Resenha: St. Vincent – St. Vincent

Lançamento: 24/02/2014
Gênero: Art Rock, Art Pop, Indie Rock, Rock Alternativo
Gravadora: Caroline Internacional / Loma Vista Recordings / Republic Records
Produtor: John Congleton.

Sobrinha de Tuck Andress (do duo jazz Tuck & Patti), Anne Erin “Annie” Clark de 32 anos, mais conhecida por seu nome artístico St. Vincent, é uma cantora, compositora e multi-instrumentista americana. Ela começou sua carreira musical como membro do The Polyphonic Spree e também fez parte da banda de turnê de Sufjan Stevens antes de formar sua própria banda em 2006. Adotou o nome artístico St. Vincent em uma dupla homenagem: a uma avó e ao hospital em que o poeta Dylan Thomas deu seus últimos suspiros. Esse álbum, que leva seu nome, é o quarto de sua discografia solo, lançado em 24 de fevereiro de 2014. Foi esse disco que lhe rendeu o primeiro Grammy Award da carreira, na categoria “Best Alternative Album”, tornando St. Vincent na segunda artista feminina a ganhar o prêmio desde a sua criação em 1991, quando foi concedido a Sinéad O’Connor.

Annie Clark nasceu em Tulsa, Oklahoma, começou a tocar guitarra aos 12 anos de idade e, como adolescente, trabalhou em alguns shows com seus tios, Tuck Andress e Patti Cathcart. Ela cresceu em Dallas, Texas, e estudou na Lake Highlands High School, onde fez teatro e participou da banda de jazz da escola. A música de Clark tem se destacado por sua grande variedade de instrumentos e arranjos mais complexos, bem como por suas letras polissêmicas, que foram descritos como oscilando entre a felicidade e loucura. Além da guitarra, Clark também toca baixo, piano e órgão. Sua música também apresenta, muitas vezes, violino, violoncelos, flautas, trompetes e clarinetes. Seu estilo musical pouco ortodoxo tem sido caracterizado pelos críticos como uma mistura de rock, pop, indie rock e jazz. Os cantores David Bowie e Kate Bush são as principais inspirações da cantora, assim como Jimi Hendrix e Siouxsie and the Banshees. Clark também costuma citar Talking Heads, Patti Smith e Pink Floyd, como algumas de suas influências musicais.

“St. Vincent” foi produzido por John Congleton, conta um total de 11 faixas e foi gravado no Elmwood Studios, em Dallas, Texas. O álbum foi bastante aclamado pela crítica internacional em seu lançamento, mas não é para menos, está realmente espetacular, extremamente bem produzido, com vocais maravilhosos e melodias incríveis. O lirismo de Clark é acentuadamente amargo, cheio de imagens e poético. Esse disco tem uma perspectiva mais ampla que seus trabalhos anteriores e, realmente, funcionou incrivelmente bem. É o melhor material de sua carreira até à data e certamente um dos melhores disco de 2014. Quase todas as 11 faixas são memoráveis, viciantes e cheias de novos elementos que quebram o óbvio, como ruídos, timbres eletrônicos, estruturas não convencionais, etc. Clark subiu mais um nível com a elaboração de um material compacto e focado, que ainda permeia com uma maior sensibilidade pop que seus lançamentos anteriores.

St. Vincent

Abrindo temos a nervosa “Rattlesnake”, uma faixa distorcida e cheia de ruídos, que decola com um sintetizador, ritmos funky, um solo de guitarra em êxtase e o distinto vocal de Annie Clark. Uma canção que não é toda metafórica, onde percebemos que ela canta sobre ser perseguida nua no deserto por uma cobra. Sua produção é habilmente rica, como acontece com a maior parte do álbum. “Oh, que dia tão comum / Levar o lixo para fora, se masturbar”, canta St. Vincent logo na linha de abertura de “Birth In Reverse”, primeiro single retirado do álbum. Sua letra parece ser um grito de Clark para as pessoas pararem de ter medo de aventurar-se no desconhecido e experimentar coisas novas. A definição de um dia normal, e a linha “levar o lixo para fora, se masturbar” em um tom quase cômico, parece indicar que as pessoas preferem ficar acostumadas ao conforto de casa, ao invés de se desafiarem. É uma canção realmente muito dinâmica, com um viciante refrão repleto de boas melodias, uma guitarra sinistra e teclados que lembram o som dos anos 1980.

A belíssima faixa “Prince Johnny” é mais suave e envolve o ouvinte com seu coral assombroso e arranjos meticulosos. Flutuando nesse coro espectral sintetizado, é uma música que traz um enigma fascinante, porque é difícil descobrir se o personagem-título é do sexo masculino ou feminino, ou o quanto o afeto de Clark é tingido de desprezo. Certamente, uma das canções que mais despertaram minha atenção logo na primeira escuta. “Huey Newton”, por outro lado, é uma música profundamente sinistra, exuberante, que flutua sutilmente, até que de repente explode em um turbilhão de guitarras distorcidas. Não há melhor número para encapsular a dualidade do artista surrealista que Clark é, do que essa música. Uma curiosidade sobre “Huey Newton”, é que trata-se do nome de um líder do movimento Panteras Negras que foi assassinado em 1989. No entanto, a música surgiu de um sonho alucinado quando a cantora uma vez exagerou no sedativo. Nesse delírio, Clark conversava com Newton e eles, segundo ela, só falaram de amenidades.

A mid-tempo “Digital Witness”, lançada como segundo single, também atua como uma crítica à sociedade, centrando-se em falar sobre a nossa relação com a tecnologia, especialmente a internet. Musicalmente, soa similar ao álbum “Love This Giant”, sua recente colaboração com David Byrne. É uma canção genuinamente grudenta e construída em torno de um ritmo constante. O fato de St. Vincent estar experimentando novas ideias líricas e musicais, às vezes dentro da mesma música, é o que faz desse disco algo tão grande e refrescante. No extremo oposto do espectro emocional do registro, temos a maravilhosa “I Prefer Your Love”. Uma canção de ninar, que Clark canta com uma dolorosa gratidão à sua mãe. É provavelmente sua expressão mais poderosa de afeto e/ou mais sincera manifestação de carinho até a presente data. Quando ela canta, “Mas tudo de bom em mim é por causa de você”, a música atinge um espetacular clima emocional. Os sintetizadores e batidas trip-hop nebulosas foram um apropriado acompanhamento para essa balada de relação entre mãe e filha.

“I Prefer Your Love” atinge um nível cinematográfico, com St. Vincent sendo capaz de mudar rapidamente dos ruídos e guitarras distorcidas das faixas anteriores, para algo sereno e construído através de belas melodias. Na faixa seguinte, “Regret”, Anne Clark revela alguns dos seus medos: “Eu tenho medo do céu, porque eu não suporto as alturas / Eu tenho medo de você porque eu não posso ser deixado para trás”. Aqui, a cantora traz riffs frenéticos de guitarra em um ritmo bastante otimista e contagiante. A canção “Bring Me Your Loves” foi descrita por St. Vincent como uma mistura entre o metal e ritmos populares turcos. É uma faixa mais escura, sinistra e Clark no seu tom mais ameaçador. É uma daquelas canções que, na primeira audição, você acha louca e estranha, mas que depois percebe o quanto é hipnotizante e viciante. É construída com camadas de sintetizadores, guitarras e vocais assombrados, uma verdadeira confusão caótica feita de forma bem calculada e cheia de detalhes sonoros. Enquanto seu lirismo continua tão ágil e socialmente consciente do que nunca.

St. Vincent

A faixa nove, “Psychopath” é outra música bastante atraente, onde encontramos a cantora desafiando a si mesma, ao entregar letras estranhamente normais e humanas para suas interações. Os “aahs” estáveis, os sintetizadores, as guitarras ecoando e, posteriormente, o riff estridente, casaram perfeitamente para entregar uma canção cativante e exuberante. “Um sorriso é mais do que mostrar os dentes”, ela argumenta na faixa “Every Tear Disappears”, que abre e segue com um costumeiro riff distorcido. Nessa canção ela reforça sua constante busca pela auto-realização e lado artístico, que inclui extinguir qualquer coisa que fique no caminho de seus relacionamentos e felicidade. “St. Vincent” termina com “Severed Crossed Fingers”, uma balada que exala uma beleza estonteante. Um soft-rock que ao longo de quase 4 minutos nos encanta com melodias e vocais devastadores, e é certamente um dos destaques do disco. Em meio a toda a sua invenção sonora, ela ainda forneceu algumas letras verdadeiramente surpreendentes.

Quase todas as músicas contidas nesse auto-intitulado disco tem alguma linha que fará você parar para refletir. É um álbum pessoal e bem escrito o suficiente para fornecer algo que todos nós podemos nos identificar. Com suas experiências e experimentação, Anne Clark combinou, se reinventou e refinou o seu som para torná-lo algo semelhante e ao mesmo tempo totalmente diferente de qualquer coisa que fez antes. St. Vincent não tem medo de ser diferente ou correr riscos, e acha que ninguém deve ter. Também é um álbum que, apesar da sua colocação como arte mais elevada, não tem medo de abraçar a música pop, conseguindo ser acessível, desafiador e puxar o ouvinte com facilidade. “St. Vincent” é um álbum de art pop realmente gratificante, que equilibra de forma convincente algo presente com suas tendências futuristas.

Sua guitarra pode ser sua principal ferramenta para agitar, mas a sua voz continua a ser a coisa que realmente define o seu material, pois é brilhante e gloriosa. Outra coisa crucial para a excelência do registro, é a maneira como Clark equilibra suas explorações sonoras com melodias e inusitadas estruturas musicais, que mantêm até mesmo suas composições mais estranhas memoráveis e atraentes. Esta é a versão mais ousada, intransigente, viciante e aventureira de Anne Clark. E no processo de perseguir uma expressão cada mais desafiante, que ela tornou-se mais consistente, criativa e sem limites. Seus maiores fãs podem até preferir músicas menos diretas, mas esse álbum é amplamente o seu mais atraente até o momento. Acima de tudo, este é o som de uma mulher que está no auge do seu poder criativo.

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Favorite Tracks: “Birth In Reverse”, “Prince Johnny”, “I Prefer Your Love”, “Psychopath” e “Severed Crossed Fingers”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.