Resenha: Shakira – El Dorado

Lançamento: 26/05/2017
Gênero: Pop, Pop Latino, Reggaeton
Gravadora: Sony Music Latin
Produtores: Shakira, Supa Dups, Luis Fernando Ochoa, Rude Boyz, The Arcade e Afo Verde.

Já se passaram 26 anos desde que Shakira lançou o seu primeiro disco, “Magia” (1991). Durante a primeira década de sua carreira, ela apresentou perspectivas musicais distintas vindas da América Latina. Com esse som distinto e beleza latina, ela rapidamente se tornou uma das artistas mais singulares e cativantes do mundo. Mas ninguém esperava que ela fosse atingir um sucesso global na década seguinte, com o seu primeiro disco em inglês, “Laundry Service” (2001). “Whenever, Wherever” e “Hips Don’t Lie”, são algumas de suas canções mais conhecidas. Aqui, os seus vocais estão massivamente distintos e os movimentos dançantes fantasticamente executados. Foram canções como essas que transformaram Shakira num ícone pop global. E é sempre bom quando um ícone decide retornar a cena musical, principalmente se esse ícone é uma grande estrela mundial como Shakira. O 11º álbum de estúdio da colombiana, intitulado “El Dorado”, é um retorno generoso para suas raízes latinas.

Uma decisão e movimento muito inteligentes. Shakira já mostrou algumas vezes que consegue entregar canções pop padrão. Mas os seus melhores trabalhos sempre foram mais impressionantes quando ela resolve inclinar-se para batidas latinas e voz mais acentuada. Com os seus tons vocais cativantes e ritmos icônicos no quadril, Shakira nunca criou algum álbum decepcionante. Consequentemente, “El Dorado” é outro trabalho da colombiana que não decepciona. Aliás, esse álbum parece uma verdadeira carta de amor à Colômbia e América Latina. O título, por sinal, refere-se à uma cidade perdida da Colômbia, cheia de mistério e encantamento. Com 13 faixas no total, “El Dorado” é predominantemente cantado em espanhol, com apenas quatro faixas em inglês e uma em francês. Às vezes, os seus álbuns em espanhol costumam ser subestimados. Mas na verdade, o trabalho geral aqui é muito mais complexo e estruturado do que parece.

Enquanto Shakira sempre foi conhecida por suas fortes habilidades vocais, algumas faixas do repertório ilustram o quão bem a sua voz amadureceu ao longo dos anos. A promoção do “El Dorado” começou antes mesmo da gente perceber, quando Shakira juntou-se com Carlos Vives no single “La Bicicleta”. Além de Vives, o álbum traz outras colaborações interessantes, incluindo Prince Royce, Nicky Jam e Maluma. No geral, “El Dorado” é um disco peculiar, brincalhão e incrivelmente cativante. Predominantemente cantado em espanhol, ele não deixa de tocar em outras linguagens. É um projeto que mostra exatamente por que Shakira é um nome internacional tão grande. A primeira faixa e segundo single do álbum, “Me Enamoré”, conta a história de quando Shakira conheceu e se apaixonou por seu marido, o jogador Gerard Piqué. Ela o conheceu quando gravou o clipe de “Waka Waka (This Time for Africa)”, tema oficial da Copa do Mundo de 2010.

“Me Enamoré” fornece sons eletrônicas e raízes latinas de uma maneira bem forte, uma música que te faz dançar seja onde for. É uma canção muito cativante, seja pelas letras ou melodias bem executadas. Um número pop e reggaeton cantado sem esforço sobre uma batida sutil e eficaz. Os dedilhados de guitarra conduzem a música, conforme a percussão latina e batida sintetizada permitem que a melodia evolua gradualmente. “Olha que coisa linda / Que boca mais redondinha / Adoro essa barbinha”, ela canta de forma carinhosa e apaixonada. Os bons vocais da cantora continuam em “Nada”, segunda faixa do repertório. Uma clássica balada de Shakira, com um refrão que sobe fortemente para novas alturas. Ela possui um equilíbrio notável, instrumentação bem organizada e um expressiva performance vocal. Sua produção é composta por um poderoso piano e uma bateria que nos remete aos anos 80.

“Chantaje”, que foi lançada como single de retorno de Shakira, irradia muita sedução. Um destaque definitivo do álbum, em colaboração com o também colombiano Maluma. Em si, “Chantaje” é uma música pop e reggaeton com uma batida rítmica viciante, leves sintetizadores tropicais e uma boa combinação de vocais masculinos e femininos. A sua musicalidade reggaeton é muito atrativa e consegue prender a atenção do ouvinte com facilidade. “Chantaje” é uma canção realmente viciante, sexy e irresistivelmente sensual. Desde o vocal acentuado de Shakira até os efeitos autotunados na voz de Maluma, são um verdadeiro deleite para os nossos ouvidos. A quarta faixa, “When a Woman”, fornece um som modernizado e dinâmico, e escrita adicional de Julia Michaels e Justin Tranter. A intensidade da voz de Shakira, piano sutil e os constantes ganchos dão uma natureza mais contemporânea para o álbum.

Enquanto isso, as batida repetitivas nos remetem à mesma energia de “She Wolf”, single homônimo de 2009. Liricamente, Shakira oferece um emponderamento feminino, falando o que uma mulher é capaz de fazer quando se está apaixonada. “Amarillo”, por outro lado, é bastante simples se comparada com a maior parte do álbum. É outra canção adorável onde Shakira canaliza mais de suas raízes latinas. Ademais, ela possui delicadas vibrações indie-pop que, por alguns momentos, nos remetem aos dias de “Pies Descalzos” (1995). Ela faz uma mistura encantadora de riffs de guitarra, bateria penetrante, sintetizadores eletrônicos e vocais requintados. Mas, sem dúvida, um dos melhores números do álbum é “Perro Fiel” com Nicky Jam (outro cantor muito conhecido dentro do gênero reggaeton). Uma canção excepcionalmente infecciosa, com tambores adequados, uma perfeita batida staccato e refrão viciante.

Além dos ótimos vocais de Shakira, Nicky Jam traz novos e divertidos elementos para a música. Na sequência, Shakira se aventura por um território mais moderno em “Trap”, outra colaboração com Maluma. Novamente, o cantor fornece vocais autotunados e raspados que se harmonizam belamente com Shakira. Embora não seja tão cativante quanto “Chantaje”, esta música também possui excelentes batidas de hip-hop. Além disso, contém um maravilhoso solo de guitarra elétrica no seu instrumental. O solo de guitarra realmente adiciona algo especial à música e proporciona uma mudança bem-vinda para o álbum. “Comme Moi” é uma das faixas mais versáteis do repertório, pois faz uma mistura de reggaeton, batidas tropicais e letras em francês. Entretanto, enquanto existe alguma química entre Shakira e Black M, é uma canção um pouco confusa e entediante. Além disso, ainda possui uma versão desnecessária em inglês intitulada “What We Said”, com o grupo MAGIC!.

Apesar do gancho cativante de Shakira, para mim, “Comme Moi” é a única faixa decepcionante do registro. Exalando uma abordagem mais calma, a próxima faixa, “Coconut Tree”, explora um som tropical que te faz viajar. É uma canção simples que, embora não seja memorável, proporciona uma escuta decente. A voz de Shakira não soa tão rica e convidativa como de costume, mas, por outro lado, se mostra mais sombria e reflexiva. O hit “La Bicicleta”, com Carlos Vives, é uma das canções mais fortes do álbum. É uma música autêntica, poderosa, artística e cheia de cultura. Uma oferta mais tradicional com instrumentação ao vivo, incluindo o uso de acordeões e instrumentos de sopro. Ela faz uma mistura de vários gêneros musicais, como reggaeton, pop, vallenato e cumbia. Além disso, também é possível encontrar elementos de dancehall em alguns pontos. Liricamente, é uma música nostálgica que descreve um passeio da dupla de bicicleta por lugares de sua infância.

Ambos cantam sobre a região onde nasceram e invocam imagens de lugares como Barranquilla, Parque Nacional de Tayrona e Santa Marta (Colômbia). Nas letras, Shakira chega a mencionar o seu marido, cantando: “Me leve, me leve em sua bicicleta / Ouça-me, Carlos, me leve em sua bicicleta / E se algum dia você mostrar Tayrona a Piqué / Ele depois não vai querer ir para Barcelona”. Outra faixa de destaque é a sua colaboração com Prince Royce em “Déjà Vu”. Uma canção bachata, otimista e divertida com uma melodia e batida extremamente hipnotizantes. O tom vocal de ambos combinaram incrivelmente bem, e criou uma beleza musical que soa bastante natural. A suave balada “Toneladas”, com belos acordes de piano, encerra o álbum. Uma canção de amor incondicional e elegante em todos os sentidos. É uma música vulnerável e emocional, onde podemos apreciar plenamente os vocais majestosos de Shakira.

Embora haja erros de execução ocasionais, “El Dorado” é um álbum que te leva a novos lugares. Ele está encharcado de romance, sensualidade, emoções brutas e uma extravagância musical. O canto em espanhol realmente adiciona uma sensação de autenticidade ao repertório. Shakira conseguiu acompanhar as tendências do mercado latino, mas mantendo-se fiel ao seu estilo reconhecível. Ela abraçou completamente as suas raízes, vibrações dançantes e natureza musical genuína. Apesar de todas as músicas serem tecnicamente diferentes, Shakira as interpreta sem rodeios. “El Dorado” combina perfeitamente reggaeton, pop, eletrônica, baladas e bachata, enquanto faz um dos seus trabalhos mais originais. A mistura de gêneros é o que mantém as coisas frescas o tempo todo. E, como esperado, Shakira fez tudo isso de forma sensual, familiar e de qualidade. Ouça “El Dorado” e curta um conjunto saboroso de música latina, que só Shakira sabe fazer com maestria.

Favorite Tracks: “Chantaje (feat. Maluma)”, “Perro Fiel (feat. Nicky Jam)” e “La Bicicleta (feat. Carlos Vives)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.