Resenha: St. Vincent – MASSEDUCTION

Lançamento: 13/10/2017
Gênero: Indie Rock, Eletropop, New Wave, Glam Rock
Gravadora: Loma Vista Recordings
Produtores: Jack Antonoff, St. Vincent, Lars Stalfors e John Congleton.

A cantora, compositora e multi-instrumentista St. Vincent é alguém com muito a oferecer. Misturando vários gêneros, ela construiu um nome para si ao longo da última década. Foi muito bom acompanhar a evolução de Annie Clark, que começou com uma lenta coleção de indie-rock em 2007. Mais tarde, ela tornou-se ligeiramente mais experimental e artística no álbum “Strange Mercy” (2011). Mas, o maior salto de St. Vincent aconteceu com o seu auto-intitulado disco de 2014. Sonicamente, esse álbum foi um enorme salto na direção certa e ainda rendeu um Grammy Award para a cantora. Agora, três ano depois, St. Vincent retornou em 13 de outubro de 2017 com o LP “MASSEDUCTION”. Esse álbum é uma espécie de evolução natural, onde a cantora teve tempo para crescer, mudar e tornar-se mais pessoal. Co-produzido por St. Vincent juntamente com Jack Antonoff, a melhor maneira de descrever este novo álbum é o chamando de artisticamente simples. É, provavelmente, o seu disco mais transparente e ousado até à data. Um registro emocionalmente extrovertido e descarado em seu pudor sexual. Além disso, “MASSEDUCTION” também oferece uma exploração franca que envolve vulnerabilidade e hedonismo. E enquanto o álbum não apresenta uma mudança total na composição de St. Vincent, ele é um tanto quanto diferente de suas obras anteriores. Pois ela nos leva para um lugar mais escuro e distorcido com temas que envolvem drogas, amor e destruição.

Ela faz isto seduzindo o ouvinte com pulsantes sintetizadores, poderosas guitarras, baladas sinceras, vocais de apoio robotizados e experimentos pop. Aliás, descrever Anne Clark como “pop” pode ser o fato mais surpreendente deste álbum. A produção do “MASSEDUCTION” é de qualidade excepcional, e os arranjos possuem um enorme senso de profundidade. É o tipo de álbum que você pode ouvir várias vezes e ainda ficar surpreso. A espetacular energia deste LP leva você através de uma jornada musical que dura 41 minutos. Enquanto as faixas individuais não tão explosivas, o álbum como um todo é uma experiência imensamente agradável e coerente. Geralmente, as camadas da instrumentação crescem gradualmente e atingem você com altos riffs de guitarra ou alguma pesada linha de sintetizador. Seria quase impossível listar todos os instrumentos utilizados neste álbum, afinal Anne Clark trabalhou com diferentes arranjos de cordas, trombetas, piano, violino, teclado, bateria, guitarra, sintetizador, saxofone, pedal steel e baixo, a fim de complementar seus lindos vocais. Além disso, ela usa falsetes como efeitos de lamentação para adicionar um maior drama às suas letras. Em um momento de negatividade política generalizada, este álbum fornece uma coleção de músicas emocionantes e sexualmente expressivas, inspiradas por artistas como David Bowie, Kate Bush e The Talking Heads. Quando St. Vincent combina o ritmo, a dinâmica e a instrumentação frenética com as letras e vocais emocionantes, ela faz o ouvinte simplesmente viajar. A primeira faixa, “Hang on Me”, é uma peça suave e esperançosa que envolve algumas súplicas.

É um número solitário onde ela implora a outra pessoa para não sumir: “Sim, então fique comigo / Fique comigo, fique comigo / Porque você e eu / Nós não fomos feitos pra esse mundo”. É uma faixa muito apropriada para começar um álbum tão sedutor como esse. As batidas semi-industriais foram feitas com o propósito de adicionar uma sensação sombria e introspectiva. A segunda faixa, “Pills”, lançada como terceiro single, possui o apoio de Jenny Lewis, Kamasi Washington, Sounwave e Cara Delevingne. É uma explosão pop com frases libidinosas que, posteriormente, fornece inesperadamente um final lento e escuro. Aqui, temos uma das melhores e mais emocionais performances vocais de St. Vincent no álbum. A faixa-título, “Masseduction”, e “Sugarboy” contém uma energia poderosa e estabelecem um tom mais alto com alguns sintetizadores, guitarras distorcidas e padrões eletrônicos. “Masseduction” é apropriada como o título sugere, pois é uma música funky que se move em grande parte pela seguinte repetição: “Não posso desligar o que me excita”. É outro mergulho que aborda a sexualidade em todos os seus aspectos. “Sugarboy”, por sua vez, possui um agressão mais rápida e lida com a dualidade de se sentir como um garoto e uma garota. As batidas programas de “Sugarboy” apoiam fortemente o refrão – “Eu sou muito parecida com vocês (garotos) / Eu sou solitária como vocês (garotas)” – que esclarece a viagem de St. Vincent pelo amor e sexualidade. O segundo single, “Los Ageless”, é uma peça espetacularmente sólida de dance-rock e new-wave.

O explosivo trabalho de guitarra eleva a atitude de Anne Clark, à medida que ela parece uma verdadeira estrela do rock. “Happy Birthday, Johnny” é uma música simples apoiada pela guitarra, fragmentos de sintetizador e pedal steel onde St. Vincent aborda um personagem frequente. Parece ser o mesmo Johnny com que ela queria se casar em “Marry Me” (2007) e que se tornou um príncipe em “Prince Johnny” (2015). Esta canção possui uma entrega pura, lirismo estelar e é musicalmente simples. Aqui, a cantora descreve uma queda gradual e desconexão com um velho e querido amigo. Quando chegamos na metade do álbum, ela nos oferece outra doce de rock, intitulada “Savior”, e uma explosão energética cheia de ansiedade sobre o presente e o futuro, chamada “Fear the Future”. Enquanto isso, a canção “New York” foi o primeiro vislumbre que tivemos do registro. Uma canção surpreendentemente silenciosa, implacável e sincera. Esse single explora a melancolia de Clark sobre um piano, cordas e harmonias eventuais, e um suave ritmo de bateria. Liricamente, “New York” fala sobre sentir-se sozinha numa cidade de 8 milhões de habitantes. Por isto, a mensagem geral é um sentimento de perda por aspectos da cidade. “Nova York não é Nova York / Sem você, amor / Longe demais por alguns quarteirões / Para me sentir tão por baixo”, ela canta na primeira linha da música. Este single substitui a dependência de St. Vincent pela guitarra, em favor de um piano irregular e suave. A melodia de “New York” é incrivelmente linda e inclina-se na dureza de sua perfeita composição.

De certa forma, o peso emocional dos vocais de Annie Clark lembram os paladares românticos do álbum “Marry Me” (2007). Sem ser excessivamente presunçosa, essa canção aborda um possível relacionamento dissolvido. Lidar com isso, ao lado de um piano moderado e algumas cordas, faz St. Vincent soar muito mais discreta. Esta faixa é essencialmente concisa e o resultado é uma narrativa simplificada que permite Clark brilhar. Ademais, “New York” serve como uma indicação do nível de complexidade e experimentação que ela gosta tanto de apresentar. Após a pista de destaque “Young Lover”, que fala sobre overdose de drogas, o álbum termina suavemente com o interlúdio “Dancing with a Ghost”, “Slow Disco” e “Smoking Section”. As três faixas ilustram temas que vão além do romance, ou seja, a capacidade de conectar-se totalmente com outra pessoa e os efeitos prejudiciais decorrentes disto. “Smoking Section”, em particular, possui uma melodia de piano reminiscente de Joni Mitchell. Inicialmente, Clark canta sobre um piano antes da bateria e guitarra aparecerem no refrão. A última parte da música ecoa sobre as guitarras, enquanto ela diz exaustivamente: “Esse não é o fim, esse não é o fim”. Como a própria nos disse antes, ela não pode desligar o que a excita. Anne Erin Clark conseguiu fazer um álbum excepcionalmente pessoal em seus próprios termos. Ela está disposta a falar sobre seus arrependimentos e a comemorar suas várias experiências sexuais. Vasto, fantástico e indefinível, “MASSEDUCTION” já pode ser considerado um dos melhores de St. Vincent!

Favorite Tracks: “Los Ageless”, “New York” e “Slow Disco”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.