Resenha: Sinéad O’Connor – I’m Not Bossy, I’m the Boss

Lançamento: 11/08/2014
Gênero: Rock
Gravadora: Nettwerk Music Group
Produtores: John Reynolds.

A irlandesa Sinéad O’Connor chegou à fama no final dos 1980 com seu álbum de estreia “The Lion and the Cobra” e, posteriormente, alcançou o sucesso mundial em 1990 com um novo arranjo da música “Nothing Compares 2 U” do Prince. A canção fez um enorme sucesso no mundo todo, com um videoclipe que tem sido descrito como icônico por diversos meios de comunicação. Sempre muito controversa, O’Connor é filha do engenheiro e advogado Sean O’Connor e de Marie O’Connor. É a terceira de cinco irmãos, Joseph O’Connor (escritor), Eimear, John, e Eoin. Sempre teve uma vida marcada por reveses que moldaram sua personalidade e lhe marcaram para sempre. Sofreu abusos na infância, já tentou suicídio e chegou a afirmar ser homossexual em meio a sua conturbada carreira. Mas o fato é que sempre destacou-se pela doce voz, além de ter a cabeça raspada como sua marca registrada por muitos anos.

Já foi casada quatro vezes, sendo seu primeiro marido o produtor musical e baterista John Reynolds. Teve quatro filhos (três meninos e uma garota) sendo cada um de pais diferentes. Durante o seu auge gerou muita polêmica por rasgar uma foto do Papa João Paulo II durante o Saturday Night Live, em protesto aos abusos sexuais cometidos por membros da Igreja Católica. Em 2013 também gerou polêmica ao escrever uma carta aberta para Miley Cyrus, onde dizia para ela não se deixar prostituir pela indústria da música. “I’m Not Bossy, I’m the Boss” é o seu décimo álbum de estúdio, totalmente escrito por ela e lançado em 11 de agosto de 2014 através da Nettwerk Music Group. É um álbum muito emotivo e talvez o mais acessível da cantora em anos. É um trabalho em conformidade com a imagem que temos de O’Connor, sendo estridente e desafiador. A seqüência de faixas do álbum consegue criar uma história coerente, ao passo que podemos perceber que é um disco musicalmente aventureiro, liricamente mais ambicioso e um pouco mais auto-consciente que seu antecessor.

Seu vocal continua com a mesma gama expressiva de sempre, enquanto ainda consegue expressar suas mais complexas emoções. No geral, o álbum joga com histórias contadas a partir da perspectiva de uma mulher que apenas está realizando seus próprios desejos sexuais. E logo na abertura já temos, sonoramente, uma das melhores faixas: “How About I Be Me” (que leva o título do seu álbum de 2012). Uma música pop-rock introduzida por um piano introspectivo, impulsionada por uma progressão de acordes melancólicos, bons arranjos, mas que explora o amor e o romance de um ponto de vista um pouco contraditório. No álbum também temos blues, mas abertamente na ótima faixa “Dense Water Deeper Down”. Uma música que transborda com alegres reflexões românticas e onde a cantora justifica sua atração pelo tipo de homem que sua mãe advertiu-lhe sobre.

Sinéad OConnor

O blues rock continua na faixa seguinte, “Kisses Like Mine”, onde além das guitarras e loops de bateria, ainda tem uma banda de acompanhamento completa. Aqui, ela adota um modo lúdico e uma voz mais pessoal, como ouvimos no verso: “See, I’m special forces / They call me in after divorces”. Já a mid-tempo “Your Green Jacket” é uma canção mais pop, saltitante e decorada com sutis floreios eletrônicos. Nessa canção ouvimos uma mulher fazendo amor com um objeto inanimado, mas não no sentido sexual. Ela enterra-se na roupa do seu namorado para sentir-se mais próxima dele, transparecendo uma verdadeira e profunda demonstração de saudade. “Eu te amo mais do que eu já amei um homem e sou tímida”, ela canta em “The Vishnu Room”. “Eu quero fazer amor com você mais do que eu sempre quis”.

Uma canção sonoramente mais calma com letras interessantes que continuam suas meditações sobre temas amorosos e sensuais. Seu vocal no blues-rock “The Voice of My Doctor” está incrivelmente forte e triunfante, combinando assim perfeitamente com as guitarras mais pesadas. Violentamente O’Connor abala suas ilusões e introduz duras consequências para amar tão intensamente. Os licks farpados de guitarra ecoam efetivamente a indignação da letra da música. A sua entrega apaixonada consegue elevar as suas melodias e rimas previsíveis. A primeira balada do álbum chama-se “Harbour”, que começa bem suave e escura, praticamente uma canção de ninar, e depois entrega um final estridente e auto-confiante. É um pop no mais fascinante estilo de Sinéad O’Connor.

Sinéad OConnor

Liricamente, é uma narrativa em terceira pessoa sobre uma mulher sem um pai protetor, que por conta disso é levada a fazer escolhas erradas nos relacionamentos amorosos. No pop-funky “James Brown”, a cantora conta com o auxílio do saxofonista de afrobeat Seun Kuti. É certamente a música mais agradável e divertida de se ouvir no registro. Mesmo sua voz assumindo um tom mais profundo, continua a ser imediatamente reconhecível. Em “8 Good Reasons” ela desliza de um sutil sussurro para um rugido desafiante, mostrando como ela trilhou sua história contra a indústria que tanto lhe deu fama. “Você sabe que eu amo fazer música / Mas a minha cabeça foi destruído pelo negócio / Todos querem alguma coisa de mim / Eles raramente quero apenas me conhecer”, ela canta com bastante honestidade e uma introspecção reflexiva. Sem dúvida é uma das minhas canções favoritas presentes nesse disco.

“Oh, me leve para a igreja / eu fiz tantos / Coisas ruins que dói”, ela canta no primeiro single “Take Me to Church”. Uma música redentora, equilibrada com o seu brilho rock, estranhamente exuberante e tingida de gospel. Aqui, a antiga raiva de O’Connor toma conta, ampliando o drama da letra sobre uma batida pulsante. Em outra ocasião, como na faixa “Where Have You Been?”, ela sente-se mais esclarecida: “Eu vi a escuridão onde eu deveria ter visto a luz / E não foi a bela escuridão da noite”. Abrindo com uma guitarra ressonante, é outra faixa sonoramente muito agradável e diversificada, explorando o lado mais alegre da voz de O’Connor. Fechando o álbum, a balada no piano “Streetcars” dá espaço para focar ainda mais nos vocais da cantora.

Com certeza, uma das mais delicadas canções de Sinéad nos últimos anos, que permitiu destacar a dinâmica e os atributos marcantes de sua voz. À primeira vista, as canções aqui são muito vibrantes e multifacetadas. esta versão segura e confiante de si mesma aparentemente foi um bom retorno. O produtor de longa data e ex-marido, John Reynolds, ainda está no comando, e desta vez ele trouxe uma aceno mais rock para a maioria das músicas. Os efeitos vocais em camadas em cima de sua voz singular e distintiva, cria uma espécie de marca registrada que é, inegavelmente, uma união de força bruta e fragilidade. Liricamente, o registro é puramente Sinéad O’Connor, alternando entre o vulnerável e vingativo, às vezes até dentro da mesma canção. Ela dá um passo tão plenamente em cada música que a emoção em sua voz parece mais real do que talvez deveria.

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Favorite Tracks: “How About I Be Me”, “James Brown (feat. Seun Kuti)”, “8 Good Reasons”, “Take Me to Church” e “Where Have You Been?”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.