Resenha: Solange – A Seat at the Table

Lançamento: 30/09/2016
Gênero: Funk, R&B, Soul, Neo-Soul
Gravadora: Columbia Records
Produtores: Solange, Raphael Saadiq, Troy R8dio Johnson, Raymond Angry, Questlove, Majical Cloudz, Sir Dylan, David Longstreth, Bryndon Cook, Dave Sitek, Patrick Wimberly, Sampha, Kwes, Olugbenga Adelekan, Adam Bainbridge, Sean Nicholas Savage, John Kirby, Rostam Batmandlij e Q-Tip.

Abram caminho para Solange Knowles, a irmã mais nova de Beyoncé. Com seu primeiro álbum em oito anos, “A Seat a the Table”, a cantora oferece uma incrível coleção de canções que evocam a genialidade de artistas como Prince e Erykah Badu. Lançado em 30 de setembro de 2016, o disco atingiu o topo da Billboard 200 e tornou-se o primeiro de Solange a conseguir tal feito. Essa conquista é mais do que merecido. Os temas do álbum circulam em volta da raiva e emponderamento feminino. Além do R&B contemporâneo, seu som é baseado no funk, neo-soul e soul psicodélico. A capa do álbum, com uma foto desbotada do rosto de Solange, sugere um repertório mais obscuro. As músicas não são tão coloridas quanto a maravilhosa “Losing You”, em vez disso trazem arranjos detalhados e articulados, sobre um poderoso lirismo. “A Seat at the Table” é musicalmente gentil, mas aborda a cultura negra e denuncia o racismo e o sexismo.

Enquanto isso, uma lista de convidados, que inclui seus pais (Mathew Knowles e Tina Lawson), detalham suas lutas contra a discriminação racial. “A Seat at the Table” pode não ser um registro diverso, mas oferece uma exploração estável de R&B e soul. O principal foco do repertório são as letras, onde há vários níveis de narrativa, desespero e sofrimento. Apaixonada pela música desde jovem, Solange Knowles é uma artista com uma visão única. Lançando seu álbum de estréia, “Solo Star”, em 2002, com apenas 16 anos, ela cresceu artisticamente, desde então, de maneira extraordinária. Com um total de 21 faixas, “A Seat at the Table” reflete as experiências de uma mulher negra sobre uma verdadeira poesia musical. Ao descrever o álbum, Solange afirmou que este é um projeto de empoderamento e identidade. Há alguns temas no registro semelhantes ao “Lemonade”, álbum de sua irmã mais velha. É um pouco inevitável comparar os dois álbuns, apesar dos diferentes estilos musicais.

No geral, “A Seat at the Table” ajudou a mostrar o quanto Solange Knowles evoluiu ao longo dos últimos anos. Convidando o ouvinte a relaxar, “Rise” abre o álbum com um tom jazz bastante suave, simplista e elegante. “A Seat at the Table” aborda temas pesados, como a violência racial e desigualdade, mas é um corpo de trabalho fundamentalmente otimista. Em seguida, “Weary” mostra o quanto Solange pode ser emotiva. É uma canção que sente-se como um retrocesso para o R&B do final dos anos 90, além de ser uma reminiscência de Diana Ross e The Supremes. É uma música com guitarra, baixo, órgão e piano, que fala sobre o cansaço e a solidão. A mensagem desta canção é poderosa, mas entregue de forma bastante suave. Ademais, o piano reluzente funcionou perfeitamente bem com os vocais de Solange. Escrita pela cantora ao lado de Raphael Saadiq, “Cranes in the Sky” é uma faixa que fala sobre as tentativas de aliviar a dor através do álcool, sexo e música.

O álbum traz fortes mensagens políticas, mas também concentra-se em experiência individuais de Solange, como podemos ouvir em “Cranes in the Sky”. É uma frágil e honesta balada de R&B, que revela lutas pessoais da cantora. Essa canção é bastante emocional e mostra um tom diferente para a voz de Solange. “Eu viajei por 70 estados / Pensei que o movimento me faria sentir melhor”, ela canta. Em um estado de sonho, a música flui com vocais em camadas revestidos com uma breve agitação. Cordas ao fundo adicionam camadas de melancolia para a pista, enquanto a percussão sente-se afiada e exuberante. O interlúdio “Dad Was Mad” mostra o pai de Solange Mathew Knowles falando sobre sua infância cheia de integração, segregação e racismo. “Mad”, com Lil Wayne, é uma canção macia, sexy e realmente cativante. É uma faixa que fala sobre raiva, onde Solange tenta convincentemente tenta quebrar um estereótipo de uma mulher negra.

Aqui, os vocais de Solange e Lil Wayne complementam um ao outro muito bem. Uma música brutalmente honesta onde Lil Wayne compartilha sua tentativa de cometer suicídio. Um dos destaques do álbum, “Don’t You Wait”, não é uma faixa up-tempo, mas possui instrumentos que a mantém em grande movimento. Ela contém elementos de funk e um forte apoio da bateria e baixo. É uma canção bastante alternativa, com uma batida que não soaria fora do lugar, se estivesse presente no EP “True” (2012). Liricamente, a faixa é uma resposta de Solange para um crítico que fez observações ofensivas sobre seu trabalho. O próximo interlúdio, “Tina Taught Me”, é uma declaração de Tina Lawson, a mãe de Solange. Basicamente, é uma forte declaração sobre ser negra e orgulhosa. No geral, os interlúdios do álbum não atrapalham o seu fluxo e variam entre anedotas pessoais e encorajamentos.

Outro destaque do álbum é “Don’t Touch My Hair” com Sampha, no qual Solange celebra o significado pessoal e cultural do seu cabelo natural. Em uma entrevista, Solange comentou que a canção é sobre “sentir sua identidade inteira desafiada diariamente”. De fato, esta canção de R&B e funk lamenta a desvalorização da cultura negra em um sentido bem amplo. Sem dúvida, ela explora algo comum para as mulheres negras. A sua produção, ancorada por Sampha no refrão, é linda, etérea e profundamente funk. Mais tarde, após as incríveis “Where Do We Go” e “F.U.B.U.” (com The-Dream e BJ the Chicago Kid), “Borderline (An Ode to Self Care)” lança Solange em um estilo retrô com ajuda de Q-Tip. “Junie” é uma mudança rítmica e musical, que entrega outra mensagem poderosa. É um número groove escuro que nos lembra seu trabalho no “True”.

Ela apresenta um bop de piano e um conteúdo lírico que concentra-se na veneração da identidade feminina negra. Colocada praticamente no final do álbum, a adorável “Don’t Wish Me Well” mantém a energia com seu brilhante sintetizador. Ela contém elementos de música eletrônica, além do soul psicodélico. Liricamente, é uma celebração dos direitos humanos e civis. Tanto essa canção como todo o “A Seat at the Table” serve como um farol de reflexão. Em “Don’t Wish Me Well” vemos que Solange continua mantendo-se firme em suas convicções, conforme canta: “Porque quando digo o que quero dizer, você deve saber / você tem que saber”. “Scales”, com Kelela, é uma faixa down-tempo que traz de volta a instrumentação mais simples. Essa canção reflete sobre a importância da liberdade, independentemente de raça, gênero ou crença. “A Seat at the Table” marca um grande salto a frente para Solange Knowles como compositora.

É um trabalho criativamente brilhante, com mensagens socialmente conscientes. Pode não ser um álbum fácil de se experimentar, mas é um que consegue deixar um impacto duradouro sobre aqueles que ouvem. Apesar do forte lirismo, o álbum tem uma abordagem mínima na sua produção musical. É um disco que não precisa de mais do que isso para cativar os ouvintes. A chave aqui está na riqueza dos seus detalhes. Solange nunca deixa alguma mensagem vaga. Pelo contrário, seus vocais são sempre ilustrados por uma escrita afiada, histórias reais e emoções concretas. Há sempre um elemento em sua música que prende o ouvinte. Todas essas características tornam “A Seat at the Table” um álbum incrivelmente elaborado, coerente e poderoso. Bela arte para a alma, é um registro com um forte conceito que merece ser ouvido do início ao fim, com todos os interlúdios incluídos para entender seu significado. Dito isto, Solange sem dúvida criou um dos melhores e mais importantes álbuns de 2016.

Favorite Tracks: “Cranes in the Sky”, “Don’t You Wait” e “Don’t Wish Me Well”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.