Resenha: Projota – Foco, Força e Fé

Lançamento: 04/11/2014
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: Universal Music
Produtores: ProJota, A.G. Soares, DJ Caíque, Pedro Dash e Marcelinho Ferraz.

Nascido e criado na Zona Norte de São Paulo, Projota, nome artístico de José Tiago Sabino Pereira, começou a carreira com o grupo Na Humilde Crew, do qual faziam parte também Emicida e Rashid. O rapper teve uma infância pobre e cita MV Bill como sua primeira influência musical. “O rap salvou a minha vida. Eu podia ter feito um monte de bosta. Como todo moleque, também queria um tênis louco, eu não tinha nada, usava roupa do meu irmão mais velho. Mas quando eu ouvi ‘Só Deus Pode Me Julgar’, do MV Bill, ainda na adolescência, decidi: eu quero cantar rap, é isso que eu quero da minha vida”, diz Projota. Ele também chegou a trabalhar como balconista e cursou Educação Física, antes de seguir na música. Começou a carreira ganhando notoriedade nas batalhas de MCs e entrou no cenário rap brasileiro aos 16 anos, e desde então já lançou 4 mixtapes e 1 EP. Somente em novembro do ano passado o rapper lançou o seu primeiro álbum de estúdio, intitulado “Foco, Força e Fé”.

O disco foi lançado pela Universal Music, primeiro assinado por uma gravadora, possui 16 faixas e participações de Marcelo D2, Negra Li, Dado Villa-Lobos, J Balvin e Marlos Vinícius. Desde que gravou o seu primeiro EP, “Carta aos Meus”, em 2009, Projota veio ganhando cada vez mais reconhecimento do grande público. Esse EP incluía faixas como “Rato de Quermesse”, “O Rap em Ação” e “Véia”, esta última onde ele faz referências a sua mãe, que faleceu quando o mesmo tinha apenas 7 anos. Entre os principais rappers da sua geração, Projota também sempre foi o que mais flertou com temáticas românticas. E aqui no álbum não foi diferente, pois ele explora os temas amorosos que ajudaram em sua popularização, bem como também flerta com outros assuntos como autoajuda, medo, racismo, esperança e desigualdade social. Além das faixas inéditas o disco ainda inclui canções como “Carta aos Meus”, “A Rezadeira”, “Cobertor” (disponível apenas para download no iTunes) e “Mulher”, que foram apresentadas anteriormente em suas mixtapes.

“A gente tentou fazer um disco com, pelo menos assim, duas músicas mais pesadonas, duas mais de pista, romântica”, disse Projota à respeito do repertório. “Na Carta aos Meus, eu falo no final o seguinte: ‘Pra quem sonha alto, todo novo passo parece ser o primeiro’. Então, eu me sinto começando de novo. É um novo momento, é um novo passo”, finalizou. O disco joga por um lado seguro e entrega uma coleção de 15 faixas realmente muito boas. A primeira delas, a faixa-título (“Foco, Força e Fé”), é um rap cheio de energia, que já abre o repertório da melhor maneira possível. Segundo Projota, “foco, força e fé” são os pilares, a base do seu trabalho e da sua vida. “A vida é sacrifício, fechar os olhos e se entregar / No início é difícil, mas vai se acostumar”, ele já orienta logo no primeiro verso. Em outros versos o rapper mostra que sempre foi determinado e seguiu em frente mesmo com as críticas: “Mais de 13 anos me esforçando demais / Enquanto uns tão falando / Disseram que era moda / E eu segui trabalhando” e fala de suas influências musicais: “Curto Charlie Sheen mas prefiro Sean Pean / Renato Russo e Elis também / Cresci entre Sabotage e Kurt Cobain”.

Projota

O refrão também é muito bem construído, com ele ditando os três pilares da sua vida: “Foco: um objetivo pra alcançar / Força: pra nunca desistir de lutar e / Fé: pra me manter de pé enquanto eu puder”. A música é eletrizante, abrindo com uma linha de guitarra e fornecendo uma boa batida que dita o ritmo. Suas rimas também estão absolutamente espetaculares, colaborando para entrega de uma das canções mais poderosas do álbum. A segunda faixa, “Enquanto Você Dormia”, é introduzida por uma guitarra acústica e é uma canção mais melódica, romântica e com influências de R&B. A música, que foi lançada como single e já possui um videoclipe com mais de 6 milhões de visualizações, é bastante agradável e entrega linhas como: “Te dava um beijo no rosto de leve pra não acordar / E dizia te amo sem você poder escutar”, “Fazia amor com você até minha perna bambear / Te abraçava, dava colo pra te acarinhar / E dizia o quanto eu te amo até ver seu olho fechar”. Logo em seguida, temos a faixa “O Homem Que Não Tinha Nada”, com participação da cantora Negra Li. Outra canção espetacular e com uma das melhores melodias do registro.

A participação de Negra Li no refrão deu um charme a mais para a música, por conta da sua voz suave e encantadora. Liricamente, a música fala sobre o esforço, as batalhas e falhas do ser humano no decorrer da vida (“O ser humano é falho / Hoje esmo eu falhei / Ninguém nasce sabendo / Então me deixe tentar”). Em uma vibe muito suave, descontraída e com base no violão, a faixa “O Vento” engata uma sonoridade diferente do universo hip hop que Projota está acostumado. Na mesma medida, suas rimas e conteúdo lírico, também são bem mais simples que o restante das faixas. No hip hop de “Foi Bom Demais” Projota lamenta o fim de um relacionamento e demonstra o quanto gostava do tempo que passou do lado de determinado garota: “Quando eu te encontrar eu vou te dizer que foi bom demais / Foi intenso, verdadeiro e foi bom demais / Infelizmente teve fim mas foi bom demais foi bom demais foi”. Embora seja um pouco repetitiva, é uma canção bacana, com um ambiente sonoro atraente e uma letra com uma pegada mais leve.

Para entregar a faixa “Elas Gostam Assim”, Projota convidou o rapper Marcelo D2 para dividir os vocais. Musicalmente, é bem dançante, mais comercial, com uma batida forte e a presença de um berimbau em sua instrumentação. Enquanto em seu lirismo temos linhas com um certo teor sexista e machista (“To sempre pronto, nunca nego o fogo / Se ela pensa que acabou, sapequei de novo”). A faixa “Hey, Irmão” é muito serena, contemplativa e possui um tom nostálgico (“Hey irmão, me diz como você tá / A saudade ainda vai me matar (…) / Tempo que não volta mais”). Apoiado por um caloroso violão, Projota aproveita para prestar uma homenagem e lembrar dos seus amigos de infância (“Amigos são a coragem que enfrenta nosso medo / Amigos são o cofre pra guardar todo segredo”). Em seguida, Projota faz uma versão em português para o hit reggaeton “Tranquila”, de 2012, do colombiano J. Balvin, que também participa nos vocais.

“O Astronauta”, por sua vez, está entre minhas preferidas do disco, uma canção com harmonias muito agradáveis. Ela possui contundentes batidas de tambor e sax, ao passo que sua letra fala sobre mudanças e a realidade da vida (“E eu só digo que já, fazia tempo que o mundo não me dava / Um bom motivo pra viver mais já, encontrei um bom motivo”). Aqui, durante a ponte, Projota inclusive cita o eterno Chorão da banda Charlie Brown Jr.: “(…) Sou fã dos meus fãs / São minha inspiração / Eu intendo nosso vínculo de alma e coração / Jovens precisam de um ídolo, saudades do Chorão”. “Um Dia a Mais”, por sua vez, é um das faixas mais pesadas do repertório, fornecendo linhas como: “Eu tenho um dia a mais pra viver / Um dia a mais pra sonhar” e “Porque eu tenho um dia a mais pra sofrer / Um dia a mais pra chorar”. Incluindo loops de bateria e sax, a sua instrumentação é com certeza uma das mais chamativas e classudas do registro.

Projota

A décima primeira faixa é “A Rezadeira”, que havia sido apresentada pela primeira vez na mixtape “Projeção Pra Elas” de 2010. É certamente a música mais top do registro e a melhor de toda a carreira, segundo o próprio Projota. A sua letra fala sobre um amigo do rapper que se tornou bandido (“Seu roubo seu ganha-pão / Sua fuga com seus irmãos (…) Sua marra, sua perdição / E até chorei com a sua primeira detenção”). A música ainda entrega alguns dos versos mais comoventes do álbum, ao falar de uma mãe que vê seu filho bandido sendo morto: “Vi também ela chorando no seu sangue / Gritando um tal senhor / Cantando alto e claro aquele bonito louvor”. O refrão de “A Rezadeira” é outro ponto alto, totalmente viciante e talvez o mais bem estruturado do álbum. Introduzida por uma guitarra acústica, “Tanto Faz” fala sobre realidades da vida, mas é provavelmente a canção mais fraca do disco, quase sem nenhum atrativo, com rimas pobres e um refrão simples. “Mulher”, faixa treze, é uma canção doce e calma, com participação de Marlos Vinícius, baixista da banda Onze:20, nos vocais. A música, que tem influência da MPB, foi lançada inicialmente na mixtape “Muita Luz” de 2013 e lançada por Anitta em seu segundo álbum de estúdio, “Ritmo Perfeito”.

A obscura e pessoal “Vozes na Sala de Estar”, vem logo em seguida, e entrega letras pesadas que também servem como um acerto de contas. Durante o refrão, o rapper rima: “Ouço vozes na sala de estar, sei que tem intrusos lá / Cheiro da maldade empesteando meu sofá / Eu desço a escada sem saber o que virá / Lá tá você se preparando pra me matar”. Em um dos versos mais tocantes, Projota fala sobre sua mãe, que faleceu quando ele tinha 7 anos de idade: “Mas eu vou compreender que a nossa historia tinha hora pra acabar (…) / Nunca quis te decepcionar, mas se a vida é assim”. A letra, a batida abafada, o piano sombrio, tudo colaborou para a entrega da canção mais sinistra do álbum. “Carta aos Meus” é a faixa mais antiga presente aqui, lançada primeiramente em 2009 no EP de mesmo nome. “Já me disseram que eu sou branco demais pra ser preto / Já me disseram que eu sou preto demais pra ser branco”, ele diz em um dos versos.

Filho de mãe branca e pai negro, ele cresceu entre brancos, e foi criado pelo pai e a avó, que é descendente de italianos. E no seu final, Projota ainda relembra a partida da mãe “Quase consigo ver, ela estava se preparando para nos deixar”. A música também conta com participação de Dado Villa-Lobos e riffs de “Tempo Perdido” do Legião Urbana. “Somos tão jovens, tão jovens”, Dado entoa o clássico refrão. Projota finalmente lançou o seu primeiro álbum de estúdio, “Foco, Força e Fé”, após percorrer o circuito underground e participar em batalhas de MCs. Ele já possui uma grande popularidade no país e é sem dúvida um dos melhores rappers brasileiros. Suas letras são poderosas, ele consegue transmitir bastante emoção, força e consegue tocar o ouvinte através de suas rimas. O disco foi muito bem produzido, é sofisticado, peculiar, energético, expressivo e com um ótimo acabamento. Os arranjos, os elementos de outros gêneros, as colaborações, tudo foi eficaz e contribuiu positivamente para a entrega de um dos melhores álbuns nacionais de 2014.

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Favorite Tracks: “Foco, Força e Fé”, “O Homem Que Não Tinha Nada (part. Negra Li)”, “Um Dia a Mais” e “A Rezadeira” e “Vozes na Sala de Estar”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.