Resenha: T.I. – Paperwork

Lançamento: 21/10/2014
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: Columbia Records
Produtores: Pharrell Williams, DJ Mustard, The-Dream, The Beat Bully, DJ Toomp, Jazzfeezy, Kenoe, London on da Track, Mars of 1500 or Nothin’, Sak Pase, Steve Samson, Tommy Brown e Tricky Stewart.

“Paperwork” é o título do nono álbum de estúdio do rapper Clifford Joseph Harris, Jr., conhecido simplesmente por T.I.. Vencedor de três prêmios Grammy (em “Best Rap Solo Performance”, “Best Rap Performance by a Duo or Group” e “Best Rap/Sung Collaboration”) e dono dos hits mundiais “Whatever You Like” e “Live Your Life”, T.I. começou sua carreira com uma grande gravadora em 1999 e passou a ganhar reconhecimento em 2003. Seu sexto álbum, “Paper Trail” (2008), tornou-se o seu mais bem sucedido até à data, com vendas na primeira semana de 568 mil cópias nos Estados Unidos e vários hits no mundo todo. Em 2013, o rapper também foi destaque, ao lado de Pharrell, no smash hit “Blurred Lines” de Robin Thicke que chegou ao número #1 em diversas paradas musicais importantes. Seu mais recente álbum, “Paperwork”, é o primeiro projeto pela Columbia Records e foi lançado dia 21 de outubro de 2014.

Conta com participações de diversos outros artistas, entre eles Iggy Azalea, Chris Brown, The-Dream, Jeezy, Lil Boosie, Rick Ross, Skylar Grey, Usher e Pharrell Williams, que trabalhou como produtor executivo do álbum. Além de Pharrell, a produção do disco foi feita por vários nomes de alto perfil, como DJ Mustard, DJ Toomp, Tricky Stewart, Tommy Brown e London on da Track. O álbum estreou em #2 na Billboard 200 com vendas na primeira semana de 80 mil cópias nos Estados Unidos. T.I. tem planos ambiciosos, tão grande que é admirável a sua ambição. Não sabemos se irá se concretizar, mas ele pretende lançar uma trilogia de álbuns, a começar por “Paperwork”, com apenas 6 a 9 meses de intervalo e lançar um filme para ilustrar o assunto deles. Esse registro aparentemente é o seu mais pensativo, substancial e animado desde o “Paper Trail”. Ele sempre fez sua vida um livro aberto e “Paperwork” está no seu mais atraente, quando percebemos que ele é bem autobiográfico.

T.I. sempre teve alguma fonte de inspiração por trás de seus álbuns, soando bem ou não, e com esse mais recente trabalho não foi diferente. Em seu três primeiros álbuns, ele estava tentando viver como um “rei do sul”, título que ele concedeu a si mesmo quando novato. “King” (2006) o viu desfrutar do seu reinado auto-professos, enquanto “T.I. vs T.I.P.” ele passou por um crise de identidade após um enorme sucesso. Passagem pela prisão e clamando por um lugar entre a elite do rap ele nos entregou o seu disco mais bem sucedido, o “Paper Trail”. Essa mesma substância foi o que motivou a lançar o cansado “No Mercy” de 2010, após ficar 11 meses preso. Em “Trouble Man: Heavy Is the Head” (2012), o rapper tentou abraçar todos os seus defeitos, inclusive posando com uma arma na capa. Para quem não sabe, T.I. já foi preso algumas vezes, sendo uma delas por porte de armas. Agora Tip não tem mais nada a provar, mas grande parte do seu nono álbum tenta mostrar um pouco mais sobre quem é Clifford Harris.

T.I.

“Paperwork” sente-se como um novo começo para o rapper, enquanto o seu desempenho sente-se relaxado, descontraído e quase lúdico. É um refinado material radio-friedly com uma postura gangsta, que fala sobre as ruas, preferências sexuais, relacionamentos, negros norte-americanos, discursos políticos, etc. Logo na primeira faixa, “King”, T.I. lembra do solo que cresceu, explicando como tem sido capaz de superar adversidades e problemas encontrados nele mesmo. “The way that I walk it, exactly the way that I talk it”, ele exclama em um dos versos. É a única canção solo do disco, com seu fluxo habitual ecoando através de uma pesada batida. Em “G’ Shit”, primeira faixa co-produzida por Pharrell, T.I. arrasta o seu fluxo para jogar ao lado de Young Jeezy e WatchTheDuck. Sua composição é bem rude, afiada e de alta energia. Aqui, o rapper prenuncia o tema geral do álbum logo na primeira linha, “Eu sou um negro rico como eu não sei / eu posso mudar se eu quero, mas eu não vou embora”. Enquanto isso, Williams forneceu um sino e um sintetizador reluzente que permeia em cima das rimas dos rappers.

O primeiro single, “About the Money”, conta com a benéfica participação de Young Thug e é certamente uma das faixas mais carismáticas do disco. Falando de dinheiro, como de costume, “About the Money” parece ser uma canção que foi construída para a geração mais jovem. T.I. fornece boas melodias, mas Young Thug brilha rapidamente à frente do rapper veterano, proporcionando versos cativantes que apoiam o tema do registro. A produção de London on the Track também foi um verdadeiro destaque, que completou os ganchos dos rappers com uma batida viciante. Em “New National Anthem”, que apresenta Skylar Gray, T.I. usa seu rap para chamar a atenção para a brutalidade policial e um sistema de justiça injusta. É uma resposta astuta e com raiva para o assassinato de Michael Brown em Ferguson (St. Louis). Brown, era um jovem negro de 18 anos que morreu após ser alvejado por um oficial da polícia. Brown não portava armas e não possuía nenhum antecedente criminal.

Com a violência se tornando prevalente no ano passado entre policiais e afro-americanos, T.I. canta sobre a verdade de sua vida, de onde veio e o que está passando hoje. Ele derrama a sua alma para fora nessa canção, permitindo que seus fãs se identifiquem com sua honestidade. “Poxa polícia o que foi que eu fiz? (…) O que você sabe sobre ser um homem negro na América?”, questiona T.I. durante o refrão. Produzida por Tommy Brown, “New National Anthem” possui uma breve ligação eletro-pop com o hip-hop que, juntamente com a bela voz de Skylar Grey, ficou bastante agradável de se ouvir. “Controlling the town, you think it’s a game? / Got the heart of a lion and I’m a strong as a tank”, ele recita na faixa “Oh Yeah”, colaboração entre T.I. e Pharrell. Aqui, os dois alcançam uma boa química, com Tip atingindo um bom equilíbrio no seu rap e Williams se mostrando extremamente confortável no refrão. “Private Show”, por sua vez, é um congestionamento de R&B, lento e sexual, que apresenta Chris Brown no refrão. Embora seja uma faixa estereotipada, não deixa de ser cativante e sensual.

Aqui encontramos T.I. tentando jogar duro para atrair as mulheres, usando linhas sem nenhum romantismo (“A lady to the naked eye, but a nasty lil’ hold of me / If only the masses could see your ass when it’s in action”). Na faixa “No Mediocre”, segundo single do álbum, T.I. contracena com a sua rapper pupila Iggy Azalea. Se movendo através de uma batida infecciosa do DJ Mustard, é uma canção bastante cativante, com Azalea flexionando-se muito bem e entregando um de seus melhores versos até hoje. A propósito, o videoclipe de “No Mediocre” foi filmado no Rio de Janeiro, na favela Tavares Bastos. Uma das colaborações mais aguardadas para o álbum era entre T.I. e Boosie Badazz. No entanto, “Jet Fuel” se saiu como uma canção bem forçada e genérica, com um tema ultrapassado e versos fracos que serão facilmente esquecidos. O terceiro single, a faixa-título “Paperwork”, apresenta mais uma vez Pharrell Williams. Apesar do vocal de Williams estar meio caricato, é um número interessante e suave, que segue a mesma fórmula de “Oh Yeah”.

T.I.

“Stay” fala sobre seu casamento, mesmo sem citar nomes ou qualquer data, apenas deixando o mundo saber sobre. Este é um dos poucos momentos no álbum, onde T.I. se mostra vulnerável e bastante sincero. “Eu estou cansado de dizer-mentiras / Sei que você está cansada de jogar”, o rapper recita. Com apoio dos belos vocais da cantora Victoria Monet, essa canção tornou-se uma das poucas românticas do álbum. Em seguida, com ajuda do seu colaborador de longa data, DJ Toomp, o rapper troca bons versos com Nipsey Hussle em “About My Issue”, que ainda tem, novamente, o refrão comandado por Victoria Monet. A familiaridade de T.I. com a batida requentada de DJ Toomp o auxiliou a entregar um bom fluxo, mas quem rouba mesmo a cena é Nipsey. Na faixa “At Ya’ Own Risk” temos a presença de Usher em outra canção ameaçadora sobre sexo. É uma música chamativa, com batidas poderosas que conseguem entreter, mas no geral, eu achei muito semelhante à “Studio” do rapper ScHoolboy Q com BJ the Chicago Kid.

Em “On Doe, On Phil” encontramos versos de T.I. em parceria com o rapper de Houston, Texas, Trae tha Truth. Ambos entregam sussurros sinistros e murmúrios ameaçadores sobre uma batida aterrorizante, que foi cortesia de DJ Toomp. Perto do fim do álbum temos a sincera “Light Em Up (RIP Doe B)”, uma homenagem ao seu amigo Doe B, que foi assassinado no Alabama em 2013. É o número mais escuro e forte do repertório, onde T.I. é apoiado por Pharrell, WatchTheDuck e um obscuro instrumental. Na letra, ele conta que Doe B. estava indo se juntar à ele e Pharrell em um estúdio de Miami, quando antes de chegar foi morto. A última canção é “Let Your Heart Go (Break My Soul)” em parceria com The-Dream, um ode de coração aberto e muito apropriado para fechar o álbum. É uma música muito atraente, introduzida por um piano e co-produzida pelo próprio The-Dream. T.I. domina a arte de engrenar raps reflexivos com refrões pop, e aqui ele se dá bem usando novamente essa fórmula.

“Paperwork” de forma alguma é um álbum ruim em qualquer meio. A produção é de primeira qualidade e T.I. está rimando mais forte do que nunca. É um álbum que se move através de estilos e estados de espíritos muito parecidos com “Trouble Man”, embora tenha conexões mais lógicas e músicas melhores executadas. “Paperwork” é longo, como um verdadeiro disco de hip-hop tradicional, mas seus deslocamentos permitiram que o rapper explorasse novos territórios temáticos, o que é admirável. Trabalhando com novos produtores, Tip abriu seu estilo, sua escrita, sua abordagem, todos em maneiras interessantes. E apesar da extensa lista de convidados no álbum, T.I. ainda conseguiu obter espaço suficiente para brilhar sozinho. Aparentemente ele está em um bom momento, agora é contratado da Columbia Records, mas ainda assim está atuando cada vez mais como um magnata da sua própria etiqueta, a Grande Hustle. Vamos aguardar o próximo disco da sua trilogia que iniciou com o “Paperwork”, tudo indica que será lançado nesse segundo semestre de 2015 e já tem título: “Paperwork: Traps Open”.

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Favorite Tracks: “About the Money (feat. Young Thug)”, “New National Anthem (feat. Skylar Grey)”, “Oh Yeah (feat. Pharrell)”, “No Mediocre (feat. Iggy Azalea)”, “Stay (feat. Victoria Monet)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.