Resenha: Pitty – SETEVIDAS

Lançamento: 03/06/2014
Gênero: Rock Alternativo, Hard Rock
Gravadora: Deckdisc
Produtores: Rafael Ramos e Tim Palmer.

Depois de quatro anos sem nenhuma música inédita, Pitty lançou em junho de 2014 o seu quarto álbum de estúdio, intitulado “SETEVIDAS”. “Tô muito apaixonada pelo disco, meio boba ainda”, diz a cantora. “Na real, é um disco muito doído. Mas um disco de resiliência também”, confessa ela, em referência ao ano de 2013, que foi complicado e marcado por fortes processos de transição. “Muita coisa morreu, muita coisa renasceu e esse processo é dolorido. Foram muitas situações de superação, pessoais e externas. Tem uma coisa de alquimia, de que, pra se transformar em ouro, tem que passar por outras fases”, reflete. “Mas é um dia de cada vez e tá todo mundo feliz e realizado em relação ao disco”. Dentre os acontecimentos que balançaram a cantora, tem a morte do músico Peu Souza, um amigo de longa data com quem tocou no início da carreira, e a turbulenta saída do baixista Joe da banda, com direito a processo judicial. A cantora Pitty publicou um texto em seu site desenvolvido em meio a temática do seu primeiro single.

No texto, poético e sensacionalmente instigante, ela nos rodeia do número sete em todos seus significados, dando a pista para a música nova, chamada “Setevidas”. Em suas publicações, Pitty usou o misticismo e fez referências bíblicas envolvendo o número sete, alusão ao também nome do disco. Produzido por Rafael Santos, “Setevidas” foi gestado de uma maneira diferente dos álbuns anteriores. Com uma pré-produção muito bem feita, a banda só chegou ao estúdio para gravar quando as canções estavam fechadas. Foi tudo gravado ao vivo, sem nenhum artifício. Com o material gravado, Pitty partiu para os Estados Unidos, onde em Austin, Texas, trabalhou com Tim Palmer (que traz em seu currículo Pearl Jam, U2, David Bowie e Ozzy Osbourne), responsável pela mixagem e por vários detalhes do álbum. De lá voou para Nova Iorque, onde a masterização foi realizada por Ted Jansen no Sterling Sound, estúdio de referência no segmento. “O som é ‘garageiro’, mas com uma elegância. Peguei o melhor dos dois mundos”, diz Pitty.

Pitty 2

Segundo a cantora, o baixista Guilherme também acrescentou mais refinamento aos arranjos de todas as músicas. O refinamento, no entanto, não tirou o peso das baquetas de Duda ou as guitarras distorcidas de Martim, que aparecem muito ao longo do disco. “Setevidas” é o primeiro álbum de inéditas da banda desde o “Chiaroscuro”, de 2009. Excelente notícia para os fãs que estavam carentes do som rock da banda, afinal, a cantora nos últimos três anos dedicou-se apenas ao seu projeto folk, o Agridoce. Uma curiosidade é que a capa do “Setevidas” estampa a gata Preta da baiana, que faleceu pouco tempo depois das sessões de fotos. “Montei todo cenário, apertava a câmera, ia pra posição da foto e, toda vez, ela chegava pro meu lado. Depois, fez todo sentido, ela estava querendo se despedir”, disse a cantora. O álbum tem um total de 10 faixas e abre com “Pouco”, uma música que começa em alta rotação e com ênfase nas guitarras.

Fala sobre o desejo de se ter o controle da própria vida, sobre persistir e sempre querer mais. Possui riffs marcantes, no entanto, não é um destaque se comparado às outras faixas. “Deixa Ela Entrar” é um rock mais melodioso e o que mais lembra os trabalhos anteriores da banda. Uma música calma, com a guitarra e bateria em boa sincronia com a bonita voz de Pitty. Aqui ela fala sobre a sensação de quando temos sorte na vida: “E se a sorte aparecer, deixa ela entrar / Me coloco a sua mercê, deixo ela entrar / Pela fresta que se abriu, deixa ela entrar / Antes hoje do que nunca mais”. A terceira faixa, “Pequena Morte”, fala sobre o orgasmo em forma de metáfora – “O bom é que depois o final é a pequena morte lenta de nós dois” – com destaque para o baixo e o vocal de Pitty, que continua espetacular. Em seguida, temos a faixa “Um Leão”, que lembra bastante o som do “Chiaroscuro” e,  além de ter uma letra inspiradora, possui um bom instrumental.

Fala sobre flertar com o perigo e se arriscar dentro de um relacionamento, mesmo com a possibilidade de se ferir com isto (“Eu quis, no alvo estou / Foi por um triz, só arranhou / Na mão do atirador / As facas que eu mesma concedi”). “Lado de Lá” encerra a primeira parte do álbum com uma sonoridade meio progressiva, marcada por um piano e a mistura do rock de Pitty com o seu projeto Agridoce. É uma canção bem emocionante, escrita para expressar os sentimentos da cantora à respeito do suicídio de seu antigo colega de banda. Sua letra realmente toca o ouvinte, em especial, nos versos: “Quem sabe a dor venceu / Pra que essa pressa de embarcar / Na jangada que leva / Pro lado de lá”. A sexta faixa, “Olho Calmo”, tem uma letra forte, uma guitarra pesada e um vocal incrível. O seu ambiente meio sombrio é um destaque, provavelmente a melhor canção do álbum. Seus versos doces, calmos, alinharam-se muito bem ao explosivo e libertador refrão, que aparece na hora certa. Sua letra fala sobre aqueles que precisam relaxar e não se importar com coisas totalmente desnecessárias.

Pitty

Em “Boca Aberta” Pitty fala sobre ansiedade, uma canção que possui uma atmosfera meio tensa. É uma boa música, envolvente e com uma vibe agradável, apenas o refrão deixa um pouco a desejar. “A Massa” é uma música crítica, onde a banda ataca o materialismo através de um agitado riff de guitarra e uma grandiosa bateria. Essa tem a letra mais legal e despojada do álbum. A interpretação de Pitty também está muito bacana e o bom refrão praticamente chama o ouvinte para cantar junto. A faixa-título, “Setevidas”, explora um lado mais melancólico e conta com a contribuição do saxofone de Carlos Malta. Sua melodia é excelente, cativante e o vocal de Pitty está, mais uma vez, incrível. Sem dúvidas, é um dos pontos alto de todo álbum. Finalizando, temos a música “Serpente”, um verdadeiro hino e a mais original do disco. Aqui, Pitty é ousada ao explorar a percussão com um belíssimo coro. Uma música calma e motivadora que briga com “Olho Calmo” pelo posto de melhor canção do registro.

“Chega dessa pele, é hora de trocar / Por baixo ainda é serpente / E devora a calda pra recomeçar / Pelo fogo, transmutação / Sem afago, lapidando o aprendiz / O que sobra, é cicatriz / A sustentação é que amanhã já vem”, a letra é formidável. O vocal feliz e otimista, combinado com instrumentais mais leves deram um toque inspirador para a canção. “SETEVIDAS” mescla o rock com o pop, é equilibrado, diferente e mesmo destacando-se pelas guitarras pesadas, ainda é bastante comercial por causa das suas melodias fáceis de cativar. Depois de se dedicar ao projeto Agridoce, Pitty retornou ao cenário musical mostrando que ainda tem muito a oferecer ao público. O álbum está realmente ótimo e mostra, mais vez, um bom crescimento e amadurecimento como artista por parte dela e da banda. Me surpreendi positivamente com esse trabalho desafiador, pois eles mostraram que podem, definitivamente, representar o rock nacional.

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Favorite Tracks: “Deixa Ela Entrar”, “Pequena Morte”, “Olho Calmo”, “Setevidas” e “Serpente”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.