Resenha: Red Hot Chili Peppers – The Getaway

Lançamento: 17/07/2016
Gênero: Funky Rock, Rock Alternativo, Pop Rock
Gravadora: Warner Bros.
Produtor: Danger Mouse.

“The Getaway” é o décimo primeiro álbum de uma das bandas de rock mais bem sucedidas da história. Red Hot Chili Peppers têm sido uma grande força no mundo da música, após os sucessos de “Under the Bridge”, “Scar Tissue”, “Californication” e “By the Way”. Eles lançaram o seu primeiro álbum em 1984, mas foi em 1991, com o disco “Blood Sugar Sex Magik”, que eles tornaram-se reconhecidos a nível mundial. Seu som foi mudando ao longo dos anos, mas não com o objetivo de se tornar mainstream. Naturalmente, sua música amadureceu junto com eles. Red Hot Chili Peppers é uma banda que desenvolveu um som e estilo próprio, e isso é continuado nesse novo álbum. O familiar baixo de Flea, o tamborilar rítmico de Anthony Kiedis, a percussão descolada de Chad Smith e a atual guitarra de Josh Klinghoffer, continuam gerando uma sensação única.

No “The Getaway” a banda colaborou com o produtor Dange Mouse, que já obteve sucesso ao lado do Gnarls Barkley, Broken Bells, Beck, Gorillaz e The Black Keys. Esse é o primeiro registro do grupo, desde “Mother’s Milk” (1989), que não conta com Rick Rubin na produção. Rubin serviu a banda durante vinte e cinco anos e seis álbuns. Este disco é cheio de aspectos positivos, porém, não pode ser visto como um novo capítulo para os californianos. Na primeira audição, “The Getaway” soa como algo completamente normal para a banda, com melodias infecciosas que os impulsionaram para a fama internacional há 25 anos. O registro mostra um som mais suave e sofisticado do que o “I’m with You”, por exemplo. As 13 faixas são bem arranjadas e ecléticas no som, enquanto as letras transparentes e refinadas. Aqui, eles falam sobre envelhecimento, amor, sofrimento, sexo e passagem do tempo.

O LP também mostra o grupo experimentando novos artifícios em sua paleta musical, com teclados e piano assumindo um papel importante no esquema geral das coisas. Por outro lado, a maior parte do repertório depende inteiramente de suas melodias e repartição funky ocasional. Apesar de estagnados em alguns pontos, Red Hot Chili Peppers ainda mantém sua posição como deuses do rock alternativo. Esse álbum pode ser melhor descrito como um renascimento, em vez de uma reinvenção. A faixa-título, “The Getaway”, inicia o repertório com uma produção muito elegante. Ela abre com tambores inquietantes, seguido das linhas vocais de Kiedis. É um número muito restrito, com ranhuras temperamentais e forte presença do baixo de Flea. É uma canção introspectiva e quase jazzy, por conta dos vocais contidos e instrumentação relaxada. A atmosfera funky, revestida pela guitarra e backing vocals, dá à música um toque mais grave.

Red Hot Chili Peppers

O primeiro single do álbum, “Dark Necessities”, foi lançado em 05 de maio de 2016. É um número mid-tempo longo, que apresenta linhas proeminentes de Flea. A ausência de um grande trabalho na guitarra, em favor do piano, foi a coisa mais notável na música. Para uma banda tão alavancada pela guitarra, como o Red Hot Chili Peppers, foi uma surpresa ela ser deixada em segundo plano. É uma mudança dentro de sua própria paisagem sonora, incluindo a adição inesperada de um solo de piano. Felizmente, como sempre foi, o baixo de Flea está sensacional, na qualidade que Kiedis oferece vocais essenciais. Além da boa execução da bateria e piano, há um sintetizador, em efeito de rotação, muito autêntico. Ou seja, a música realmente apresenta elementos interessantes. A introdução é muito bem construída e catapultada imediatamente pela irresistível linha de baixo de Flea.

Pode-se dizer que “Dark Necessities” é um resquício do disco “I’m with You”, que também nos remete ao “Stadium Arcadium”. A melodia principal aponta exatamente para isso, incluindo o refrão cheio de tons melódicos. O refrão, por sinal, é cativante e apresenta algumas cordas adicionais. Os backing vocals e harmonias ainda adicionam uma boa sensação à música. Um dos melhores momentos acontece na ponte, pois o piano torna-se o instrumento principal. Surpreendentemente, dessa vez, as letras não são uma homenagem à Califórnia. É uma faixa bem melancólica, especialmente no refrão: “É, você não conhece a minha mente / Você não conhece o meu tipo / As necessidades obscuras são parte do meu projeto”. Chegando com um estilo vocal que fez a banda famosa, “We Turn Red” é uma canção que lembra alguns dos seus trabalhos mais antigos.

A percussão de Chad Smith é o principal motor da música, pois constrói um grande ritmo. O vocalista, Anthony Kieds, por sua vez, entrega um pseudo-rap e vocais mais relaxados. “The Longest Wave” é tecida por suaves acordes de guitarra e uma narrativa mais poética. O experimental guitarrista Josh Klinghoffer consegue acrescentar uma ótima textura à música. A única desvantagem dela é a ausência da percussão mais pesada de Smith. “Goodbye Angels”, por outro lado, é uma clássica música da banda, com um sólido acompanhamento do baixo e guitarra. É um número funky e rap-rock, com sons apressados, que nos remete ao disco “Californication”. As letras em “The Getaway” são as mais introspectivas que Anthony Kieds já cantou. Grande parte desse conjunto parece ser baseado em seu recente rompimento com Helena Vestergaard.

“O suicídio de um mês antes de te conhecer / Arrependimentos profundos, eu nunca poderia te esquecer”, ele canta em “Goodbye Angels”. A próxima faixa, “Sick Love”, apresenta um piano ao lado de uma guitarra energética. Essa canção traz letras bem poderosas, tais como: “Rios se conectam de forma mais forte do que a esperada, bem / Um amor doentio vem para nos lavar embora / Prisões de perspectiva / Como a sua visão é corrigida e / Um amor doentio é meu clichê moderno”. O cenário neo-soul e jazz é muito atraente, tanto que faz dessa canção um dos destaques do álbum. O baixo de Flea está incrivelmente notável durante a faixa “Go Robot”. O álbum possui sua coleção de faixas funky e elas são, em grande parte, bastante agradáveis. “Go Robot” pulsa com seu sistema eletrônico ao longo do baixo proeminente, criando uma faixa especialmente forte e totalmente coerente no contexto do álbum.

Red Hot Chili Peppers

O sulco de “Go Robot” é um bom contraste para a próxima música, intitulada “Feasting on the Flowers”. É outro bom momento para o ouvinte apreciar. Uma canção mais expressiva que fala sobre a perda de amigos, através de metáforas e uma ótima performance vocal de Kieds. O nostálgico som de “Detroit” é impulsionado por um riff de guitarra simplista de Klinghoffer e a percussão inconfundível de Smith. Apesar de ser o álbum mais suave da banda até à data, “Detroit” e “This Ticonderoga” surgem como os momentos mais pesados do mesmo. “This Ticonderoga” é energética, orquestral e possui um som surpreendentemente mais áspero e sujo. Apesar de ser a maior surpresa do repertório, é uma música que não coincide com a vibração geral do álbum. Não é uma canção exatamente ruim, porém, ela simplesmente não parece equilibrar-se com o restante do registro.

Em seguida, encontramos uma instrumentação mais exuberante na faixa “Encore”. Aqui, a banda utiliza cordas para aumentar o drama do refrão e dar à música uma sensação mais frágil. É o número mais doce do disco, tanto que não depende de qualquer percussão pesada. Liricamente, “Encore” é a aceitação do envelhecimento, conforme Kieds canta sobre encontrar a si mesmo e reparar nas pequenas coisas da vida. O álbum aproxima-se do seu final, porém, apesar de ser liricamente rica, a balada “The Hunter” é um número abaixo do esperado. Sua letra parece ser uma homenagem à relação entre pai e filho, que Anthony Kieds mantém com seu filho Everly Bear. “Dreams of a Samurai” é, aparentemente, a faixa mais complexa e abstrata do LP. É um número lento e suave que estende-se por paisagens psicodélicas flexíveis.

Embora seja uma música contida, pega impulso e mostra uma certa gama em determinados momentos. Também possui a maior duração do repertório, com mais de seis minutos de duração. Uma coisa surpreendente nesse álbum é o quão pouco o som da banda mudou. Afinal de contas, Red Hot Chili Peppers faz música desde os anos 80, são décadas de experiência e confiança artística. Talvez a maior mudança desse álbum são as novas abordagens, mesmo permanecendo fiel ao seu som. Os elementos peculiares que definiram a banda no início dos anos 90 ainda estão presentes. “The Getaway” é muito mais completo e orgânico que o “I’m with You”, o produtor Danger Mouse colocou todas as raízes funky da banda para fora. O toque que Danger Mouse deu ao álbum fez dele uma experiência auditiva muito agradável. Não é um LP inovador, mas, mesmo com a extensa carreira, Red Hot Chili Peppers mostrou que ainda pode surpreender.

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Favorite Tracks: “The Getaway”, “Dark Necessities”, “Goodbye Angels”, “Sick Love” e “Got Robot”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.