Resenha: Ryan Adams – Prisoner

Lançamento: 17/02/2017
Gênero: Country Alternativo, Rock
Gravadora: PAX AM / Blue Note Records
Produtor: Ryan Adams.

Desde que lançou o seu primeiro álbum solo, Ryan Adams tornou-se um prolífico artista e produtor. O seu último disco, uma reedição do álbum “1989” de Taylor Swift, mostrou o quanto ele é imprevisível. O seu décimo sexto projeto solo, intitulado “Prisoner” é uma obra incrível em diversos ângulos. É um disco que se concentra no seu divórcio com a atriz Mandy Moore. Reimaginar um dos maiores álbuns pop da década, “1989”, ajudou Adams a adquirir uma nova perspectiva para suas obras. Embora os temas líricos aqui não sejam uma novidade para dele, a execução e o arranjo das músicas são quase perfeitos. Nesse registro, ele mostra algumas das influências que absorveu de Bruce Springsteen e Paul Westerberg, sem soar derivado. “Prisoner” possui uma produção musical realmente impressionante. E, depois de dois anos de seu interessante material cover de Taylor Swift, Adams retorna com 12 faixas originais. Todas as canções mergulham profundamente no divórcio com Mandy Moore. O repertório possui um arco narrativo magnífico, começando de forma sarcástica e otimista, antes de rastejar por uma paisagem emocional cheia de cicatrizes, medo e aceitação. É o álbum mais direto, cru e focado que Ryan Adams já produziu. O registro parece documentar todo o divórcio, com as canções descrevendo cada etapa que Adams passou durante a separação. Construído em cima de letras emotivas sobre amor e angústia, “Prisoner” é um álbum definitivamente sólido.

Ele percorre o seu caminho através do brilho dos anos 80 e de sua poderosa guitarra. O ex-membro da banda Whiskeytown também é conhecido por ser poeta e pintor. Além disso, ele já produziu para grandes nomes da indústria, como Willie Nelson, Fall Out Boy e Weezer. Com tanta experiência em seu currículo, não é de se admirar que Ryan Adams criou um álbum de tamanha qualidade. “Prisoner” possui um pouco de rock clássico e, às vezes, elementos de música country. Um registro que possui letras poéticas, mas evita a demasiada repetição e similaridade. O repertório começa com “Do You Still Love Me?”, que fornece sons de guitarra oitentista, tambores apertados e órgãos, enquanto estabelece o tema principal do álbum. A fantástica guitarra e percussão tem uma qualidade irritada sobre elas, ligeiramente rosnando, mas a performance vocal de Adams, proporciona mais tristeza do que raiva. A faixa-título, “Prisoner”, vem em seguida e é, novamente, dirigida pela guitarra. Porém, dessa vez, a guitarra está muito mais suave do que na faixa anterior. Esse fator entrelaça com os vocais de Adams e cria uma vibração muito mais country. “Doomsday”, terceira faixa do álbum, abre com uma guitarra harmônica, que inicialmente parece uma continuação do estilo country da faixa-título. Entretanto, a bateria impulsiona a música e permite que os delicados vocais de Adams tomem uma outra direção. “Doomsday” não é a música mais inventiva, porém, é muito bem trabalhada.

Aqui, as letras de Adams evocam vividamente sua luta e dor emocional, após o fim do seu relacionamento. A faixa seguinte, “Haunted House”, combina um padrão de guitarra e tambor bastante otimista com uma melancólica performance vocal. Não é uma das faixas mais memoráveis ​​do álbum, porém, os vocais de Adams conseguem transmitir uma poderosa sensação de desespero e perda. A quinta faixa, “Shiver and Shake”, uma das músicas mais arrebatadoras do LP, mostra o cantor no seu melhor, tanto liricamente quanto vocalmente. Mas, depois do ritmo lento de “Shiver and Shake”, a adorável “To Be Without You” mostra Ryan comprometendo-se firmemente com suas raízes country, sem perder o tom sombrio de todo o disco. O violão dessa faixa é fabuloso, adorável e muito relaxado. Um destaque a parte. “Anything I Say to You Now”, por sua vez, é uma música com fortes ecos do rock dos anos 80. Liricamente, essa faixa vê Adams aceitando sua vida atual sem sua ex-esposa e tentando reorganizar seu estado emocional. “Breakdown” permite que os seus vocais façam a maior parte do trabalho inicial. Mas quando as guitarras chegam, elas emitem o mesmo som rock da faixa anterior. Adams experimenta a distorção da guitarra nessa canção, e acaba criando, provavelmente, a faixa mais rock & roll do álbum. Esta vibração rock & roll é reforçada por um refrão incrível, semelhante ao da faixa de abertura. A nona faixa, “Outbound Train”, é cheia de amargura e arrependimento, e ainda traz uma boa dose de ceticismo.

Sonoramente, a guitarra e percussão preenchem todas as lacunas perfeitamente. Em “Broken Anyway” os vocais de Adams tomam o centro do palco para si, enquanto são apoiados por uma instrumentação despojada. Em seu conteúdo lírico ouvimos o cantor admitindo que poderia ter feito algo para salvar o seu relacionamento. “Tightrope” pode não ter as melhores letras do álbum, mas possui guitarras acústicas simbolizando perfeitamente as emoções incertas de Ryan Adams. Ela começa com a frágil guitarra acústica e os vocais que permeiam por todo o álbum, antes de combinar belas teclas com um solo de saxofone. Na faixa final, “We Disappear”, o cantor usa novamente, de forma muito eficaz, uma distorção na guitarra. No geral, essa canção serve para unir, num único lugar, todos os temas que permeiam pelo álbum. A capacidade de Adams de captar experiências através de letras poéticas e transformá-las em canções é magistral. Ele escreveu cerca de oitenta músicas, porém, apenas doze foram escolhidas para o álbum. Doze excelentes canções. Todas elas concentram-se no amor e desgosto de uma maneira única. De fato, como a maioria dos materiais de Ryan Adams, “Prisoner” deve muito a Morrissey e aos Smiths. Nesse disco, por exemplo, podemos ouvir ecos da produção fabulosa do álbum homônimo (1984) dos Smiths e “Vauxhall and I” (1994) de Morrissey. No geral, “Prisoner” é simplesmente sublime. É difícil encontrar artistas nos dias atuais que podem escrever canções como estas. Felizmente, Adams é um desses talentos raros. “Prisoner” já é um de seus álbuns mais fascinantes.

Favorite Tracks: “Do You Still Love Me?”, “Doomsday” e “To Be Without You”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.