Resenha: ScHoolboy Q – Blank Face LP

Lançamento: 08/07/2016
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: Top Dawg Entertainment / Interscope Records
Produtores: Anthony “Top Dawg” Tiffith, The Alchemist, Cardo, Cubeatz, Dem Jointz, DJ Dahi, Frank Dukes, J.LBS, Larrance Dopson, Metro Boomin, Nez & Rio, Sounwave, Southside, Swizz Beatz, Tae Beast, Tony Russell, Tyler, the Creator, Willie B e Yex.

Quincy Hanley, mais conhecido por ScHoolboy Q, lançou recentemente o álbum “Blank Face LP” e reafirmou a sua posição dominante no rap gangsta. Todo o álbum é um cenário do seu passado, retratado por um ponto de vista diferente e mais maduro que seus discos anteriores. ScHoolboy Q usou esse registro para falar sobre sua vida como ex-traficante e membro de gangue. É um material cheio de contradições, rimas impulsionadas por referências cômicas, batidas agressivas e sulcos descontraídos. São todos esse elementos que fazem deste projeto algo igualmente poderoso e sedutor. ScHoolboy Q é um rapper da Costa Oeste com um histórico de violência relacionado a gangues, que transforma o seu passado em música. A partir de sua voz áspera e batidas altamente variadas, “Blank Face LP” é simplesmente uma experiência auditiva fantástica. É um projeto que destaca-se tanto liricamente como sonoramente.

Seu último álbum, “Oxymoron”, falava sobre as gangues da Califórnia, vícios e família, em especial, sua filha. Foi um álbum muito bem recebido pela crítica. “Oxymoron” é um autêntico álbum de West Coast hip-hop, mas “Blank Face LP” elevou sua arte a um nível ainda mais alto. A produção ambiciosa e texturizada, o torna em algo memorável e divertido. É um esforço maduro, focado e escuro. Ele fala sobre o seu passado e injustiças sociais dentro da comunidade negra. É violento em algumas partes, mas sem um pingo de remorso. ScHoolboy Q proporciona rimas e fluxos ameaçadores e confiantes. “Blank Face LP” o encontra ainda mais cético e introspectivo, enquanto ele investiga histórias ainda mais profundas. O fato do álbum contar com batidas de uma ampla gama de produtores, incluindo The Alchemist, Metro Boomin, Southside, Swizz Beatz e Tyler, the Creator, o permitiu variar muito entre as músicas.

É um álbum particularmente coeso, com um som da Costa Oeste prevalecendo por toda sua extensão. É provável que este seja o seu melhor álbum até a presente data. Além disso, conta com participações de vários artistas da indústria do hip-hop, incluindo Kanye West, Jadakiss, Miguel, E-40 e Vince Staples. “TorcH”, faixa de abertura, não é algo que você normalmente esperaria como introdução do álbum. Mas é, ao mesmo tempo, um território muito mais artístico para ScHoolboy Q. Ela possui influências rock, riffs de guitarra elétrica, baixo funky e tambores texturizados por toda parte. A canção fala sobre ter o que todo mundo quer, mas sem precisar de amigos para isso. “Lord Have Mercy”, com menos de 2 minutos de duração, vê o rapper perguntando se Deus irá perdoá-lo por tudo que já fez. Seu verso é muito introspectivo e incrivelmente reflexivo.

ScHoolboy Q

A batida prepara todo o terreno para sua introspecção, enquanto Swizz Beatz ajuda a definir o cenário para tal. Lançado como primeiro single do álbum, “THat Part” é uma música obscura que conta com a participação de Kanye West. A batida é muito agradável e a produção de Cardo e Cubeatz bem empolgante. No entanto, ambos rappers apresentam um desempenho abaixo do esperado. Além disso, é difícil compreender o porquê do título ser repetido durante toda canção. “Groovy Tony / Eddie Kane”, por outro lado, é um destaque a parte, com uma batida suja constituída por sintetizadores sinistros, tambores pesados e backing vocals. A performance lírica de Q é incrível nessa música, por conta da energia metódica e polida. Jadakiss é um excelente recurso, pois proporciona um ótimo verso. A segunda metade da canção inclui referências a Eddie Kane do filme “The Five Heartbeats”.

“Kno Ya Wrong”, com Lance Skiiiwalker, passa longe dos tons ameaçadores apresentados nas faixas anteriores. Inicialmente, ScHoolboy Q canta de forma arrastada sobre uma amostra de piano. Na segunda metade da canção, temos Lance Skiiiwalker cantando sobre seu desejo de encontrar uma mulher, sobre uma batida sintetizada. Como um todo, é uma música agradável que flui sem maiores problemas. “Ride Out” é um clássico e triunfante hino gangsta, que dispõe dos vocais de Vince Staples. ScHoolboy Q e o cantor de Long Beach falam sobre os seus antigos estilos de vida com bastante autenticidade. Esta canção é um verdadeiro banger e um dos números mais fortes do álbum. Ela dispõe de uma insana batida em camadas, um baixo pesado e fortes chimbais. “WHateva U Want” é uma das faixas mais comerciais do álbum, por conta da batida dance e linhas de sintetizador no refrão.

Ela possui um sulco pesado e fala sobre uma divertida história de amor. Basicamente, ScHoolboy diz a uma garota que ela pode ter o que quiser, se estiver com ele. A entrega do rapper é bem sólida, enquanto Candice Pillay acrescenta bons vocais de apoio. A próxima faixa, “By Any Means”, tem uma natureza old-school e vocais de fundo Kendrick Lamar. Aqui, Hanley fala sobre como todos devem trabalhar para conseguir suas coisas, por qualquer meio. Em cima de uma produção cinematográfica, Lamar fornece um fundo agradável e ScHoolboy Q bons vocais durante a ponte. Metro Boomin e Southside trabalharam nos bastidores e transformaram “Dope Dealer” num sólido destaque. Sob uma amostra suja e batida trap, ScHoolboy Q e E-40 rimam sobre tráfico de drogas e diferentes estilos de vida. Ambos fazem um trabalho decente, excessivamente complexo e roubam a cena.

Em seguida, o rapper fala sobre sua juventude e como entrou para gangues de rua tão novo, durante a faixa “JoHn Muir”. Através de um fluxo com senso de urgência, ele lembra-se que vendia drogas e transava desde os 14 anos. Sonoramente, esta canção possui uma ótima batida e boas amostras instrumentais. “Big Body” possui um clima old-school da Costa Oeste e a presença de Tha Dogg Pound. Produzida por Tyler, the Creator, a batida é muito interessante, principalmente, pelo toque tradicional. Canções como esta levam o rapper para outra dimensão sonora, enquanto fornece alguns elementos sonoros utilizados no disco “Habits & Contradictions”. “Neva CHange”, com vocais de SZA, é uma canção encantadora onde Q fala sobre problemas sociais e pressões da vida. A batida é poderosa e texturizada, à medida que o gancho de SZA é sólido e nostálgico. Tomando um título emprestado de 2Pac, Hanley compartilha a arejada “Str8 Ballin'”.

Quincy Hanley

Esta canção celebra a ascenção de ScHoolboy Q, desde que tornou-se um rapper famoso. O refrão apresenta um belo canto e um repetida amostra de instrumentos de metal. Aqui, Q mostra bastante diversidade durante seu fluxo e performance lírica. É uma história comovente e um número bem convincente. O instrumental de “Black THougHts”, por sua vez, é poderosamente belo. Possui uma bateria acústica abafada e emparelhada com teclados ao fundo. Nesta canção, o rapper discute algumas importantes questões da comunidade negra. Em um dos versos, ele pede para as gangues Bloods e Crips pararem de matar uns aos outros. “Vamos colocar as armas para baixo (…) / Você pode aprender a voar ou tomar a escada / É real mano, merda, todas as vidas importam”. O refrão é muito intrigante e, no geral, é uma canção muito significativa.

Na faixa-título, “Blank Face”, o rapper fornece outro comentário social, enquanto olha para trás e lembra o quão longe ele chegou. É um bonito dueto com Anderson Paak, que aborda a forma como foram criados e algumas questões do mundo de hoje. Paak é um recurso muito bom, por conta do seu canto poderoso. A batida é leve, mas muito atraente. Backing vocals, dedilhado de guitarra, cordas e tambores auxiliam na composição. “Overtime”, com Miguel e Justine Skye, infelizmente sente-se completamente fora do lugar. Ela não se encaixa, especialmente porque aparece logo depois de uma série de canções vulneráveis e socialmente conscientes. É uma peça cativante e radio-friendly, entretanto, é uma mudança de humor drástica para o repertório. O instrumental de “Tookie Knows II” é essencial e perfeito para falar sobre crimes e vida na cadeia.

É, basicamente, um piano sinistro em rotação e alguns rápidos tambores por trás. Esses instrumentos fornecem uma base muito sólida para os versos de Hanley. Foi uma boa maneira que ScHoolboy Q encontrou para fechar o álbum. A produção do “Blank Face LP” é muito forte e original. Há um grande número de amostras, sons modernos e influência trap aqui. É um registro incrivelmente criativo, que explora temas dos quais ScHoolboy Q já está acostumado a falar. Cada faixa tem a sua própria identidade, o que torna tudo ainda mais diversificado. Seu som é nebuloso, denso, propositalmente complicado e, às vezes, psicodélico. ScHoolboy Q consegue manipular o rap gangsta de uma maneira transcendental, consequentemente, “Blank Face LP” é o seu melhor trabalho até à data. É um álbum que possui suas falhas, entretanto, para sua maior parte, é muito bem produzido e construído. É um dos melhores discos de hip-hop do ano, portanto, merece ser aclamado como tal.

80

Favorite Tracks: “Groovy Tony / Eddie Kane (feat. Jadakiss)”, “Ride Out (feat. Vince Staples)”, “WHateva U Want (feat. Candice Pillay)”, “Dope Dealer (feat. E-40)” e “JoHn Muir”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.