Resenha: Pink Floyd – The Endless River

Lançamento: 07/11/2014
Gênero: Rock Progressivo, Música Ambiente, Blues Rock, Rock Psicodélico
Gravadora: Parlophone / Columbia Records
Produtores: David Gilmour, Youth, Andy Jackson e Phil Manzanera.

“The Endless River” é o décimo quinto álbum de estúdio da banda Pink Floyd, lançada pela Parlophone e Columbia Records, em 07 de novembro de 2014. É o primeiro álbum da banda desde a morte do tecladista e fundador Richard Wright, que aparece postumamente, e o terceiro liderado por David Gilmour após a saída de Roger Waters da banda em 1985. Descrito como um “canto de cisne” para Wright, “The Endless River” é composto principalmente pela música instrumental. Ele é baseado em 20 horas de material inédito do Pink Floyd, gravado e produzido com Wright durante as sessões para o álbum anterior, “The Divison Bell” (1994). O material foi retrablalhado em 2013 e 2014 nos estúdios de Gilmour na Inglaterra, sendo produzido por ele, Youth, Andy Jackson e Phil Manzanera (guitarrista do grupo de glam rock Roxy Music). O álbum foi divulgado através das redes sociais e depois formalmente em um anúncio oficial da banda. Pink Floyd, ao lado das gravadoras Parlophone e Columbia, lançaram uma campanha promocional com anúncios e instalações da capa do álbum em cidades ao redor do mundo, incluindo Londres, Nova York, Paris, Berlim e Milão. O álbum tornou-se o mais vendido na pré-venda da Amazon do Reino Unido e estreou em #1 em diversos países.

Nos Estados Unidos, o disco frequentou a posição #3 da Billboard 200, com vendas de 170 mil cópias em sua primeira semana. A edição em vinil foi o lançamento mais vendido do Reino Unido de 2014 e o mais rapidamente comercializado desde 1997. O mundo todo conhece o Pink Floyd, uma das bandas de maior sucesso comercial, aclamação da crítica e influência musical de todos os tempos. Eles alcançaram a fama internacional com sua música progressiva e psicodélica, distinguidos por seu uso de letras filosóficas, experimentações sonoras, composições extensas e shows elaborados. A banda foi fundada em 1965 por Syd Barrett, Nick Mason, Roger Waters e Richard Wright, em Cambridge, Inglaterra. Eles ganharam notoriedade na cena musical underground de Londres durante a década de 1970, enquanto David Gilmour juntou-se como quinto membro em dezembro de 1967. Barrett deixou a banda em abril de 1968, devido à deterioração de sua saúde mental agravada pelo uso de drogas, vindo a falecer de diabetes em julho de 2006 aos 60 anos. Rogers Waters se tornou letrista principal da banda e, em meados da década de 1970 o compositor dominante, com elaboração de conceitos por trás da aclamação e sucesso comercial dos álbuns “The Dark Side of the Moon” (1973), “Wish You Were Here” (1975), “Animals” (1977), “The Wall” (1979) e “The Final Cut” (1983). Wright deixou o Pink Floyd em 1979, seguido por Waters em 1985, enquanto Gilmour e Mason continuaram com o Pink Floyd.

Posteriormente, Wright voltou para a banda e produziu mais dois álbuns com eles, o “A Momentary Lapse of Reason” (1987) e “The Divison Bell” (1994). David Gilmour anunciou o fim das atividades do grupo logo após a turnê de divulgação desse último disco. Porém, havia mais de 20 horas de sobras de estúdio que não haviam sido aproveitadas no “The Divison Bell”. O tecladista Richard Wright morreu em 2008, vítima de câncer, o que fez com Gilmour e o baterista Mason decidissem homenagear o amigo com o lançamento do “The Endless River”, composto pelas sobras do “The Divison Bell” e ajuda de alguns produtores. Tudo começou no íncio de 1993, quando Gilmour, Mason e Wright entraram em estúdio para gravar um álbum duplo. O primeiro deles, “The Divison Bell”, foi lançado em 1994, porém, o segundo, no caso o “The Endless River”, só veio a ser lançado 20 anos depois, em novembro de 2014. Composto por longas faixas instrumentais e arranjos que passeiam pela música ambiente, seu lançamento havia sido continuamente adiado pelo trio, que não terminou o material a tempo para a turnê e se dispersou.

Pink Floyd (1)

A morte de Wright fez com que a dupla remanescente se lembrasse daquelas horas de gravações juntos. Ou seja, o lançamento do “The Endless River” foi a forma como Gilmour e Mason encontraram para homenagear Richard Wright, seu grande amigo. Quase toda banda com carreira consistente como o Pink Floyd, tem uma gaveta com pedaços de canções, fraseados de guitarra ou refrões que não foram trabalhados até o fim. Inicialmente, o disco nasceu com o nome de “The Big Sliff”, título de uma das músicas com mais de 1 hora desenvolvida por Wright. Embora não esteja integralmente no álbum, ela é um dos focos desse novo trabalho. David Gilmour e Nick Mason entregaram o material a um trio de produtores, enquanto Polly Samson, esposa de Gilmour, colocou a letra em “Louder than Words”, única faixa cantada. Os temas instrumentais são arremedos do Pink Floyd de antigamente, assim como a percussão hipnótica e as guitarras. “The Endless River” não resultou em uma obra-prima, mas serviu como um ponto final digno para uma das maiores bandas da história da música popular.

Composto de 18 faixas na versão padrão, o álbum consegue realizar um feito bacana de criar algo novo, mas que abraça completamente o passado. E o mais importante, ele coloca o membro Richard Wright no topo da hierarquia do Pink Floyd. O repertório é caracterizado por ritmos deliberados e um som com bordas suaves, conseguindo transparecer suas emoções. A escassez lírica do álbum cooperou para Gilmour mostrar suas surpreendentes habilidades na guitarra. A faixa “Things Left Unsaid” abre o disco com uma citação de Wright, Gilmour e Mason. Ela coloca o ouvinte para lembrar do “Wish You Were Here”, com a guitarra de Gilmour marcando presença ao lado da inconfudível percussão de Mason. A incrível “It’s What We Do” também evoca memórias do disco “Wish You Were Here” de 1975, em especial, a faixa “Welcome To The Machine”. “Ebb and Flow”, por sua vez, poderia ser uma reprise minimalista de “Us and Them”, enquanto “Sum” é jogada como uma versão mais leve de “One of These Days” do “Meddle” (1971).

Pink Floyd in 2014

Os sintetizadores de Wright aparecem como satélites em órbita antes do trabalho de Mason na faixa “Skins”, outro delicioso momento do disco. “Unsung” aparece ligeiramente dentro de 66 segundos para anteceder um dos melhores momento do repertório: a faixa “Anisina”. Essa apresenta um solo de guitarra alto e excelente de David Gilmour, enquanto um órgão e o saxofone de Gil Atzmon atingem um pico triunfal. Outra característica presente de Wright é o piano solene em “The Lost Art of Conversation”, no mesmo passo que “On Noodle Street”, com sua ranhura espaçosa, é o mais próximo que o Pink Floyd pode chegar do jazz. A abordagem de Gilmour na guitarra de “Night Light” lembra “Coming Back to Life”, faixa do “The Divison Bell”. Enquanto a melhor sequência do álbum começa por “Allons-y”, que ainda possui a segunda parte. Trabalhada no teclado, é um arranque para o momento majestoso que temos na faixa “Autumn ’68”. Essa possui arrepiantes gravações perdidas de Richard Wright tocando órgão no Royal Albert Hall. Simplesmente maravilhoso e nostálgico. Stephen Hawkins aparece em “Talkin’ Hawkin'”, cortesia de seções não utilizadas do discurso que foi usado pela primeira vez em “Keep Talking” do “The Divison Bell”.

A faixa “Calling”, por sua vez, pode ser interpretada como um retorno mais estruturado para o rock psicodélico do disco “Meddle”. “Eyes for Pearls” também volta no tempo, com seu ambiente misterioso, acenando para “Set The Controls For The Heart of the Sun” e “One of These Days”, entretanto, termina antes que tenha a chance de ficar interessante. “Surfacing” tem sido comparada com “Uknown Song”, da trilha sonora de Zabriskie Point, mas eu diria que lembra mais “Poles Apart” no que diz respeito às camadas de guitarra acústica. A última faixa é a única cantada, “Louder Than Words”, que traz letras escritas de Polly Samson e uma direção vocal solitária de Gilmour. As melhores músicas do Pink Floyd tiveram letras que eram estranhas e de outro mundo, repletas de metáforas e referências esquisistas. Porém, “Louder than Words” aparece com escritas sobre amizade, ego e, talvez, uma percepção do público quanto à banda (“The beat of our hearts / Is louder than words”). É uma ótima canção rock, com bons sintetizadores e propícia para o fim do repertório.

Para quem olha para o Pink Floyd pós-Waters este instrumentais podem ser algo que realmente estavam esperando. Para os fãs do “The Divison Bell” é, no mínimo, um disco bônus ou uma continuação. Talvez a coisa mais interessante sobre o registro foi a decisão da banda para divulgá-lo e promovê-lo como um álbum instrumental, com exceção da faixa vocal no final. Não deve haver muitas bandas de sua estatura que poderia ir longe com isso, especialmente, dada a forma que a visão lírica sombria de Roger Waters definiu a banda em meados dos anos 1970 em diante. E é absolutamente uma verdadeira emoção ouvir mais um novo material de um dos maiores atos da história da música. Este álbum é uma experiência musical atraente e assombrosa, com texturas em camadas e combinações encantadoras de ritmos e melodias variadas. Outra coisa importante sobre este projeto é a forma como ele lembra, em seu próprio jeito, tudo o que fez o Pink Floyd ser tão fantasticamente estranho e intrigante. E se é um disco que olha para trás mais do que para frente, seus criadores o usaram como uma espécie de reprise. Logo, para um grupo tão adorado mundialmente, o “The Endless River” é um adequado e emocional fim para sua trajetória cheias de glórias e conquistas.

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Favorite Tracks: “It’s What We Do”, “Anisina”, “Autumn ’68”, “Talkin’ Hawkin'” e “Louder Than Words”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.