Resenha: Selena Gomez – Revival

Lançamento: 09/10/2015
Gênero: Dancepop, Eletropop, R&B
Gravadora: Interscope Records / Polydor Records
Produtores: Selena Gomez, Danny D, Tim Blacksmith, Rock Mafia, Hit-Boy, Dubkiller, Benny Blanco, R3drum, Mattman & Robin, Max Martin, Stargate, Dreamlab, Nick Monson, Nolan Lambroza, A$AP Rocky, Delgado, Chris Braide, Steve Mac, Shane Stevens, Julia Michaels, Benjamin Rice, Felix Snow, Frank Dukes, Donkeyboy e Miles Walker.

“Revival” é o segundo álbum de estúdio solo de Selena Gomez, lançado em 09 de outubro de 2015 através da Interscope Records. A cantora começou a planejar o disco em 2014, momento em que ela deixou sua antiga gravadora Hollywood Records. Como um dos produtores executivos, Gomez colaborou com Hit-Boy, Rock Mafia, Stargate e Max Martin para atingir o som desejado. Seu esforço resultou em um álbum essencialmente pop, com elementos de dance-pop, eletro-pop e R&B, interligados com um som tropical e letras que falam sobre amor e confiança. O conteúdo lírico possui uma repetição inegável encontrada tão comumente na música pop, mas, ainda assim, é divertido e honesto. Para efeito de curiosidade, o registro estreou em #1 na Billboard americana, ao vender mais de 85 mil cópias na primeira semana. Em 2015, Selena Gomez começou rapidamente surpreendendo a todos quando liberou o single “Good for You” com o rapper A$AP Rocky. Os vocais suaves e sensuais intercalados com uma batida urbana, era algo que a cantora nunca havia experimentado. Com essa música, ela pareceu encontrar um estilo perfeitamente adequado à sua voz. Após muitos anos no centro das atenções como uma estrela da Disney, a cantora parecia estar em uma encruzilhada. Com quatro álbuns de estúdio em seu nome, três deles ao lado da banda The Scene, Gomez precisava mostrar que poderia evoluir musicalmente.

Os seus antigos álbuns possuiam ocasionais boas faixas pop, porém, também traziam uma certa falta de identidade. Com o “Revival”, Selena Gomez provou que pode amadurecer e crescer como artista e, por esse mesmo motivo, é o seu álbum mais pessoal e coeso até presente data. Usando o mesmo roteiro seguido por Christina Aguilera no icônico álbum “Stripped” (2002), Selena Gomez, em grande parte, foi bem sucedida em sua missão. Ela artisticamente articulou sua sexualidade e maturidade recém-descoberta para entregar o seu melhor trabalho como cantora. “Revival”, sem dúvida, foi uma boa escolha para título, pois esse álbum serviu como um renascimento para ela. E, obviamente, a faixa-título é a canção que define não só o álbum, como também o atual momento da vida de Selena Gomez. A letra descreve como ela superou algumas dificuldades e o caminho que perseguiu para se tornar uma pessoa mais forte e confiante. “Mais do que apenas sobreviver / Este é o meu renascimento”, Selena afirma com confiança durante o refrão. Com estas palavras, ela define a vibração para o restante do registro. E, assim, Gomez procura trazer seus leais ouvintes junto com ela neste caminho de re-descoberta. Ela define o tom do álbum, conforme canta: “Eu renasço a cada momento / Então, quem sabe o que me tornarei (…) / Eu passei por uma restauração própria / Eu me tornei minha própria salvação”.

Com esta declaração de mergulhar no desconhecido, a cantora começa a revelar mais sobre quem ela é por trás de todo o brilho da fama. “Revival” a pinta como uma mulher real que, como todas as outras, experimenta os altos e baixos da vida. Esta simplista canção dance-pop, com elementos de R&B, consegue dar uma sensação de evolução. Seu principal motor é um rígido tambor rítmico, além de um clima extremamente diferente e futurista. O tambor parece ter sido concebido para complementar sua voz e as letras, mas, em alguns momentos, chama mais atenção que as mesmas. “O mundo pode ser um lugar horrível / Você sabe, eu sei, é / Nós não temos que cair em desgraça / Abaixe as armas com as quais você luta”, ela canta na linha de abertura da faixa “Kill Em with Kindness”. Esta canção descreve que mesmo existindo crueldade no mundo, as pessoas precisam ser bondosas e gentis. Sonoramente, é uma música bastante cativante e divertida, especialmente, por causa da grudenta melodia dos assobios no fundo. Possui uma boa produção, encomendada por Benny Blanco, Rock Mafia e R3drum, e um som limpo e transparente. Sua batida disco, emparelhada com a guitarra e o baixo sintetizado, também lhe dão uma ótima vibração. No geral, é uma pista sólida, catchy e com uma mensagem positiva. “Hands to Myself” é, provavelmente, uma das faixas mais agradáveis e uma das minhas favoritas do álbum.

Uma canção definitivamente refrescante e sedutora, onde os vocais sussurrantes de Selena Gomez foram misturados com perfeição à produção. Os vocais são um sussurro abafado durante a maior parte da música, e isso agarra instantaneamente a atenção do ouvinte. Produzida por Max Martin, “Hands to Myself” é, musicalmente, um dance-pop e synthpop constituído por uma guitarra, baixo, palmas, tambor e sintetizadores. Aqui, Selena Gomez usa tanto seu maior registro vocal, como também o seu mais inferior, caracterizado muitas vezes apenas por um sussurro. A canção começa discretamente dentro de um panorama minimalista e com uma batida escassa. Essa mesma batida, mais tarde, trabalha ao lado do sinistro riff de guitarra. No pré-refrão, a faixa começa a exalar um som tribal, com sintetizadores e piano se tornando cada vez mais fortes. Aqui, ela canta: “Entre todas as dúvidas e explosões / Continuamos fazendo amor / E estou tentando, tentando, tentando mas eu”. No refrão, a pista também apresenta ofegantes vocais de fundo cantados por Julia Michaels (uma das co-escritoras). Selena Gomez, por sua vez, canta irresistivelmente uma sequência de sílabas consecutivas: “Can’t-keep-my-hands-to-myself / My hands to myself / Can’t-keep-my-hands-to-myself / My hands to myself”.

Selena Gomez

Liricamente, “Hands to Myself” fala sobre encontrar o amor através de diferentes situações. Selena Gomez demonstra, tipicamente, seu desejo sexual através de narrativas que abrem variados tipos de interpretações. Similar a “Good for You”, essa canção acaba por mostrar um lado mais maduro e sensual de Selena. Porém, mantendo-se em sintonia com a sua inocente e ingênua personalidade. A faixa seguinte é o segundo single “Same Old Love”, canção escrita por Charli XCX, Ross Golan, Benny Blanco e pela equipe de produção Stargate. Musicalmente, é uma faixa eletropop mid-tempo, com uma letra que, aparentemente, descreve um antigo relacionamento conturbado. Também apresenta, sem créditos, vocais de fundo de Charli XCX e ainda influências de trap e jazz. “Same Old Love” começa com um arranjo de piano simples e estalar de dedos, com alguns sintetizadores e bateria sendo adicionais mais tarde no refrão. Essa música provavelmente tem um dos melhores instrumentais do catálogo de Selena Gomez. É simples e diferente de tudo que ela já fez, mas ainda assim cativante. Isso também acaba dando espaço suficiente para os ótimos vocais fornecidos pela cantora. Como mencionado, a faixa foi co-escrita e possui vocais adicionais de Charli XCX, por este motivo, “Same Old Love” também soa como uma música da própria britânica.

Não só a produção é semelhante a algo que Charli XCX faria, mas também os vocais de Selena Gomez basicamente soam como ela na maior parte da canção. O fato de XCX estar presente no refrão, como voz de fundo, faz essa impressão soar ainda mais forte. Mas de qualquer maneira, a faixa nos dá um pop centrado, com um ritmo alegre e um piano jazzístico saltitante. Em seu conteúdo lírico, Selena canaliza toda a sua raiva e canta sobre estar doente por um “velho amor”. Algumas das letras são: “Estou cansada desse mesmo antigo amor / Essa merda me deixa arrasada / Meu corpo já cansou”. A letra é boa e apresenta algumas linhas realmente bacanas, que funcionaram bem em conjunto com o ritmo e melodia. No refrão um sintetizador descontraído é colocado na mistura e cria uma vibe que contrasta bem com a performance vocal polida de Selena e Charli. Um dos poucos problemas detectados em “Same Old Love” é a sua extrema repetição, que acaba deixando a música muito cheia e sobrecarregada. Com um instrumental tão bom como este, o artista precisa ter uma boa melodia para suportá-lo e não ser facilmente ofuscada. Portanto, é um tipo de música que você precisa escutar várias vezes para ela crescer em você. Em suma, assim como “Good for You”, “Same Old Love” não é uma faixa óbvia e é outra boa introdução para seu novo álbum.

É uma surpresa artisticamente agradável, exemplificada especialmente por seu atraente registro vocal mais baixo. “Sober”, quinta faixa, é um verdadeiro hino e uma das canções mais honestas que Selena Gomez já apresentou. Graças a sua honestidade e arranjo musical atraente, essa se torna, certamente, uma das faixas mais fortes do álbum. Liricamente, ela fala acerca de um constrangimento social do qual uma pessoa não sabe amar, a menos que esteja alcoolizada (“Você não sabe como me amar quando você está sóbrio”). De acordo com Gomez, a inspiração para a letra veio depois que ela e uma das escritoras da canção, Chloe Angelides, falaram sobre inaptidão social. “Sober” é devastadora e cativante em todos os sentidos, seja por sua letra ou pela excelente produção de Stargate. Em outras palavras, é um dance-pop no seu melhor. Uma faixa que consegue dar calafrios na espinha, principalmente, por causa da maravilhosa e contundente batida de tambor. Enquanto seu tema é bastante emocional, “Sober” ainda dispõe de uma melodia atraente, um refrão significativo e um tom de melancolia subjacente. E, para finalizar, as últimas linhas cantadas por Selena Gomez são ainda mais arrepiantes: “Você tem poder sobre mim / Você é como um sonho desperdiçado / Eu te dei tudo / Mas você não sabe como me amar quando está sóbrio”. Eu vejo facilmente essa canção tornando-se single e, sem dúvida, seria uma escolha muito viável.

Outra faixa de grande contraste no repertório é o primeiro single “Good for You”, em colaboração com A$AP Rocky. Essa música, notavelmente, mostra um amadurecimento artístico de Gomez, com ela explorando uma nova direção musical e colaborando pela primeira vez com um rapper. Ela também esteve envolvida com o processo criativo da faixa, onde tentou desenvolver uma representação de sua auto-realização, confiança como uma jovem mulher e exploração de sentimentos de vulnerabilidade. Musicalmente, “Good for YoU” é uma canção pop e R&B, construída lentamente, com um ofegante vocal e batidas de hip-hop. A produção é suave e tem uma atmosfera completamente hipnótica. Ela começa com um instrumental escuro e misterioso, e segue com uma melodia sinuosa, ao passo que os vocais sussurrados de Selena são o foco principal durante algumas linhas. Conforme chega no refrão o ritmo cresce e ela canta sobre querer ficar bonita para seu garoto (“Pois eu só quero ficar bonita para você, bonita para você / Querido, deixa eu te fazer bem, te fazer bem”). A canção cai em um ambiente bastante sensual, na mesma medida que suas letras possuem insinuações sexuais e nos mostra um lado sexy e mais crescido de Selena Gomez. Uma direção bem diferente dos seus trabalhos anteriores.

Selena Gomez

Ela voltou ao cenário musical no final de 2014 apresentando uma canção pessoal e honesta, intitulada “The Heart Wants What It Wants”. Uma faixa mid-tempo pop, que deu ao mundo um vislumbre sobre o fim do seu relacionamento com Justin Bieber e marcou uma mudança no seu som pop adolescente. Em 2015 ela manteve um crescimento ao fazer um intervalo nas batidas eletrônicas pulsantes para oferecer algo mais sensual e com experimentação de elementos de R&B. A$AP Rocky, que também dispõe sobre a faixa, empresta seu fluxo e trabalha para manter o constante ritmo de “Good for You”. Ele fornece um rap complementar e sólido, dizendo a cantora como ele aprecia o jeito dela. Canções como essa e “The Heart Wants What It Wants” realmente destacam o vocal de Selena Gomez, que apesar de limitado, é agradável. Liricamente, essa música é um novo terreno para a jovem cantora, que nos mostrou um lado mais maduro de sua música. As letras sobre seduzir alguém, definitivamente, marcam uma nova fase em sua carreira. “Revival” decai ligeiramente em sua segunda metade, conforme não temos a natureza mid-tempo consistente encontrada nas ótimas primeiras faixas. Enquanto nenhuma canção é particularmente ruim, também não temos nada particularmente grande. Depois de alguns anos, Selena Gomez finalmente lançou outra balada de piano. Essa é intitulada “Camouflage”, uma faixa que aborda o fim de um relacionamento.

Provavelmente, é direcionada ao término de namoro com Justin Bieber. Aqui, ela abriga vocais que são igualmente emocionais como os das outras canções, mas em um estilo diferente que alarga o seu repertório vocal. O piano é a força motriz desta canção, algo que colaborou na construção de uma música honesta e vulnerável. É lenta, muito melódica e composta apenas das notas de piano e os vocais de Selena. Seu lento e sereno ritmo chega a emanar uma vibração semelhante a de uma canção de ninar. Como a única balada de piano do álbum, “Camouflage” realmente fornece uma abordagem de auto-consicente e belas letras a fim de descrever o fim de um relacionamento. O único single promocional do álbum foi a ótima “Me & the Rhythm”, lançada em 02 de outubro de 2015. Foi escrita por Gomez, juntamente com Julia Michaels, Justin Tranter e a equipe de produção Mattman & Robin, que também produziu a faixa. É uma canção dance, melódica e vintage, com batidas deep house e claras influências disco. A música chegou a ser comparada com algumas músicas de Donna Summer pelos críticos internacionais. Isso foi notado por conta das batidas inspiradas nos anos 1970. Em questão de ritmo, “Me & the Rhythm” cumpre muito bem o seu papel, algo construído através de um tambor de aço. Os vocais utilizados, por sua vez, também são bastante interessantes.

É, certamente, uma música madura, com letras como: “E todo mundo quer ser tocado / Todo mundo quer um pouco / Mas não toque uma música sobre amor / Quando eu mexer o meu corpo / Não preciso falar de ninguém”. Quem precisa de amor quando se tem um bom ritmo, basicamente, é isso que Selena Gomez quis transmitir. A nona faixa é “Survivors”, outra música dance em contraste com um som mais tropical. Essa representa tudo que o registro quer passar, uma faixa para todos que já superaram algo tediosamente ruim. “Eu ainda tenho a prova em forma de cicatrizes / A primeira vez sempre corta tão fundo / As feridas estão curando, se remendando duas vezes mais”, ela canta tentando mostrar que superou as dificuldades. O foco dessa canção é a batida que, por sinal, é muito interessante e convidativa. Por alguns momentos chega a dar impressão que a música foi gravada dentro da natureza, por conta do seu ambiente e instrumentação. A penúltima faixa, “Body Heat”, representa a herança hispânica de Selena Gomez através de algumas influências mexicanas. É uma canção bastante intensa, entretanto, me parece um pouco forçada e deslocada dentro do álbum. Após gozar de alguns acordes de guitarra espanhola em sua introdução, eu estava esperando que a música fosse um pouco mais cultural ou tradicional em seu som. No entanto, mais tarde, apresenta uma melodia confusa e transmite a sensação de que poderia ter sido muito melhor. O uso repetitivo de “give to me” no fundo, durante o refrão, também é um pouco irritante.

O uso de instrumentos de cordas latinos dão a essa música um enorme contraste, mas, mesmo assim, sua produção e letra não me convenceram. Liricamente, ela é apenas sobre sexo, onde Gomez canta sobre querer e precisar sentir o calor do corpo de determinado homem (“Tudo que preciso, eu só preciso do seu calor corporal / Bem perto de mim”). “Rise”, última faixa, por outro lado, é uma canção de emponderamento que incentiva a perseverança e determinação nos momentos difíceis (“Você pode achar a força que nunca achou que tinha / Você pode tirar fôlego de sua fé, não importa onde / Apenas feche seus olhos e mude sua vida”). Ela funciona bem como faixa de encerramento, por causa da mensagem edificante que parece aplicável à própria vida de Selena Gomez. “Rise” começa calma e lenta, porém, quando o refrão e os vocais de apoio aparecem, torna-se eletrizante e extravagante. Um efeito de som experimental e eletrônico, sons de percussão familiares, leve acordes de piano e uma batida sólida, ditam o ritmo da música. A sua mensagem geral é muito inspiradora, enquanto a parte falada durante a ponte funcionou melhor aqui do que na faixa-título. No geral, esse álbum sem dúvida, faz jus ao nome. Selena Gomez está começando a crescer em seu estilo e usou esse disco como forma de iniciar isso. Agora que ela encontrou um estilo adequado em algum lugar no meio do pop e R&B, ela deve tentar não cair de volta no território básico de seus registros anteriores. Apesar de alguns percalços, “Revival” é, portanto, uma introdução eficaz para essa nova fase na vida da cantora. É um álbum sólido que permitirá ela manter-se dentro do alto escalão da atual música pop.

70

Favorite Tracks: “Hands to Myself”, “Same Old Love”, “Sober”, “Good for You (feat. A$AP Rocky)” e “Me & the Rhythm”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.