Resenha: Ricky Martin – A Quien Quiera Escuchar

Lançamento: 10/02/2015
Gênero: Pop Latino
Gravadora: Sony Music
Produtores: Jesse Shatkin, Yotuel Romero, Antonio Rayo, Julio Reyes Copello, David Cabrera e Enrique Larreal.

O porto-riquenho e Grammy-Winner Ricky Martin começou sua carreira aos 12 anos de idade como membro do grupo Menudos. Depois de cinco anos com o grupo, ele lançou vários álbuns solo durante os anos 1990. No final de 1999, ao cantar “The Cup of Life” no 41st Grammy Awards, ele tornou-se ainda mais famoso por trazer o pop latino para o cenário musical dos Estados Unidos. Naquele mesmo ano, o cantor chegou pela primeira vez ao topo da Billboard Hot 100, com o grande e crossover hit “Livin’ la Vida Loca”. Foi essa música que o ajudou a obter um enorme sucesso em vários países ao redor do mundo e é, geralmente, vista como a canção que ajudou a quebrar a barreira entre o mercado latim e a música mainstream americana. Em 2015, precisamente em 10 de fevereiro, Martin lançou o seu décimo álbum de estúdio, sob o título “A Quien Quiera Escuchar”. Em sua semana de lançamento o disco alcançou a posição de número #3 na Billboard 200 e já vendeu mais de 100 mil cópias nos Estados Unidos. O álbum foi anunciado no final de 2014 através de um vídeo postado pelo cantor em suas redes sociais.

“Nós vamos ter um ano muito interessante cheia de música, festas e momentos românticos”, disse ele após revelar o nome e a data de lançamento do LP. “A Quien Quiera Escuchar” é um registro que mostra maturidade e ainda tem um tom sexy, assim como seus antecessores. É um material com algumas canções adoráveis e totalmente movido pelas vibrações do pop latino. Ele é composto por um total de 10 faixas em sua versão padrão, todas em espanhol, enquanto ainda oferece duas faixas acústicas e um remix na versão de luxo. Também é o primeiro álbum desde o “Vuelve” (1998) que não contém nenhuma faixa em inglês. Em grande parte foi produzida e arranjado por Julio Reyes Copello, e arde com elegantes e sensuais arranjos que incidem sobre o amor, relacioanamentos e vulnerabilidade. Felizmente, não é um registro que repousa em clichês fáceis e, mesmo não sendo o seu melhor trabalho, seus pontos positivos superam os negativos. Para Ricky Martin, “A Quien Quiera Escuchar” parece significar uma retomada de conversas com o seu público, depois de uma série de experiências pessoais e profissionais.

Durante este período, ele teve um papel na Broadway, foi júri no The Voice da Austrália e realizou algumas turnês mundiais. Por isso, esse álbum é provavelmente o seu mais pessoal, até a presente data. Lançado quatro anos depois de “Música + Alma + Sexo”, esse projeto parece refletir onde e como está a sua vida, mas sem abandonar os itens que lhe permitiram brilhar no passado. É um álbum que também aposta em arranjos mais acústicos, ao mesmo tempo que os vocais de Martin dão um charme extra. Algumas canções realmente tem uma honestidade convincente, melodias e vibes relaxantes, e um romantismo belamente orquestrado. O primeiro single, “Adiós” é o ato de abertura, uma canção ambiciosa que brinca com um som característico de Martin. É uma música multilinguística, onde diferentes idiomas podem ser ouvidos durante sua execução, incluindo inglês e francês. Musicalmente, “Adiós” é conduzida por elementos rítmicos do tango, elementos dance e uma batida hipnotizante. Lançada como segundo single, “Disparo al Corazón”, por sua vez, é uma linda balada romântica escrita por Ricky Martin juntamente com Pedro Capó, Yoel Henriquez e Rafael Esparza Ruiz.

Ricky Martin

Com vocais emocionais e um desempenho adorável de Martin, a faixa é uma confissão de alguém que ficou perdidamente apaixonado por outra pessoa que acabou de conhecer. O piano, violoncelo, violino e a guitarra definem a atmosfera desta canção, que foca mais em uma natureza acústica, tanto na instrumentação como nos vocais. A próxima faixa é “Isla Bella”, uma canção mid-tempo onde Ricky Martin canta em homenagem a sua terra natal, Porto Rico. A letra descreve os sentimentos daquele que está longe da sua cidade ou país, mas que carrega as memórias de lá para onde quer que vá (“Voltar ao berço do meu nascimento / Volto a esse bairro que me viu correr”). É uma verdadeira ode à sua amada pátria, uma canção nostálgica que fala sobre suas raízes e mostra o seu respeito por a terra onde nasceu (“Terra, minha canção nasceu aqui, minha bandeira”). Sonoramente, é uma faixa construída com ótimas camadas de tambores, violões, trompas, guitarra espanhola e ainda é tingida de flamenco na ponte. A quarta faixa, “Perdóname”, é outra bela balada com adoráveis e aconchegantes vocais. Como indicado no próprio título, é uma declaração de arrependimentos diante de uma traição.

Um alguém que parou de amar, que não foi capaz de cumprir suas promessas e agora anseia pelo perdão de alguém que involuntariamente feriu (“Me perdoe / Por não cumprir as promessas / Admito que foi a minha falta de jeito / Me Perdoe / Eu não quero te machucar / Não sei viver com esse engano / Embora você me odeia, talvez”). A sua melodia é incrivelmente linda, enquanto as cordas são encantadoras e o arranjo muito bem amarrado. Sons de ondas e um ótimo riff de guitarra introduzem a próxima faixa: “Náufrago”. Essa é uma canção ensolarada, descontraída e tropical, que fala sobre ser abandonado por alguém do qual você achava que poderia confiar (“Como você agora dizer que está indo / De uma forma tão covarde / Como você agora dizer que está indo / Se apenas começando a nos apaixonar”). “Náufrago” tem uma percussão inspirada pela salsa muito bem trabalhada e ainda nos dá um gosto de raízes caribenhas como o merengue e a bachata. Em seguida, o cantor cubano Yotuel Romero, um dos principais escritores e produtores do álbum, empresta seus vocais para a faixa “La Mordidita”, terceiro single. Ao falar sobre sua colaboração com Yotuel, Ricky Martin disse em uma entrevista: “Foi uma grande colaboração de ser capaz de trabalhar com Yotuel, um irmão cubano, grande produtor, compositor, alguém que eu admiro e respeito muito”.

Durante a mesma entrevista, ele também mencionou a canção, dizendo: “É uma canção coquete, ela apresenta um partido, união de culturas e é enérgica”. “La Mordidita” contém elementos musicais de salsa, cumbia e reggaeton, além de fazer uma mistura interessante entre o flamenco e o EDM. Enquanto Yotuel contribui com um verso de rap na ponte, a voz de Martin está em sua melhor forma, soando bem natural e bastante flexível. Liricamente, a música fala sobre a luxúria sentida por uma pessoa muito desejada, entregando linhas como: “Se Deus colocou a maçã foi para morder / Oh Deus, pecamos abraçados até o amanhecer”. “Cuanto Me Acuerdo de Ti” é outra boa faixa que fala sobre a tentativa de encontrar uma maneira de se livrar da marca deixada por alguém que você precisa esquecer. A sua letra é simples e com um refrão repetitivo, mas não deixa de ser eficiente e bem escrita ao mostrar a vulnerabilidade de Ricky Martin. Musicalmente, em sua produção, ela tem a inclusão de toques de tango, trompete e um bom solo de acordeão durante a ponte. A oitava faixa, “Mátame Otra Vez”, é uma balada suave, romântica, jazzística e inspirada pelo soul, que ainda oferece a melhor performance vocal de Ricky Martin no álbum.

Ricky Martin

A forma como ele carrega sua voz nessa balada é altamente sensual e envolvente. A propósito, segundo Martin, essa foi a primeira música gravada para o registro, quando ele ainda estava na Austrália. A atmosfera criada, pela letra e instrumentação, é bastante intensa, principalmente, porque o protagonista utiliza uma metáfora sobre morrer repetidamente nos braços de alguém (“Não existe mais bela maneira de morrer / Em seus braços lentamente / Mate-me outra vez, mate sem medo / Eu prefiro perder esta guerra para poder começar de novo / Novamente sem você”). Outra coisa que torna esta canção incrível é como, sutilmente, os elementos de dubstep são jogados sem interromper o fluxo ou soarem datados. O baixo, murmurando ao fundo enquanto ele canta, a guitarra elétrica e o solo de trompete, são outros elementos impressionantes que ainda dão uma atmosfera quase erótica para a produção. As baladas são, sem dúvida, a força motriz por trás deste álbum, elas estão em outro nível se comparadas com as canções mid-tempo. A penúltima faixa, intitulada “Nada”, por exemplo, é outra balada maravilhosa e encantadora.

Desta vez, Martin canta com bastante honestidade sobre ser um excesso de bagagem na vida de alguém e diz querer virar a página e seguir em frente: “Se já não sou essa cor que pinta todas as suas paisagens / E nesta longa caminhada sou apenas excesso de bagagem (…) / Eu te quis tanto, mas eu estava errado / Não me arrependo, você sabe que te amei / Se passo essa página, não sei / Mas aprenderei a fechar o livro de uma vez”. Assim como na faixa anterior, Ricky prova que atingiu um grande nível de maturidade vocal e interpretativa, que fortalece ainda mais sua posição no cenário da música latina. Em sua instrumentação “Nada” possui guitarras acústicas empilhadas de forma adequadas a voz de Martin e ainda apresenta um belo coral, banjo e piano. O álbum fecha com um olhar esperançoso para o futuro, interpretado através da faixa-título “A Quien Quiera Escuchar”. Sobre bons acordes de guitarra Ricky Martin diz que não precisa olhar para o amanhã com medo e dúvida, da mesma forma que sugere uma maior apreciação da importância de amar e ser amado. Por fim, na edição de luxo do álbum encontramos versões acústicas de “Mátame Otra Vez” e “Náugfrago”, além de um remix de “Nada” que deu à música uma vibração mais otimista.

Somado tudo, “A Quien Quiera Escuchar” é um disco sólido, honesto, autêntico, repleto de grandes baladas, ritmos contagiantes e com uma atmosfera romântica. É um álbum que provavelmente agradou os fãs do porto-riquenho e qualquer outro amante da música pop latina. “A Quien Quiera Escuchar” entrelaça arranjos modernos e elegantes com ritmos latinos tradicionais que acabam por soar atemporais. O registro é bem multicultural, com uma infinidade de influências de outros gêneros. O disco, como um todo, ainda tem uma excelente entrega vocal e mantém-se a todo momento com um repertório interessante e coeso. Em conclusão, este álbum, cheio de baladas e melodias cativantes, tem a mesma aura dos primeiros discos do cantor, percebe-se que ele optou por jogar pelo lado seguro. Mas, desta vez, com um valor acrescentado de maturidade e experiência. É possível sentir cada emoção que Ricky Martin expressa com sua doce voz que, durante as 10 faixas, foi acompanhada incrivelmente por boas instrumentações. Ricky parece realmente ter evoluído, desde que estourou em 1999, para um som mais maduro e sofisticado. Mesmo o registro não possuindo nada completamente explosivo como “Livin ‘La Vida Loca”, ainda assim é um ótimo trabalho do bom e velho Ricky Martin.

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São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.