Resenha: Take That – III

Lançamento: 28/11/2014
Gênero: Pop
Gravadora: Polydor Records
Produtores: Greg Kurstin, Jeff Lynne, Mattman and Robin, Stuart Price e John Shanks.

O grupo Take That foi formado em 1990 e, atualmente, é constituído apenas por Gary Barlow, Howard Donald e Mark Owen. Os outros dois integrantes, Robbie Williams e Jason Orange, já deixaram o grupo. Barlow atua como o principal vocalista e compositor, enquanto Owen e Donald fornecem os vocais de apoio. O grupo é muito bem sucedido no Reino Unido, onde já possui doze singles e sete álbuns número #1. Robbie Williams deixou a banda em 1995, enquanto os quatro membros restantes completaram a turnê mundial e lançaram um último single antes de se separarem em 1996. Depois de filmar um documentário em 2005 sobre o Take That, eles lançaram um Greatest Hits como quarteto, sem Williams, e anunciaram oficialmente uma turnê de retorno. Em seguida, em 2006 gravaram um novo material inédito juntos, o quarto álbum “Beautiful World”, que foi seguido do “The Circus” em 2008.

Robbie Williams voltou ao Take That em 2010 para gravar o sexto álbum de estúdio da banda, o “Progress”. Lançado em novembro daquele ano, foi o primeiro disco gravado pelo Take That com a formação original desde 1995. “III” é, portanto, o sétimo álbum de estúdio do grupo, desta vez como um trio, visto que Jason Orange e, mais uma vez, Robbie Williams deixaram o Take That. Lançado em 28 de novembro de 2014, o som do “III” é, de acordo com Gary Barlow, um “amálgama do material dos últimos oito anos da banda”. O título, obviamente, é para anunciar a nova fase do grupo, que agora atua como um trio. Estreou em #1 no Reino Unido, vendendo 145 mil cópias em sua primeira semana, e quebrou o recorde de disco mais pré-encomendado na história da Amazon britânica. No repertório do disco temos um total de 12 faixas, onde o trio fez questão de dar o que seus fãs querem, ou seja, música pop com letras genericamente edificantes, sobre triunfos no amor, o poder da amizade e as recompensas da lealdade.

Entre os produtores, três deles já trabalharam com grande estrelas pop, como Stuart Price (Madonna), Greg Kurstin (Lily Allen, Katy Perry e Ellie Goulding) e John Shanks (Miley Cyrus). Um dos principais problemas desse disco é, justamente, a ausência do outros dois membros (especialmente Robbie Williams). Orange abandonou o grupo durante a gravação desse disco, deixando para os três sobreviventes dividirem suas partes. Mas, honestamente, o “III” não fica muito longe da sonoridade dos álbuns do Take That lançados antes do “Progress” de 2010, quando atuavam como um quarteto. Já Williams faz muito falta, até porque em carreira solo ele já foi muito mais ousado e longe que qualquer um do seus ex-companheiros de banda. Ele, mais uma vez, quase ofuscou seus antigos camaradas ao lançar um álbum (“Under the Radar”), não anunciado, no mesmo dia que o “III”.

Take That

Por ser um álbum de b-sides e demos, Williams o disponibilizou somente através do seu próprio site, portanto, não rivalizou com o Take That nas paradas musicais. “III” passa longe de ser mais uma reinvenção para o grupo e é um disco bem aquém do seu antecessor. Embora seja um material de natureza otimista, é bastante oco, vazio e tão excessivamente alegre, que em alguns momentos chega a irritar. A canção que abre o registro é o primeiro single “These Days”, que tornou-se o décimo segundo número #1 da banda no Reino Unido. Uma música que retorna às raízes mais pop do grupo em uma vibe disco-funky, que realmente desempenha um papel de “homenagem aos primeiros anos” do Take That, como o próprio Gary Barlow falou. É difícil negar que essa é uma faixa descaradamente cativante, muito otimista e ágil na sua guitarra.

Por outro lado, o house infundido de “Let In the Sun” é genérica e transmite a sensação de estar totalmente fora do lugar no álbum. Para compensar a falta de criatividade lírica, Barlow tenta sustentar a canção repetindo muitas vezes a frase que dá título à música. A pálida “If You Want It”, assim como a anterior, é aquele tipo de faixa que o grupo faz para tentar inspirar sua fã base do sexo feminino. É uma canção com pouca imaginação, chata sonoramente e com um lirismo fraquíssimo (“Se você querer ele / Você pode tê-lo / Se você querer ele / Venha e pegue / Se você querer ele”). “Lovelife” é outra canção otimista marcada por clichês, mas que faz uma boa fusão de country, batidas house e melodias inspiradas por música espanhola. Certamente é algo incomum, mas se encaixa bem por causa da excessiva atmosfera festiva do repertório. Trazendo uma mudança de direção, a faixa “Portrait” é uma balada comandada por Barlow, que fala sobre a brevidade da vida (“Vida abrandar / Você foi muito rápido (…) Anos não vem cedo demais / E dias sejam longos e luz / Futuro você pode esperar”).

Take That

Essa dá um tom melancólico para o registro, algo mais adequado com o lançamento solo de Gary Barlow (“Since I Saw You Last”). Aqui, ele coloca o seu falsete para fora, mas a instrumentação muito alta, as batidas dubstep e os “Ba ba ba ba ba ba ba ba” não casaram muito bem. Quando chega na sexta faixa o disco fica um pouco melhor. “Higher Than Higher”, por exemplo, possui um som mais consistente, boa percussão e traz algo mais experimental. Enquanto isso, “I Like It” é uma faixa eletro muito boa com um balanço glam, que poderia até fazer parte do “Progress”. Sua produção tem uma boa desenvoltura, com sintetizadores ressonantes e riffs de guitarra que deram um bom impacto para o registro. Em um trecho da música os membros sobreviventes cantam suas intenções: “Todo mundo está procurando / Alguém que eles podem adorar / Dê-lhes o que eles vieram aqui / Sempre deixá-los querendo mais”.

Com bons arranjos e um som contemporâneo, “Give You My Love” é a canção onde, finalmente, Howard consegue sua primeira passagem vocal no álbum. Isso porque tanto ele quanto Mark Owen ficam nomeadamente na sombra de Gary Barlow. A balada mid-tempo “Freeze”, produzida por Greg Kurstin, é um dos momentos mais maduros do álbum, que pode ser interpretada como um comentário sobre a saída de Jason Orange, enquanto “Into the Wild” é uma música confiante, com floreios eletrônicos, que fornece um ótimo vocal de Mark Owen. A balada “Flaws”, com um sabor acústico, é emotiva, tem um charme peculiar e liricamente é uma das faixas mais honestas. “Tenho tantas, tantas falhas (…) / Oh, eu quero ser um homem melhor do que eu sou / Eu quero ser aquele que diz que entende”, eles cantam. A faixa de encerramento é o quarto single “Get Ready for It”, que entrou na trilha sonora do filme “Kingsman: Serviço Secreto”.

Essa possui uma melodia arrebatadora e um acúmulo de “oh woah ohs” que evoca um estádio gritando. A música é muito dependente desse repetitivo coro, pois é o seu maior atrativo. Em suma, enquanto “III” é alegre, pop, sem remorso, porém, o seu álbum mais fraco desde a reunificação em 2005. Não chega a ser um desastre e, certamente, não danificou o bom status da banda. A intenção do trio para esse registro foi aparentemente simples, fazer os fãs felizes com mais um material inédito e cair na estrada com mais uma turnê. No entanto, “III” terminou por ser um trabalho com uma interpretação muito superficial, que poderia ter um pouco mais de potência para realmente solidificar essa nova fase do Take That. A individualidade das faixas foram sacrificadas para fins comerciais e o que restou foi letras sem criatividade, lirismo preguiçoso, produção soando datada e um produto final bem desarrumado.

50

Favorite Tracks: “Higher Than Higher”, “I Like It”, “Give You My Love” e “Get Ready for It”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.