Resenha: Sam Smith – The Thrill of It All

Lançamento: 03/11/2017
Gênero: Pop, Soul, R&B
Gravadora: Capitol Records
Produtores: Steve Fitzmaurice, Jimmy Napes, Brendan Grieve, Malay, Tyler Johnson, StarGate, Emile Haynie e Timbaland.

Inicialmente, Sam Smith chegou aos olhos do público quando participou do single “Latch” do Disclosure. Desde então, ele passou a acumular milhares de vendas e diversos prêmios, incluindo 4 Grammy Awards e 1 Oscar por “Writing on the Wall”. Após lançar o seu primeiro álbum, “In the Lonely Hour” (2014), ele transformou-se numa conhecida estrela mundial. Precedido pelo single “Too Good at Goodbyes”, bem como as faixas promocionais “Pray” e “Burning”, o seu novo álbum, “The Thrill of It All”, foi lançado em 03 de novembro de 2017. É um registo formado por confissões pessoais e letras que falam sobre o amor, perda, oração, aceitação e auto-estima. Na maior parte, “The Thrill of It All” fornece um som mais maduro e coeso do que sua estreia, além de performances vocais encorpadas e vulneráveis. É uma boa vitrine do talento e crueza de Sam Smith. Inspirado pelo desgosto de um relacionamento, é um álbum visivelmente mais honesto. Cada canção é preenchida por letras impactantes e dolorosas, mesmo que indulgentes em sua tristeza.

Há momentos em que Sam Smith escapa por pouco das armadilhas repetitivas de álbuns como este. Felizmente, ele não permite que o repertório caia num território tedioso. O primeiro single, “Too Good At Goodbyes”, é uma revelação dolorosa de alguém que reconhece que seu namoro está chegando ao fim. Sam Smith está mais preocupado com o seu bem-estar emocional do que com o futuro do seu relacionamento. Co-produzido pelo freqüente colaborador Jimmy Napes, “Too Good At Goodbyes” é um hino para aqueles que desistiram de ser felizes ao lado de determinada pessoa. “E quanto mais você me machuca, menos eu choro / E a cada vez que você me deixa, mais rápido estas lágrimas secam / E a cada vez que você vai embora, menos eu te amo / Meu bem, não temos chance, é triste, mas é verdade”, ele canta no pré-refrão. Liricamente, este single pisa no mesmo terreno do seu primeiro álbum. Uma balada pop emocionante, erguida por uma produção ligeiramente animada e influenciada pela música gospel.

Os elementos corais, sem dúvida, fornecem uma textura incrivelmente agradável. “Penso em você enquanto durmo / Sonho com o que poderíamos ser de nós se crescermos / Desenrolamos juntos”, Smith canta na segunda faixa, “Say It First”. Uma canção mid-tempo suave e terapêutica, direcionada para aqueles que já experimentaram um amor não correspondido. Enquanto é conduzida por uma guitarra melancólica, algumas leves batidas invadem o refrão. O segundo single, “One Last Song”, expressa a raiva, decepção, arrependimento e frustração do cantor. Ele realmente consegue evocar diferentes emoções nesta canção. Uma peça de blue-eyed soul com uma sensação clássica, refrão tipicamente emocional, piano saltitante e sample de “Be a Lion” (The Wiz Original Cast). Em seguida, “Midnight Train” conta sobre acontecimentos posteriores a uma ruptura amorosa. Esta música é quase o oposto de “Say It First”, pois mostra Sam Smith no outro lado do amor não correspondido.

O conteúdo lírico emparelhado com a produção influenciada pelo doo-wop cria uma justaposição muito interessante. É uma das minhas faixas favoritas do álbum. A quinta faixa, “Burning”, possui apenas o suporte do piano, uma vez que toda atenção é voltada para a performance vocal de Smith. A simplicidade da composição combinou muito bem com o lirismo turbulento. Uma balada soul apaixonada com um suave acompanhamento de piano, belas harmonias no refrão e arranjo minimalista. Um tema comum no álbum vê Sam Smith abordando sua própria fé e sexualidade. “HIM”, provavelmente, é o melhor exemplo da mesclagem desses dois temas. Com um tema assim, parece adequado que a música possua um forte coro gospel e grande apoio do piano. Aqui, Smith confessa o seu amor por outro homem e explora habilmente a interseção da fé, aceitação e intolerância. Sua voz surge de forma confiante, melancólica e emocionante, enquanto ele canta no refrão: “Não tente e me diga que Deus não se importa com nós / É ele que eu amo, é ele que eu amo”.

Em “Baby, You Make Me Crazy”, Smith opta por se envolver numa produção mais otimista e animada (embora seja tão emocionalmente carregada como o restante do álbum). Essa canção fornece algumas sons jazzy saltitantes e visa afogar seus pensamentos numa única noite. Além de empregar um som doo-wop e excelentes falsetes no refrão, a animada melodia e os instrumentos de metais causam um contraste adequado com as letras: “Por que você tem que preencher meu coração com tristeza?”. Para o dueto “No Peace”, com YEBBA, Sam Smith aborda as consequências da solidão. Sob a boa química entre os dois vocalistas, a escrita é carregada por poderosas performances vocais. A penúltima faixa, “Palace”, o vê relembrando das boas lembranças de um relacionamento do passado. Dessa vez, o som exuberante e rítmico das faixas anteriores foi substituído por uma guitarra de influência irlandesa. Embora o desempenho vocal e falsetes sejam bons, não é uma faixa tão memorável. Além disso, o lirismo é desperdiçado no momento que faz uso de vários clichês.

A edição padrão do álbum encerra com “Pray”, outra ótima mid-tempo inspirada na viagem de Smith ao Iraque. Produzida por Timbaland, pode ser considerada um novo território musical para o cantor. Uma mistura de R&B, soul, hip-hop e gospel, onde Smith contempla a religião. Um apelo honesto de um homem pecador que possui muitas perguntas. É a única faixa do álbum que não lida diretamente com a sua própria vida amorosa e, consequentemente, causa uma mudança refrescante de conteúdo. “Sou jovem e tolo, tomei decisões ruins / Me nego a ver notícias, dou as costas para a religião / Não tenho diploma, sou meio ingênuo / Cheguei até aqui sozinho”, ele canta no verso de abertura. É uma canção profunda e pessoal, independentemente da religião que você segue. “The Thrill of It All” é um passo confiante se comparado com a estreia de Sam Smith. Ainda é uma coleção de incertezas, mas possui um repertório muito mais consistente. No geral, ele conseguiu criar um álbum coeso e sólido. Algumas músicas correm o risco de serem um pouco parecidas entre si, mas a voz e entrega poderosa de Smith consegue se sobressair.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.