Resenha: Santana – Santana IV

Lançamento: 15/04/2016
Gênero: Rock Latino
Gravadora: RCA Records
Produtor: Santana.

A banda Santana, liderada pelo guitarrista mexicano Carlos Santana, lançou em 15 de abril de 2016 o disco “Santana IV”. Apresentando uma série de estilos musicais com sabores latinos, Santana tornou-se uma grande força do rock and roll durante a década de 1970. Eles ganharam atenção do público após performarem “Soul Sacrifice” no festival Woodstock em 1969, enquanto a exposição ajudou a impulsionar o seu primeiro auto-intitulado álbum. Ao longo de sua carreira, o grupo ganhou 8 Grammy Awards e 3 Grammy Latino. Embora tenha passado por diversas formações, há aqueles que consideram o line-up dos anos 70 como o “clássico” Santana. Por este motivo, que o vigésimo quarto álbum de estúdio da banda foi criado após a reunião da formação clássica de 70, composta por Carlos Santana, Gregg Rolie, Neal Schon, Mike Carabello e Michael Shrieve. Ele marca a primeira vez em 45 anos que o quinteto grava algo em conjunto.

Para substituir José Areas e o baixista David Brown (que morreu em 2000), eles convidaram Benny Rietveld e Karl Perazzo para tal desafio. Foi este grupo que produziu Santana III em 1971, e agora estão de volta com um novo projeto. “Santana IV” possui um total de 16 faixas, todas escritas e produzidas pela banda. A origem desse reencontro aconteceu quando Neal Schon sugeriu a Carlos Santana que ambos gravassem um disco conjunto. Santana gostou da ideia, mas aconselhou que eles também recrutassem Rolie, Shrieve e Carabello. Isso acabou culminando no LP que viria a ser chamado de “Santana IV”. Depois de algumas sessões iniciais de escrita e ensaios em 2013, o grupo gravou vários demos ao longo de 2014 e 2015. Elas acabaram transformando-se em 16 novas faixas, que combinam vários elementos de assinatura da banda. Aqui, podemos encontrar ritmos latinos, incríveis solos de guitarra, blues, rock psicodélico e um ótimo trabalho de percussão.

Em muitos aspectos, o novo álbum surge através de onde seu predecessor, “Santana III”, parou há 45 anos. A produção em si é enorme, uma vez que o som é abrangente e pesado. “Santana IV” representa uma banda tentando retornar ao seu pico. Cerca de quatro décadas mais tarde, eles reconstruíram sua escrita e espírito, com o intuito de captar e atualizar uma magia do passado. O baterista Shrieve e o percussionista Carabello estabelecem toda a base rítmica familiar para as canções, enquanto os guitarristas Santana e Schon inspiram com os seus melódicos solos. Os vocais de Rolie e o trabalho no teclado de Perazzo, por sua vez, transmitem toda a sensação visceral dos três primeiros álbuns do grupo. A primeira faixa do registro, “Yambu”, possui um trabalho místico no órgão, enquanto é apoiada por licks de guitarra funky, teclado, percussão latina e solos impressionantes desdobrados pelas mãos de Santana e Schon. Seu ritmo catchy acena claramente para “Batuka”, faixa de abertura do disco “Santana III”.

Santana

Em seguida, “Shake It” oferece uma combinação estrondosa de ritmos, riffs robustos e incisivos vocais. É a típica chamada da banda para dançar, visto a enxurrada de ritmos e refrão infeccioso. Criar uma fusão de funky, soul e hard-rock é algo que sempre fez do Santana um grupo singular. A alegre e contagiante “Anywhere You Want to Go”, por exemplo, oferece tudo isso através de uma forma muito interessante. É basicamente uma síntese de estilos em uma única música. “Fillmore East” é um intrigante e temperamental interlúdio instrumental, com cerca de 8 minutos de duração, construído pela tensão da guitarra de Carlos Santana. É uma canção que apresenta uma abordagem madura do instrumento e também expõe o seu talento como músico. “Love Makes the World Go Round” e “Freedom in Your Mind”, com Ronald Isley (vocalista e fundador do grupo The Isley Brothers), faz a banda mostrar toda a sua disposição para fundir diferentes gêneros musicais.

Essas faixas adicionam um pouco mais de alma ao registro, graças aos ressonantes vocais de Ronald Isley. Em seguida, a canção de amor “Choo Choo” apodera-se de uma batida house, órgão e um canto poderoso. Em quase todas as faixas, o álbum faz uma fusão de gêneros em seu núcleo, enquanto alguns sintetizadores servem como base para as brilhantes guitarras de Carlos Santana e Neal Schon. Isto é ainda mais perceptível nesta canção, uma faixa que mistura diversos gêneros musicais, em uma combinação que, na teoria, não deveria funcionar. Os vocais de Gregg Rolie também estão em evidência e muito refrescantes aqui. A mistura de jazz, salsa, afro-beat e rock é o que fez a banda tornar-se notável no final dos anos 1960 na Califórnia. E aqui, em “Choo Choo”, temos essa mesma sintonia novamente. Outra pista que flui sem maiores problemas é “All Aboard”, canção com cerca de dois minutos de duração.

Desta vez, Santana e Schon brilham enquanto são apoiados pela conga de Carabello. A sua percussão tipicamente emocionante, consegue injetar mais de uma impressão de rock em seu processo. A balada “Sueños” é um linda faixa instrumental que percorre um rumo mais alucinante. Aqui, adição do violão serviu para complementar a qualidade robusta da guitarra elétrica. É uma canção que ainda consegue exibir algumas ótimas influências espanholas e uma arejada percussão. Apesar de ser menos energética, aqui a banda prova que a música latina é atemporal. “Sueños” é realmente um belo exemplo do poder da clássica guitarra espanhola. Além disso, serviu como um perfeito cenário para mostrar o talento dos guitarristas da banda. Sob um suporte mais simples, Santana e Schon duelam em um descontraído ambiente. Parece ser uma batalha acústica entre o violão de nylon e a guitarra elétrica ligeiramente distorcida.

Na próxima faixa, “Caminando”, encontramos tanto Schon como Santana assumindo, novamente, a liderança. Eles desdobram as cordas de suas guitarras, a fim de apresentar uma bela canção inspirada pela salsa. O vocalista é um pouco ofuscado pelos guitarristas e as letras são distantes entre si. Entretanto, apesar da liderança de ambos, Rolie mostra um pouco do seu registro mais baixo. No caso desta faixa, a sensação de desconexão criada pelos sintetizadores na abertura é, sem dúvida, algo familiar para os ouvintes da era Woodstock. Em seguida, ele também ajuda a dar um maior contraste para a meditativa “Blues Magic”. A atmosfera suave dessa música tem uma grande semelhança com o hit “Black Magic Woman” do disco “Abraxas”. Tanto que compartilha um solo impressionante apoiado por uma seção rítmica de alto padrão. Além disso, essa canção também é notável por seu impressionante clima emocional.

Santana

O instrumental “Echizo” e a animada “Come as You Are”, basicamente, trazem um pouco de tudo que a banda aprendeu ao longo do caminho. Um bom exemplo disso, é a utilização da experiência adquirida por Neal Schon na banda Journey. Em outros lugares, Santana encontra o seu território mais familiar, como acontece em “Leave Me Alone”. Uma canção suave que traz o álbum “Supernatural” à nossa mente. Ela serve para mostrar que o disco tem sua marca pop e influência dos seus maiores registros. É uma música atraente, estabelecida principalmente pelos essenciais vocais de Rolie. A lenta balada de piano, “You and I”, também apresenta ótimos vocais de Rolie, enquanto a guitarra de Santana serve como o acompanhamento mais primordial. A faixa de encerramento, “Forgiveness”, é outro longo e delirante instrumental com algumas interjeições vocais ocasionais. Tematicamente, é talvez uma das faixas mais nostálgicas do álbum.

Sob um ritmo down-tempo, ela apresenta uma interpolação magistral de solos de guitarra, enquanto Rolie adiciona alguma espiritualidade vocal. É uma moderna, comovente e elegante despedida. É espetacular a química entre a banda, mesmo depois de tanto tempo longe. Apesar dos diferentes caminhos traçados pelos membros, esse álbum os vê tão forte quanto há 45 anos. Não é apenas um retrocesso para os velhos tempos, mas sim uma reunião de alguns músicos extremamente talentosos. Obviamente, ninguém esperaria que este álbum estivesse no mesmo nível ou superasse os três primeiros discos deles. Entretanto, “Santana IV” oferece uma coleção de canções sólidas muito bem executadas. A emoção por trás de cada uma delas é realmente perceptível. É um registro extremamente longo, com 16 faixas e um total 75 minutos de duração. Para ser honesto, mesmo com toda alegria e ótimas faixas presentes aqui, é um pouco cansativo escutar o álbum inteiro.

Se algumas faixas estivessem na versão deluxe, os resultados poderiam ser mais eficazes. Enquanto uma reunião, depois de 45 anos, foi boa para reviver alguns momentos do passado, o cenário musical mudou drasticamente desde aquelas décadas e, provavelmente, irá inibir o sucesso de “Santana IV” em quaisquer audiência mais jovem. É um álbum que definitivamente não foi feito para a cena streaming que domina grande parte da indústria de hoje. Embora a maioria das faixas de grande duração sejam consistentes, será difícil elas cativarem o ouvinte milenar. “Santana IV” não possui a espontaneidade ou exploração inovadora que permeou por seus primeiros discos. Atualmente, eles parecem menos energéticos, mas claramente encorajados pela reconciliação. A paixão por trabalharem juntos de novo alimentou a música da banda e serviu como fator crucial para este álbum.

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Favorite Tracks: “Anywhere You Want to Go”, “Choo Choo”, “Sueños”, “Blues Magic” e “Leave Me Alone”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.