Resenha: Radiohead – A Moon Shaped Pool

Lançamento: 08/05/2016
Gênero: Art Rock, Eletrônica
Gravadora: XL Recordings
Produtores: Nigel Godrich e Radiohead.

Depois de tanta espera e expectativa, o Radiohead finalmente lançou o seu nono álbum de estúdio. Cinco anos após “The King of Limbs”, o disco “A Moon Shaped Pool” foi potencialmente anunciado e lançado em 08 de maio de 2016. Formada em 1985 e composta por Thom Yorke, Jonny Greenwood, Ed O’Brien, Colin Greenwood e Phil Selway, o Radiohead é uma das bandas mais aclamadas da indústria. Em 1992 eles surgiram com o single “Creep”, um hit mundial presente no álbum “Pablo Honey” (1993). Sua popularidade aumentou no Reino Unido em 1995, com o lançamento do disco “The Bends”. Posteriormente, “OK Computer” os impulsionou à fama internacional, através de uma sonoridade expressiva e temas como alienação moderna. Esse álbum é constantemente elogiado como um marco da década de 1990 e um dos melhores discos de todos os tempos. Conhecidos por ser um dos atos mais inovadores, recentemente o grupo parecia ter acabado com as reinvenções. Entretanto, “A Moon Shaped Pool” prova o contrário, pois é um álbum acima da média.

É um novo capítulo para banda, que conta com cordas e coral de vozes organizados pelo guitarrista Jonny Greenwood e realizados pela Orquestra Contemporânea de Londres. Esse disco é apresentado como do gênero art rock, que combina elementos eletrônicos, tais como baterias eletrônicas e sintetizadores, com instrumentos acústicos, como violão e piano. É um registro que oferece desvios sonoros sutis, ênfase na guitarra acústica, arranjos de cordas, sulcos de bossa nova e harmonias misteriosas espalhadas por toda parte. Suas letras discutem temas como amor, perdão e arrependimentos, embora não aderem a uma única metodologia. Assim como “Kid A” e “Amnesiac”, é um álbum impenetrável em alguns pontos. Porém, ao longo do seu comprimento, apresenta algumas das melhores melodias da banda, ao lado de instrumentos orgânicos e eletrônicos. Seu repertório tem um humor definitivo, bem como diferentes emoções expressas de música para música. O ritmo do álbum é principalmente downtempo, escuro e texturizado com guitarras.

As cordas, sem dúvida, desempenham um papel proeminente no álbum. Poucas canções possuem uma natureza dentro do rock convencional. Mas, o que faz Radiohead ser uma banda tão impressionante, é a sua capacidade de fazer seus álbuns soarem diferentes dos anteriores, embora ainda possuam uma sensação familiar. “Burn the Witch”, faixa de abertura e primeiro single do álbum, é talvez a declaração mais politicamente carregada da banda em anos. Tanto a letra quanto o vídeo da canção, estão sendo interpretados como uma repulsa ao autoritarismo. “Burn the Witch” é uma música realmente enigmática, cheia de tensão, profunda e emocionante. Musicalmente, é um pop orquestral magnífico, com uma seção de cordas em efeito col legno. Esse efeito sonoro, emitido através da batida da vara do arco nas cordas do violino, cria uma tensão musical incrivelmente exuberante. É um pouco diferente de tudo que o Radiohead já produziu anteriormente, principalmente pela introdução inquietante.

As cordas frenéticas do violino, sintetizador e o drone eletrônico, dão um ar brilhante para a música. Suas letras politicamente carregadas, por sua vez, a deixam ainda mais grave. “Fique nas sombras / Aplaudam a forca / Isso é um cerco”, Thom Yorke canta inicialmente. Sua voz soa incrível, enquanto o instrumental constrói um clímax inesperado e ríspido. O riff orquestral é agressivo, porém, faz uma linda escalada através das notas cheias de angústia de Yorke. Ele demonstra um controle vocal dominante, ao lado de falsetes em potencial. Na segunda metade, as cordas do violino desintegram-se e deixam espaço para o violoncelo apresentar uma progressão de acordes mais padronizada. A faixa seguinte, “Daydreaming”, é uma música ambiente, com um triste e simples piano, elementos eletrônicos e cordas orquestrais. É um número atmosférico, minimalista e completamente cinematográfico, similar aos momentos mais sutis do disco “Amnesiac”.

Radiohead

“Sonhadores / Eles nunca aprendem / Além do ponto / Em que não há mais volta”, Yorke canta de forma exuberante. Algumas hipóteses foram levantadas a respeito da letra, muitos dizendo que ela faz referência a recente separação de Yorke e sua ex-esposa. É uma música muito mais lenta e profunda que “Burn the Witch”, quase parecendo uma suave canção de ninar. Ela é cuidadosamente construída, principalmente, em torno do repetitivo arranjo de piano. É extremamente delicada e um tanto quanto triste, por conta do tom solene de Yorke. A terceira faixa, “Decks Dark”, possui alguns elementos que nos fazem lembrar do disco “OK Computer”. Emparelhada com algumas imagens apocalípticas e uma linha de piano, essa canção implora por uma performance ao vivo. Ela flutua juntamente com algumas nuances da banda, elementos sublimes e um ar sombrio. A suave mistura da batida eletrônica com o baixo, permite uma experiência muito interessante.

A linha de baixo caracterizada por Colin Greenwood é um destaque, enquanto as guitarras elétricas criam uma ranhura poderosa. As reflexões distópicas de Yorke são estranhamente escuras e sombrias, ainda mais acentuadas pelos vocais da Orquestra Contemporânea de Londres. Em seguida, nossos ouvidos são atraídos por cativantes licks de violão em “Desert Island Disk”. Aqui, o violão está absolutamente lindo e assume o papel principal. A música é quase inteiramente acústica, conforme Yorke medita sobre ser “totalmente vivo, na luz do meu espírito”. Guiado pelo violão e um bumbo dificilmente audível, Thom Yorke está melancólico em sua entrega. Quando a bateria, o baixo pulsante e as cordas aparecem, ele ainda se mantém calmo e contido. A sua performance vocal é um trunfo, assim como o belo violão. Uma ninhada sinistra de tambores e guitarras distorcidas surgem lentamente para apresentar a faixa “Ful Stop”. Mas, apesar do início lento, esta faixa é empolgante e alcança um pico quando o restante da banda junta-se a Tom Yorke.

Grande e imediatamente emocionante, esta música retrata o desespero de uma dissolução romântica. “Todos os bons tempos / Leve-me de volta / Leve-me de volta”, Yorke canta, enquanto fortes tambores e uma linha sinistra de guitarra marca presença. Essa canção é hipnótica e também baseia-se numa linha de baixo e batidas distorcidas. Elas estão em camadas ao lado da guitarra, sintetizador e notas de teclados. Ademais, assim como muitas canções do álbum, “Ful Stop” é definida pelo espaço dentro de si. O vai-e-vem dos tambores é incrivelmente eficaz e, as guitarras interligadas por Johnny Greenwood e Ed O’Brien, são encantadoras. Apesar de ser a faixa mais curta, com pouco menos de três minutos, “Glass Eyes” é a uma das mais abrangentes e cinematográficas. Aqui, a banda constrói sua ansiedade através de cordas macias e piano, combinando novamente dois temas-chave. É outro número assustadoramente belo, como qualquer outra coisa que a banda ja criou.

Bonita, simplista e triste, a música tenta conectar-se a qualquer pessoa que passou por algum momento de solidão. Como Yorke relata, é uma viagem solitária e sombria, sobre o apoio de uma orquestra exuberante. “Identikit”, sétima faixa, é facilmente um dos maiores destaques do álbum. É vagamente reminiscente de “Paranoid Android”, enquanto enfatizada por batidas saltitantes, guitarras, refrões sinistros e sintetizadores. Tudo isso é embrulhado ao lado de uma melancolia e um apoio sonoro celestial. O que falta na progressão de sintetizadores, é compensado pelo pulsar do tambor e o solo de guitarra executado por Jonny Greenwood. Em sua maior parte, “Identikit” é grande e focada nesses dois instrumentos (tambor e guitarra). Jonny Greenwood excedeu as expectativas com o tom brilhante e arranhado de sua guitarra. Os vocais de fundo, combinados com a instrumentação espaçosa, cria um contraste muito eficaz. A multiplicidade da voz em camadas de Thom Yorke, sem dúvida, está no seu melhor aqui.

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A próxima canção, “The Numbers”, é construída por uma percussão, sussurros, teclas de piano e belas cordas. A sua borda é acentuada pela guitarra elétrica, que rosna em segundo plano. Os tambores e acordes acústicos, por outro lado, oferecem uma das progressões mais características do Radiohead no álbum. O vocal de Yorke é apresentado na extremidade inferior do seu alcance, uma utilização bastante agradável de sua voz. Os arranjos de cordas, tão proeminentemente utilizados no álbum, também eleva “The Numbers”. Essa canção pode ser considerada a faixa mais edificante do “A Moon Shaped Pool”. Durante a faixa “Present Tense” Thom Yorke fica dolorosamente introspectivo, perguntando se “todo esse amor será em vão”. Aparentemente, ele está lidando com um rompimento amoroso: “Esta dança é como uma arma de auto-defesa contra o tempo presente”. Seja ou não uma canção inspirada pela sua recente separação, ainda é um número interessante para fazer parte do catálogo do Radiohead.

O seu ambiente é de um típico número da banda, construído sobre alguns tambores, guitarras e harmonias vocais. Porém, pontuado pelo uso mínimo de instrumentação, sendo em grande parte orgânica. O refrão é surpreendente, reforçado pela performance vocal contida do vocalista. É facilmente uma das canções mais bonitas do álbum. Outra peça incrivelmente interessante é “Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief”, penúltima faixa do álbum. Os acordes do seu teclado e a batida são, instantaneamente, uma reminiscência de “Kid A” e “Amnesiac”. A música é preenchida pela composição magistral da Orquestra Contemporânea de Londres, enquanto a percussão é eficazmente conduzida por Phil Selway. Esta canção é uma verdadeira combinação de arranjos em camadas com atmosfera cinematográfica. A faixa de encerramento, “True Love Waits”, tem mais de 20 anos de existência. Ela foi performada pela primeira vez em 1995, conforme foi executada inúmeras vezes nos anos seguintes.

A banda tentou gravá-la para seus álbuns “OK Computer”, “Kid A” e “Amnesiac”, entretanto, não ficaram satisfeitos com a versão final. Posteriormente, acabou tornando-se uma das canções perdidas mais famosas do Radiohead. Uma versão acústica foi lançada no álbum ao vivo “I Might Be Wrong: Live Recordings” (2001), porém, somente em 2016, foi finalmente lançada em versão de estúdio, conforme integrada a esse disco. É uma balada ambiente com letras sobre amor e abandono, manifestada em sua forma mais pura, devastadora e direta. É uma balada de piano verdadeiramente comovente. Aqui, o escasso piano complementa, de forma dolorosa, os delicados vocais de Yorke. Consequentemente, a voz do cantor soa inexpressiva, quando exposta pela instrumentação minimalista. “True Love Waits” serve como um encerramento reflexivo, amarrado as mesmas linhas temáticas e musicais das faixas anteriores.

Como um todo, “A Moon Shaped Pool” não soa como qualquer coisa que a banda já lançou antes, embora sinta-se como uma progressão natural para ela. Com este disco, Radiohead trabalhou em algo ressonante, emocional, musicalmente inesperado e artisticamente expressivo. É difícil imaginar que um grupo possa manter um alto nível, mesmo depois de 30 anos trabalhando juntos. Após ouvir “A Moon Shaped Pool” posso concluir que eles, mais uma vez, criaram algo totalmente novo e fascinante. É um álbum fantástico, em outras palavras. Não é a sua obra-prima, mas é um projeto poderoso, criado por um quinteto que tem sido verdadeiramente original por décadas. Toda a evolução do Radiohead tem sido essencial e nunca forçada. Desde os Beatles, poucas bandas conseguiram tal reinvenção ao longo de sua carreira. Radiohead é uma delas. A cada novo álbum, eles tornam-se uma nova banda, por conta de sua inovação e originalidade. Através de sua incrível musicalidade e criatividade sem precedentes, eles foram capazes de criar outro excelente registro.

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Favorite Tracks: “Burn the Witch”, “Daydreaming”, “Ful Stop”, “Identikit” e “The Numbers”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.