. Sem dúvida, há referências óbvias direcionadas a Kanye e Kim: “Era tão bom ter amigos de novo / Eu estava lá te dando uma segunda chance / Mas você me apunhalou pelas costas / Enquanto eu apertava a sua mão / E aí mora o problema / Amigos não tentam te sacanear / Te peguei no telefone e descobri a farsa / E agora eu tenho que acabar com essa encenação”. “This Is Why We Can’t Have Nice Things” é uma das faixas mais fracas de todo álbum, seja pelo som alto e barulhento ou fraca melodia. As batidas eletrônicas são muito semelhantes neste álbum, por isso é difícil suportá-las nessa canção.

O último single promocional lançado antes do álbum, “Call It What You Want”, parece uma b-side do álbum “1989” (2014), embora sinta-se confortável dentro do “reputation”. Aparentemente, é outra ode dedicada para o seu novo namorado. Com um ritmo único e diferenciado, Taylor fornece letras emocionalmente complexas e calmantes. Ela fala sobre como se apaixonou durante o último ano e encontrou um novo amor. Em outras palavras, “Call It What You Want” é uma balada eletropop muito bem desenhada e relaxante. O álbum fecha com “New Year’s Day”, uma balada de piano onde ela pinta uma imagem pós-festa de Ano Novo. Há algumas belas harmonias nesta canção, além de simples cordas de violão ao fundo. Entretanto, ela não atinge a mesma profundidade emocional de obras como “All Too Well” e “Begin Again”. Por ser um epílogo acústico, não se encaixa tão bem num álbum construído principalmente em cima de sintetizadores. Provavelmente, ela ficaria melhor colocada se fosse creditada como faixa bônus. No geral, “reputation” é um álbum cheio de temas amorosos e vingativos, porém, não é tão consistente quanto o “1989” (2014). Certamente, é um registro refrescante que mostra uma nova perspectiva da cantora. Por outro lado, possui suas falhas e não tem a mesma coesão que Taylor Swift apresentou no passado. De qualquer maneira, “reputation” é um álbum interessante, infeccioso e muito melhor do que o esperado.

Favorite Tracks: “I Did Something Bad”, “Delicate” e “Getaway Car”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.