Resenha: Papa Roach – F.E.A.R.

Lançamento: 27/01/2015
Gênero: Rock Alternativo, Metal Alternativo, Hard Rock, Rap Rock
Gravadora: Eleven Seven Music
Produtores: Kane Churko e Kevin Churko

A banda californiana Papa Roach, formada por Jacoby Shaddix, Jerry Horton, Tobin Esperance e Tony Palermo, chegou ao sucesso comercial em 2000 com o álbum “Infest”. O disco chegou a vender mais de 3 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos e teve alguns hits, incluindo o single de estreia “Last Resort”. Agora, em 2015, a banda lançou em 27 de janeiro o seu oitavo álbum de estúdio, intitulado “F.E.A.R.” (Face Everything and Rise). Ele estreou em #15 na parada da Billboard, com vendas de 24 mil cópias na primeira semana, e chegou para suceder o disco “The Connection” de 2012. “F.E.A.R.” começou a ser gravado em fevereiro de 2014, quando a banda anunciou que estava indo para o estúdio. Em 30 de agosto do mesmo ano, foi revelado que a faixa-título seria o primeiro single e que o vídeo seria co-dirigido pelo vocalista, Jacoby Shaddix. Em seguida, o álbum foi transmitido no YouTube em 22 de janeiro de 2015, cinco dias antes do seu lançamento oficial. Desde que surgiram no final dos anos 1990, juntamente com um bando de outras bandas de nu-metal e rap-rock, Papa Roach tem exibido uma grande quantidade de poder de permanência na indústria.

Porém, em meados dos anos 2000, o grupo abandonou o rap do seu som para, assim, explorar um estilo mais tradicional de hard rock. Com o álbum “Metamorphosis”, inclusive, eles já tinham se afastado bastante do rap-rock do seu hit “Last Resort”. Foi nesse álbum que a banda flertou com elementos mais pop, embora outras faixas ainda testemunhavam que o grupo era viril na guitarra de Jerry Horton. Em termos de produção, o “F.E.A.R.” é mais parecido com o seu antecessor (“Connection”) e é muito melhor que o “Metamorphosis”. Ele foi produzido por Kevin Churko, que já trabalhou com Ozzy Osbourne e Five Finger Death Punch, com a ajuda do seu filho, Kane Churko. É um projeto escuro, agressivo, que permanece consistente em um tom angustiado e raivoso, algo que a banda ofereceu muito durante a última década. Apesar de algumas exceções, ele também mostra a banda se afastando do nu metal e rap, algo que definiu seus primeiros lançamentos. Em vez disso, “F.E.A.R.” explora sons mais eletrônicos em um movimento que demonstra a vontade da banda em experimentar novas coisas.

O principal problema com o “F.E.A.R.” é que, embora consiga oferecer algumas músicas legais, não há nada suficientemente interessante nele que justifique diversas escutas repetidas. Felizmente, o seu cumprimento curto, formado apenas por 10 faixas e 37 minutos, faz com que ele seja mais fácil de se ouvir e sem deixar o ouvinte entediado. Liricamente, eles nunca foram fortes, mas temos algumas mensagens evidentes aqui, como esperança, pecado, perdão e empatia. A faixa-título, “Face Everything and Rise”, foi o primeiro single e também é abertura do álbum. Essa é uma das canções mais ressonantes e comerciais do registro, e fornece ao ouvinte um tema de superação de obstáculos. Preocupado com o estado do mundo, Jacoby Shaddix conta um história torturante sobre a realidade da vida. Aqui, ele canta com um vocal comprimido sob uma melodia ambiente que cresce de forma estridente junto da guitarra elétrica. As letras expressam uma profunda preocupação com tudo o que está acontecendo ao seu redor e na vida pessoal de alguém. Depois de uma introdução melódica e algumas varreduras eletrônicas ao fundo, o refrão aparece e transforma a música em um hino motivacional.

Papa Roach

No refrão a letra diz: “Eu enfrentarei tudo e ascenderei / Nunca desistirei até eu morrer / Anjos continuam caindo do céu / Pegarei suas asas quebradas e aprenderei a voar / Eu enfrentarei tudo e ascenderei”. A música em si é uma boa composição e contém muita adrenalina, algo gerado pela percussão sólida de Tony Palermo e dos típicos riffs de Jerry Horton. Em seguida, Papa Roach chega ao seu núcleo com a faixa “Skeletons”. Essa música soa bem, graças ao som melódico rotineiro da banda. As letras explicam como o mecanismo de defesa humano se fecha contra pessoas e como o amor tem o poder de derrubar os muros que construímos para, supostamente, nos proteger. Percebemos que seu conteúdo lírico é mais profundo e cheio de interpretações. “Skeletons” acaba sendo um bom acompanhamento para a faixa anterior, visto que Shaddix traz à tona questões pessoais. Sonoramente, a música é pesada, escura e energética. Ela também fornece arranjos nervosos e uma melodia motriz, no entanto, seu ritmo é um pouco mais lento, se comparado a “Face Everything and Rise”. Ninguém é perfeito na mente do vocalista Shaddix, razão pela qual ele canta sobre perdão em “Broken As Me”.

O verso introdutório se assemelha a melodia que ouvimos em “I Almost Told You That I Loved You”, do álbum “Metamorphosis”, enquanto o refrão semi reconfortante diz: “Vou perdoar e esquecer / Porque eu sei que ele vai me libertar (…) / Você assassinou meu coração / Quebrou minha confiança e me viu desaparecer / Agora eu vejo, agora eu vejo / Que você é tão quebrado quanto eu”. A música flui de forma desbotada, possui uma melodia profunda e uma mistura techno de tambores pesados com o baixo sedutor de Tobin Esperance e o trabalho de guitarra de Jerry Horton. Os vocais de Shaddix, em tons escuros e altos gritos, abrem caminho para uma melancolia que paira sobre a canção. Essa faixa não tem nada que possa ser considerado inovador ou espetacular, entretanto, fez o seu trabalho ao ser um simples e contundente single. O álbum continua a cumprir as expectativas com canções sobre auto-conhecimento, como podemos ouvir em “Falling Apart”. Essa é, sem dúvida, uma das mais diferentes músicas que ouvimos do Papa Roach e é muito convincente, uma vez que nos leva através de uma viagem.

Tony Palermo afirmou que esta canção é uma das “mais progressivamente músicas que já escrevi”, enquanto Tobin Esperance disse que “é uma música muito rítmica e realmente divertida de se tocar”. “Falling Apart” adiciona uma borda mais contemporânea ao som agora envelhecido da banda e, simultaneamente, dá ao ouvinte um refrão bem cativante. Sua natureza otimista, apesar da letra, concentra-se em um forte sentimento de euforia genuína expressa pelo trabalho vocal de Shaddix. Mais tarde, complementando os vocais dele ainda temos fortes arranjos, furiosos riffs de hard rock e teclas. É uma das faixas mais melodiosas e pop do “F.E.A.R.”, embora ainda seja pesada, escura e ofereça uma história lírica enlouquecida para o público mergulhar. Depois de ouvir as três primeiras faixas do “F.E.A.R.”, não faria sentido esperar um registro cheio de riffs e amostras distorcidas que prestam homenagem ao “Infest”, mas o Papa Roach ainda oferece algumas surpresas. “Love Me Till It Hurts”, por exemplo, é uma balada de boa fé, que mostra a destreza lírica de Shaddix ao lidar com fortes emoções. Esta faixa concentra-se em precisar de alguém nos piores momentos da vida, uma canção de amor absoluta articulada por letras sinceras e uma monstruosa percussão de Palermo.

O refrão é uma boa mistura de bateria, guitarra e ótimas melodias, que estão destinadas a serem cantadas inteiramente por seus fãs. Esse não seria um registro verdadeiro do Papa Roach sem uma obrigatória balada sentimental, por isso, a próxima faixa, intitulada “Never Have to Say Goodbye”, faz este papel. Ela traz o ritmo do álbum um pouco para baixo e é, liricamente, uma carta aberta totalmente triste e emocional. A música abre com uma batida abafada e um teclado simples que nos levam para um ótimo clímax durante o refrão. Ela realmente funciona como uma balada típica da banda, portanto, aqueles que gostam de suas baladas do passado, também irão se agradar dessa. Toda a sua composição faz ela soar como a faixa mais mainstream do “F.E.A.R.”, assim como sua letra revela problemas pessoais sobre devoção amorosa, mesmo durante momentos sombrios da vida. Um grande tema quando a banda considera circunstâncias de perder alguém por causa da morte (“Nós nunca teremos que dizer adeus / Porque eu posso te sentir da vida após a morte / E eu só quero dizer que, a cada dia / Você me faz olhar mais profundamente”).

Papa Roach

“Gravity”, com Maria Brink, é talvez o rumo mais interessante e impactante para o álbum tomar. Quem não está familiarizado com as primeiras inclinações do Papa Roach em direção ao rap-metal pode ser pego de surpresa com esta canção. A mudança súbita de Shaddix ao fazer um rap poderia fazer o álbum soar menos coeso, entretanto, é possivelmente o melhor e mais forte momento do cantor durante as 10 faixas. Consequentemente, “Gravity” nos leve de volta para o início dos anos 2000, quando a banda lançou o single “Last Resort”. Esta música é um momento crucial para o álbum, porque é onde Papa Roach mostra todos os componentes que fizeram eles tornarem quem são hoje. As letras são um pouco sem inspiração, mas os vocais deste dinâmico dueto são uma mudança bem-vinda para o repertório. O rap, a produção old-school e a vibração hip-hop nos versos, misturado com o refrão melódico e a contribuição desenfreada de Maria Brink, adicionaram um elemento extra e notável para a canção. Em seguida, “War Over Me” faz uma declaração definitiva e o álbum tenta aprofundar-se liricamente: “Desde o dia em que nasci / Eu morreria só para viver, só para sangrar / Eu vou lutar pela minha vida / Transforme minha escuridão em luz / Isto é guerra, é uma guerra sobre mim”. Instantaneamente, o single “Scars” de 2004 poderá vir à mente.

Após duas canções relativamente mais calmas, o ritmo aumenta novamente com esta faixa. Ela fornece um pouco de hard rock no refrão e abre com uma mistura orquestrada com pesados tambores, uma forte linha de baixo e animados riffs de guitarra. É uma boa canção, porém, não oferece nada do que álbum ainda não mostrou até aqui. Abrindo com graves intensos temos a faixa “Devil”, que mostra a diversidade vocal que Shaddix pode oferecer. Sua introdução é mais lenta que as demais e define uma ranhura global mais suave, embora o refrão seja cantado em um tom mais agressivo. A letra é simples, mas muito poderosa e bastante auto-reflexiva: “Você pensou que eu era um alvo fácil / Agora eu sei quem você é, quem o diabo é / Você pode tentar tirar a minha salvação / Você pode tentar tirar tudo / Eu não estou dormindo à sua tentação / Porque eu sei quem você é, quem o diabo é”. O álbum termina sua jornada com a faixa “Warriors”, colaboração da banda com o rapper americano Royce da 5’9. Nesta canção temos fortes aspectos eletrônicos reaparecendo, que quase parecem totalmente adaptados para um ambiente EDM.

No entanto, esta também é uma das poucas faixas do “F.E.A.R.” que vemos o retorno da banda às suas raízes rap, algo fortalecido pelas contribuições de Royce da 5’9. Juntos eles oferecem uma grande variedade de sons, vocais distorcidos, sintetizadores e melodias eletrônicas. Não é, no entanto, um representante do álbum de qualquer forma. É uma explosão sonora cheia de energia, que talvez teria sido mais impactante no início e não no final do álbum. “F.E.A.R.” é um daqueles discos que não são necessariamente terríveis, mas também não são interessantes o bastante para ouvirmos diversas vezes. Embora não seja tão abaixo da média quanto o “Metamorphosis”, ele transmite a sensação de que o Papa Roach está fazendo exatamente as mesmas músicas há uma década. Claro, as letras são um pouco mais edificantes e auto-reflexivas, devido às lutas pessoais do vocalista e a produção mais polida, entretanto, é o mesmo rock mainstream de sempre. É um material coeso, isso não dá para negar, as dez faixas conseguem complementarem uma a outra, e cada uma consegue contar uma história pessoal da qual os ouvintes podem se relacionarem. Enfim, no geral, “F.E.A.R.” é um material inofensivo e de fácil digestão, mas que não é tão memorável quanto os melhores álbuns da discografia da banda.

60

Favorite Tracks: “Face Everything and Rise”, “Skeletons”, “Falling Apart”, “Never Have to Say Goodbye” e “Gravity (feat. Maria Brink of In This Moment)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.