Resenha: Slipknot – .5: The Gray Chapter

Lançamento: 17/10/2014
Gênero: Heavy Metal
Gravadora: Roadrunner Records
Produtores: Greg Fidelman e Slipknot.

A famosa banda de heavy metal Slipknot foi fundada em 1995 pelo percussionista Shawn Crahan e o baixista Paul Gray. Depois de várias mudanças de alinhamento em seus primeiros anos, a banda se estabeleceu com nove membros para mais de uma década: Corey Taylor, Mick Thomson, Jim Root, Gray, Craig Jones, Sid Wilson, Crahan, Chris Fehn e Joey Jordison. Gray morreu prematuramente em maio de 2010 e foi substituído pelo ex-guitarrista Donnie Steele durante 2011-2014. Jordison saiu da banda em dezembro de 2013 por razões desconhecidas, seguido por Steele por conta do seu casamento. A banda está agora em turnê com os músicos substitutos Alessandro Venturella no baixo e Jay Weinberg na bateria. Sempre objeto de muitas controvérsias ao longo de sua carreira, Slipknot é muito conhecido por sua imagem chamativa e o estilo agressivo. Eles tiveram um ascensão meteórica ao sucesso com o lançamento do álbum de estreia em 1999, e ganharam ainda mais popularidade com o disco “Iowa” de 2001. “.5: The Gray Chapter” é o título do quinto álbum da banda, lançado em 17 de outubro de 2014, através da Roadrunner Records.

Formado por 14 faixas, o álbum já teve oito singles (4 promocionais) e estreou em #1 na Billboard 200, vendendo 132 mil cópias na primeira semana nos Estados Unidos. Percebemos um retorno do repertório ao som mais antigo do Slipknot e mantendo as melodias da banda exploradas no “Vol. 3: (The Subliminal Verses)”. É o primeiro trabalho do Slipknot em seis anos e o primeiro sem o baixista Paul Gray e o baterista Joey Jordison. O título do álbum, inclusive, faz referência ao nome de Paul Gray, devido à sua morte em 2010 por uma overdose de morfina. Perder um amigo muito próximo, cedo demais, é algo que ninguém jamais deveria ter que passar. Uma experiência que deixa qualquer um com uma infinidade de emoções que você se recusa a aceitar. Mas ao invés de permitirem que a dor e raiva tenham os destruídos, eles foram capazes de aproveitar essa energia e concentrarem-se em criar um dos álbuns mais viscerais e dinâmicos da banda até à data. Eles conseguiram canalizar a tristeza pela perda de um amigo e transformá-la em um álbum produtivo e realmente forte.

Dadas as circunstâncias que rodearam sua produção, “.5: The Gray Chapter” pode ser considerado tão distorcido e explosivo como os álbuns antecessores. Dor e angústia ainda é usada como distintivos de honra aqui, com um grande peso considerável ligado à eles. Chamando um retorno às suas raízes, como já mencionado, Slipknot continua inegavelmente evoluindo como compositores, o que significa melodias mais limpas do que nunca. Abrindo o disco temos “XIX”, uma música cheia de tensão, com órgãos obscuros, carrilhões de xilofone, sintetizador enigmático e uma guitarra acústica no fundo. É um início ameaçador, com Corey Taylor gritando com sua voz rouca que, apropriadamente, se assemelha a um canto fúnebre: “Caminhe comigo / Assim como nós deveríamos ter feito desde o início”. “XIX” é interessante, porque mantém a construção de uma série de instrumentos adicionais, enquanto o volume aumenta e as harmonias vocais permanecem constantes. Inicialmente, em “Sarcastrophe” há uma percussão leve, guitarras limpas e um ruído estático. Então, de repente, a bateria preenche tudo e Corey Taylor rosna destemidamente. Há explosões, riffs, avarias não convencionais, trabalho no teclado e uma qualidade arejada. É um música incrivelmente espetacular.

Slipknot

Na mesma medida, “AOV” também é excelente, uma música que faz uma combinação de contrabaixo e percussão, possui guitarras, teclados e sirenes que soam como o fim dos dias. Ainda há um grande refrão que aparece, ocasionalmente, entre as explosões sonoras que vai ficar preso na sua cabeça por dias. Mas tudo isso, é apenas na primeira metade da música, porque, em seguida, ainda há um interlúdio com uma guitarra ressonante e uma bela melodia no piano. O segundo single, “The Devil In I”, revela-se como um clássico do Slipknot, através dos seus dias de “Iowa”, juntamente com uma forte dose de tristeza inquietante. É uma música robusta, escura e também a mais lenta até este ponto do disco (juntamente com a faixa introdutória). O refrão é magnifico, mesmo sendo demasiadamente seguro. A introdução de “Killpop” fornece um teclado fantasma acompanhado de tambores que duplicam-se. Seu início é, sem dúvida, um dos mais acessíveis de todo o álbum. Os vocais de Corey Taylor estão excelentes e viciantes aqui. No geral, “Killpop” é uma balada fria, lenta, mas que depois vai ficando cada vez mais pesada. É ainda mais interessante por ser um canção que tem o teclado e percussão como foco principal.

A faixa seguinte, “Skeptic”, aparentemente é dedicada a Paul Gray. Ela possui uma ranhura, tambores e riffs robustos que devem satisfazer os fãs de longa data da banda. No melódico refrão death metal temos versos como: “O mundo nunca vai ver outro filho da puta louco como você / O mundo nunca vai conhecer um outro homem tão incrível como você”. A voz de Taylor está incrivelmente crua e poderosa aqui. “Eu sei por que Judas chorou, filho da puta!”, essas são as palavras que saem com fervor da boca de Taylor no início de “Lech”. Parece ser outra canção dirigida a Paul Gray, onde os a bateria está tão bem traçada que torna-se insanamente viciante. É um música com uma enorme carga de adrenalina, com a mesma pegada de “AOV” e “Skeptic”, além de algumas passagens com guitarras tão carregadas de efeitos que soam como máquinas quebradas. A voz de Corey Taylor pode ir de algo mais leve e melódico para o seu rugido vicioso facilmente. Ele usa isso para transmitir a tristeza da morte de Paul Gray em “Goodbye”, uma balada que parece ter sido escrita pela banda logo após a morte do seu amigo. “Então a última coisa no mundo que eu estou pronto para fazer é dizer adeus”, ele canta no início sobre um sintetizador reluzente.

Slipknot

Em seguida, guitarras poderosas aparecem e toda a banda junta-se em uma completa comoção sobre o amigo perdido. Tudo fica mais rápido, pesado, escuro e mais alto, a partir das guitarras distorcidas e outros instrumentos arejados. “Nomadic”, por sua vez, é uma reminiscência maníaca dos primeiros anos do Slipknot. Tem refrões harmoniosos e um fluxo apertado, que gira em torno de um incrível riff principal e um solo ao longo do caminho. É uma canção que segue realmente em linha reta, empregando algumas das melodias mais estranhas do registro. A décima faixa, “The One That Kills the Least”, começa com um riff que sinaliza algo pesado, mas em vez disso, a canção permanece leve, com vocais em camadas e um melódico e viciante refrão. O som pesado é recuperado logo em seguida na faixa “Custer”, iniciando rapidamente com um riff nervoso, um baixo distorcido e o tom ocasional. Nos vocais Taylor começa com um monólogo falado e, em seguida, explode em um dos cortes mais profundos do álbum (“Corta, corta, corta-me e fode, fode, fode-me”). Certamente, é uma música feroz que possui um dos refrões mais violentos do Slipknot até à data. A pressa imprudente de “Custer” faz Corey Taylor ficar ainda mais magnífico, paranoico e poderoso.

“Be Prepared for Hell” é um interlúdio de quase dois minutos, que também consegue ser interessante e ir fundo. Inicialmente, possui uma atmosfera estranha e aterrorizante, que depois dá luga a uma voz esganiçada que fala continuamente até encerrar com um som de teclado. Rapidamente, em seguida, temos a faixa “The Negative One”, uma música bem construída e viciante da qual estamos todos familiarizados. É um exemplo sólido de como esse álbum é fantástico. Pisando em um território clássico da banda, que foi lançada como primeiro single e é absolutamente uma grande representação do álbum. “If Rain Is What You Want” é uma faixa lenta, mas convincente e um excelente final para o registro, servindo como uma marcha de luto em memória de Paul Gray. É uma música construída lentamente em cima das guitarras, da bateria e dos vocais vagarosos. Tudo o que você já ouviu falar até este ponto no disco, em termos de instrumentação, é englobado aqui. Ao atingir o ápice, há algo muito triste que a faz flutuar para baixo, enquanto um último verso é cantado antes de encerrar. Por fim, “.5: The Gray Chapter” é um álbum extremamente coerente que irá agradar aos fãs que esperaram tanto por um novo trabalho da banda.

O sequenciamento das canções garantem uma boa escuta, a escrita é potente, as letras variam entre simples e emocionais, sinistras e enigmáticas e os novos membros se encaixaram no grupo perfeitamente. A banda tem caracterizado o disco como um cruzamento entre o “Iowa” e “Vol.3: (The Subliminal Verses)”, pelo menos em termos de abordagem musical. Ele contém efetivamente tanto a agressão crua do primeiro, como o alcance artístico do segundo citado. Mas isso não quer dizer que eles permaneceram o tempo todo em sua zona de conforto, porque demonstraram uma vontade encorajadora para expandir ainda mais o som da banda. É inegavelmente um material sincero e apropriadamente entregue, vindo de um extenso período de luto desde a morte de Gray. Felizmente, a partir desse profundo poço de dor, nasceu outro grande disco do Slipknot. Por incrível que pareça, os membros não tentaram adoçar a sua perda, raiva ou tristeza com esse disco. As emoções transmitidas com suas músicas continuam absolutamente reais e cruas. Eles mostraram que podem continuar em frente, mesmo depos da morte de um dos seus fundadores, algo que aparentemente alguns deles não tinham certeza até alguns anos atrás. A produção é um ponto alto desse registro e para resumir tudo, ressalto que “.5: The Gray Chapter” conseguiu manter a assinatura sonora clássica do Slipknot e, como um todo, é sólido o suficiente para destacar-se dentro da incrível discografia da banda.

75

Favorite Tracks: “AOV”, “The Devil In I”, “Killpop”, “Goodbye”, “Custer” e “The Negative One”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.