Resenha: Shura – Nothing’s Real

Lançamento: 08/07/2016
Gênero: Eletropop, Synthpop, R&B Alternativo, New Wave
Gravadora: Polydor Records / Interscope Records
Produtores: Shura, Joel Pott, Greg Kurstin e Al Shux.

Alexandra Lilah Denton, mais conhecida por Shura, é uma cantora, compositora e produtora inglesa de 25 anos. Lançado em 08 de julho de 2016, via Polydor Records e Interscope Records, “Nothing’s Real” é o seu primeiro álbum de estúdio. Musicalmente, é um disco eletropop e synthpop, com forte inspiração na música oitentista. Também apresenta uma mistura eclética de alguns gêneros, tais como R&B alternativo, glam-pop, new wave e até mesmo trip-hop. Ela não exagerou ao tentar misturar tantos gêneros diferentes, pois o álbum é uma coleção bem sucedida de vários projetos e experiências. Todas as faixas do álbum possuem alguma raíz fincada no passado, porém, com uma estética inegavelmente moderna. Shura produziu cada faixa do álbum ao lado de Joel Pott, Greg Kurstin e Al Shux, e provou ser muito hábil durante seu desempenho.

Cada canção é perfeitamente equilibrada com a quantidade certa de batidas e instrumentos elétricos. A escrita de “Nothing’s Real” também é incrível, pois também foi tratada principalmente por Shura. Cada uma das 13 músicas possuem algum momento de destaque no lirismo. A cantora fala, principalmente, sobre seus relacionamentos tumultuados e consegue brilhar através da escrita. Cada música é lindamente equilibrada, animada e sincera, abordando alguns aspectos de sua vida no passado. Todo o disco transmite uma sensação de paz, felicidade e saudade ao mesmo tempo. É um material intensamente contemplativo, pois é fácil encontrar consolo em suas belas letras e melodias. Ela tem um calor familiar em sua voz que transmite muita honestidade e simplicidade. Alexandra colocou todo o seu talento na produção e escrita, para nos presentear com um excelente álbum de estréia.

Inicialmente, Shura ganhou os holofotes em 2014 com o single “Touch”, sua primeira música concluída. Um simples sintetizador como pano de fundo e ótimos arranjos foram suficientes para despertar a atenção. O sucesso inicial de “Touch” é a prova genuína de suas habilidades como compositora e, sua decisão de incluí-la no álbum, foi muito inteligente. “Touch” mostra um lado de sua musicalidade ao transformar-se em uma verdadeira slow-jam R&B. Ela mostra flexibilidade nos seus vocais com facilidade e expressa notas discretas e quase sussurradas. “Ainda há amor entre nós / Mas algo mudou e eu não sei porquê”, ela canta aqui. Seu talento como escrita vem através de uma simplicidade muito refinada durante o refrão. Devemos mencionar também o nome de Joel Pott, seu parceiro de produção na maioria das canções do álbum.

Shura

Como uma dupla, eles mostram grandes habilidades, seja na criação dos arranjos ou camadas de muitos dos estilos do álbum. O registro foi criado em torno desse single, mas no geral, é uma coleção muito diversificada e madura. Shura já havia manifestado sua admiração por Madonna e Janet Jackson, consequentemente, suas influências são sentidas em todo o registro. Na introdução “(I)” e no interlúdio “(II)”, Shura aparentemente mostra algumas gravações caseiras de si mesma. A partir dessa introdução, com apenas 1:30 de duração, ela apresenta uma natureza minimalista e ambiente que nos transporta para um estado de sonhos. De certa maneira, foi a forma como Shura encontrou para antecipar o impacto de todo o álbum. A faixa-título, “Nothing’s Real”, mostra que, enquanto ela sustenta um charme imediato, há uma confiança transparecendo por todos os lados. Essa faixa possui um som totalmente reminiscente da Madonna no final dos anos 1980.

Todos os elementos melódicos, a partir da linha de baixo, o tom de voz e o fraseado da melodia vocal, apontam para a Madonna de “Like a Prayer” e “True Blue”. Embora os elementos utilizados na produção sejam mais modernos, tudo passa essa sensação. As influências retrô são percebidas no sintetizador, estilo vocal, batidas borbulhantes, nítida guitarra e harmonias. Sete das treze canções do disco já haviam sido divulgadas antes do lançamento oficial. Porém, se você achava que sabia exatamente o que esperar do repertório, vai notar um caminho bem diferente a partir da adição de algumas músicas impressionantes. Liricamente, o álbum gira em torno da busca de Shura por amor. Na gloriosa “What’s It Gonna Be?”, ela está praticamente pedindo para alguém dar o próximo passo. É uma fatia de euforia pura, uma música com influências fincadas nas trilhas sonora dos anos 1980.

Apesar da execução mais contemporânea, possui um avaria nostálgica e um refrão pesado. Novamente, a comparação com Madonna seria oportuna, mas seus vocais também nos fazem lembrar da Robyn. “What’s It Gonna Be?” é entusiasmada e flui de forma energética, através de fortes palmas, batidas de tambores e ótimos sintetizadores. Canções como “Kidz ‘N’ Stuff” e “2Shy” revelam o lado romântico do registro. Suas letras sobre luxúria, desejos e promessas entre casais, poderiam facilmente estar na trilha sonora de algum filme de romance dos anos 80. Em “2Shy”, por exemplo, ela admite que é muito tímida para fazer qualquer coisa. Tudo é entregue com uma simplicidade comovente e resulta em sentimentos universais. A partir de “Kidz ‘N’ Stuff”, o álbum flui sem grandes esforços e qualquer alteração sonora que possa soar chocante.

Shura

As mesmas influências eletrônicas da faixa-título são ouvidas em faixas como “Indecision” e “White Lights”. Embora sejam a sexta e décima segunda faixa, respectivamente, ambas apresentam um som estritamente fundamentado na faixa-título. A única diferença é que “Nothing’s Real” fornece um sentido mais sombrio e emocional nas harmonias e melodia. “Indecision”, em especial, também acena para o R&B e dance que atingiu o seu pico na década de 90. “White Lights”, por outro lado, vai ainda mais longe e volta para o disco dos anos 70. Você vai viajar durante dez minutos por “White Lights”, um tempo extremamente longo para qualquer música. O ouvinte pode querer desistir em sua metade, porém, a dinâmica dos vocais e a diversidade eletrônica explorada aqui é muito cativante. Além disso, ela conclui com uma faixa escondida, intitulada “311215”, onde uma mãe não está satisfeita depois de recuperar o tabagismo.

Referências estilizadas em guitarras oitentistas aparecem fortemente na introdução da cativante “What Happened to Us?”. No entanto, o que a torna singular, são as camadas de nostalgia que Shura incrementa em sua textura, a fim de evitar qualquer clichê. “Tongue Tied”, por sua vez, experimenta um pouco da vibração EDM, em um desempenho down-tempo. Aqui, os instrumentos são mais orientados para o pop, com guitarras introduzindo o ritmo e melodia, em vez de depender de sintetizadores processados. Em contraste com outras faixas do álbum, essa canção ainda possui um lado funky e disco no baixo. É uma pista estável, embora suas brilhantes harmonias sejam seu maior trunfo. Há também algo sonoramente inglês no álbum, intitulado “Make It Up”. Essa música é deslumbrante, mágica e soa como algo utilizado em trilha sonora de filmes adolescentes de verão.

Apesar da criatividade apresentada em “The Space Tapes”, ela não se encaixa com o resto do álbum. Essa canção possui mais de 9 minutos de duração e é, basicamente, um trip-hop e um mix de ideias musicais inacabadas. Sem dúvida, “Nothing’s Real” vai além de qualquer expectativa que poderíamos ter para um álbum de estreia. É um disco que está acima do que é normalmente esperado para um registro synthpop. Esse projeto é a prova de que Shura esculpiu um nome para si mesma em um mercado já saturado. Em “Nothing’s Real” ela não buscou inspiração na década de 1980, ela simplesmente a reviveu. Shura expandiu seus horizontes e som precoce, e saiu de sua zona de conforto, sem abandonar suas raízes. Romântico, divertido e encantador, esse álbum é tantas coisas, porém, acima de tudo, é praticamente impecável.

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Favorite Tracks: “Nothing’s Real”, “What’s It Gonna Be?”, “Touch”, “Indecision” e “What Happened to Us?”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.