Resenha: PJ Harvey – The Hope Six Demolition Project

Lançamento: 15/04/2016
Gênero: Rock Alternativo, Indie Rock, Folk Rock
Gravadora: Island Records
Produtores: Flood, John Parish e PJ Harvey.

Polly Jean Harvey, de 46 anos, mais conhecida por PJ Harvey, é uma artista britânica conhecida por suas grandes habilidades como vocalista e guitarrista. Ela começou sua carreira em 1988, quando se juntou a banda local Automatic Dlamini. Em 1991, ela formou um trio homônimo e, mais tarde, começou a sua carreira profissional. O trio lançou dois álbuns de estúdio, antes de se separar e Harvey continuar como artista solo. Lançado em 15 de abril de 2016, “The Hope Six Demolition Project” é o seu nono álbum de estúdio e o primeiro desde o aclamado “Let England Shake” de 2011. O título do disco é uma referência ao projeto HOPE VI dos Estados Unidos, onde a habitação pública em áreas com altos índices de criminalidade foi demolida para dar lugar a melhores condições de moradia. Entretanto, é um programa controverso, porque muitos dos moradores antigos não poderão voltar a viver lá. HOPE VI é diretamente referenciado na faixa de abertura e segundo single “The Community of Hope”.

A música surgiu após uma viagem de PJ Harvey para Washington D.C., com o fotógrafo e cineasta Seamus Murphy. Além de sua viagem para os Estados Unidos, Harvey também visitou outros países, como Kosovo e Afeganistão, em busca de inspiração para o álbum. Ao longo de 11 faixas, ela narra sua insatisfação com o mundo, através de um rock incrivelmente potente. O título pode se referir aos acontecimentos em Washington D.C., entretanto, também funciona como um resumo para o disco. Pois, como um todo, o registro mostra a cantora perdendo a esperança com o mundo. Ela nunca foi tão politizada em seus álbuns como esse, embora aqui ela seja mais uma testemunha do que uma ativista. O resultado disso tudo, foi a criação de um dos álbuns mais obscuros e desafiadores de sua carreira. A primeira faixa, “The Community of Hope”, abre o álbum com vibrações otimistas, uma agitada bateria e alegre guitarra, embora as letras sejam politicamente carregadas.

Com essa música, ela atraiu a ira de alguns políticos dos Estados Unidos, assim como gerou atenção internacional. Depois de observar um bairro de Washington, Harvey viu de perto a dura realidade nas áreas mais pobres do distrito. Naturalmente, ela conseguiu transportar essa experiência para a letra da música. “Aqui está o caminho da estrada da morte e destruição / Capital do Sul é o seu nome / E a escola parece um buraco de merda / Isso parece um lugar agradável? / Aqui está o velho manicômio / E a base de dados da Segurança Nacional”, ela canta em um dos versos. Em outros momentos, ela diz ironicamente: “Eles vão colocar um Walmart aqui”. A letra desta canção é realmente muito sombria, embora sonoramente seja bastante animadora. A segunda faixa, “The Ministry of Defence”, entra com um som muito mais grave. Um riff de guitarra incrivelmente poderoso permeia por toda a música, enquanto PJ Harvey descreve o vandalismo no Afeganistão.

PJ Harvey

A cantora fala sobre o vandalismo encontrado em edifícios abandonados no país, incluindo pichações, vidros quebrados, seringas, cabelo humano e drogas. Ela relata detalhadamente tudo que testemunhou durante sua passagem por lá. “Isto é como o mundo vai acabar”, ela canta. Ela tenta alertar que tudo que está acontecendo no mundo está levando a um final destrutivo. Além do estridente riff de guitarra, a música faz uso de um desconcertante saxofone e um coro excepcional. É uma das melhores e mais memoráveis canções encontradas no álbum. “Quando chegamos no campo / Nossos suprimentos não eram suficientes / Eu vi uma família refugiada / Comendo a pata de um cavalo morto”, Harvey canta na faixa “A Line in the Sand”. Nesta canção, em especial, a voz dela é posicionada no centro das atenções. Ela conta uma história sobre uma família de campo de refugiados, que vêem de perto as atrocidades que acontecem em lugares como este.

A cantora tenta retratar toda a luta que eles sofrem para sobreviver e conseguir comida. Seu alcance vocal nesta música permitiu-lhe apresentar com maestria uma história tão realista como esta. Na faixa “Chain of Keys” Harley compartilha os vocais com a sua banda de apoio. Ao longo da canção temos uma marcha de tambores e um saxofone murmurando ao fundo, enquanto a cantora é fortemente apoiada pelos backing vocals. Toda a atmosfera causada pelos vocais de apoio dão uma sensação grandiosa, muitas vezes encontrada nas músicas de PJ Harvey. Aqui, ela canta sobre uma velha senhora de Kosovo que guarda as chaves de seus vizinhos falecidos, na esperança de que um dia eles irão voltar. “O chão empoeirado é um caminho sem saída / Os vizinhos não vão voltar”, ela declara. Fazendo referência a um rio de Washington, a faixa “River Anacostia” flui através de uma agradável batida tribal de tambor. Um canto fúnebre masculino introduz o tom geral, antes dos tambores ditarem o ritmo.

PJ Harvey, por sua vez, canta de forma angelical sobre uma discreta e constante linha de teclado. Ela cria um fluxo encantador e imagina Jesus realizando um milagre, ao atravessar as águas sujas de um rio americano: “Um pequeno sol vermelho abre caminho para a noite / Trilhas longe como uma luz de cauda / É Jesus sobre a água / Conversando com as árvores caídas?. A letra exala sentimentos pessimistas a respeito do meio ambiente, enquanto o som geral desaparece da mesma forma que começou. “Near the Memorials to Vietnam and Lincoln”, sexta faixa, é curiosamente atraente e brilhante em sua própria maneira. Rapidamente, a canção mergulha nos vocais angelicais de Harvey e sua banda. Seu refrão é certamente um dos mais excêntricos, marcado pelo repetitivo uso do título. Instrumentalmente, o seu som é simples e marcado pela presença da guitarra, teclado e flauta. Liricamente, é outra música profunda que representa um momento de auto-consciência de Harvey como turista e espectadora.

“The Orange Monkey” apresenta uma letra mais otimista e mostra um outro lado do conteúdo lírico do álbum. Ela tenta explicar suas ideias, redigindo através de metáforas e termos místicos. Ela diz que visita outros países a fim de realmente compreender esses lugares. “Me disse que para entender / Você deve viajar de volta no tempo / Peguei um avião para uma terra estrangeira / E disse: “Eu vou escrever o que eu acho”, ela canta. O simbolismo e metáforas são conceitualmente utilizados para expressar suas ideias e visões. A música soa quase acústica, pois seus tambores parecem ter sido gravados usando apenas um microfone ambiente. A bela melodia é emparelhada com uma guitarra polida, que lembra algumas músicas da década de 60 e 70. A voz de Harvey soa incrível e flutua, mais uma vez, sem grandes esforços. Mais uma vez, ela é fortemente apoiada por seus backing vocals, algo que contribuiu para a criação de um som rico e sedutor.

PJ Harvey

Em “Medicinals”, faixa mais curta do repertório, a voz de Harvey surge ao lado de uma poderosa linha de saxofone. É um folk-rock com influências de jazz, que aborda um pouco mais sobre o passeio da cantora em Washington. É outra reflexão sobre o passado e presente, onde ela observa as plantas nativas que crescem em locais cheios de turistas. “Eu estava andando pelo shopping nacional / Pensando em produtos medicinais e como eles costumavam crescer lá / Quando o chão era uma região pantanosa, sem ser perturbado por mãos humanas”, ela canta no primeiro verso. A próxima faixa, “The Ministry of Social Affairs”, exala uma óbvia influência do blues, graças ao ritmo pisante e apoio acústico. O saxofone jazzístico também aparece para dar suporte e complementar a estrutura da canção. Inicialmente, sua batida serpenteia através de amostras da música “That’s What They Want” de Jerry McCain. Escrita com base em sua visita no Afeganistão, é um destaque pela singularidade e competência musical. Diferente de outras canções aqui, ela exala uma potência musical tipicamente infalível.

Liderado por um complexo de saxofone, guitarras e pulsantes batidas de tambor, “The Wheels” traz o repertório para o fim em grande estilo. Essa música é uma das mais acessíveis ao grande público, por isso foi a escolhida para primeiro single do álbum. É uma canção bastante influenciada pelo rock and roll das décadas de 60 e 70, e diferente o suficiente para agradar um público mais casual. Sua intensidade lírica chama muito atenção, uma vez que pinta imagens doentias, aponta para rumores de desaparecidos e menciona assassinatos. A letra é possivelmente inspirada pela viagem no Afeganistão, conforme ela canta: “Um quadro dos desaparecidos / Amarrado ao prédio do governo / Oito mil fotografias branqueadas pelo sol / Desvaneceu-se com as rosas”. “Todas as minhas palavras são engolidas”, Harvey declara na faixa “Dollar, Dollar”. Uma canção introspectiva e down-tempo, que fecha o álbum com uma nota sombria. Não há dúvidas que em termos artísticos, essa é uma das faixas de destaque do registro.

Aqui, a cantora conta a história de um menino, perdido em meio ao trânsito, implorando por ajuda. Sua voz é acompanhada por um saxofone e sons de ruas, algo que trabalha em prol das emoções da letras. “The Hope Six Demolition Project” foi uma jogada bastante ousada e ambiciosa por parte de PJ Harvey. Ela nunca teve medo de expor suas opiniões e, este novo disco, é uma prova disso. As letras são fortes, sombrias e obscuras, e ela conseguiu colocá-las perfeitamente dentro do contexto e cenário das histórias envolvidas. Musicalmente, o álbum é gigante, pois para cada música e história apresentada, há uma ótima execução dos instrumentos. Toda a estrutura das canções aparentam ter sido criadas com o máximo de cuidado. PJ Harvey conseguiu superar as expectativas com este projeto, pois expôs com propriedade seu ponto de vista com relação a determinados problemas do mundo. Ela retratou mensagens que valem a pena serem ouvidas e, por este e outros motivos, “The Hope Six Demolition Project” pode ser considerado um disco maravilhoso.

79

Favorite Tracks: “The Community of Hope”, “The Ministry of Defence”, “Chain of Keys”, “River Anacostia” e “The Wheels”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.