Resenha: OK Go – Hungry Ghosts

Lançamento: 14/10/2014
Gênero: Pop, Synth-rock Disco
Gravadora: Paracadute / BMG Rights Management
Produtores: Dave Fridmann e Tony Hoffer.

A banda americana de rock alternativo OK Go lançou em outubro de 2014 o seu quarto álbum de estúdio. O registro foi lançado sob a própria gravadora, a Paracadute e produzida por Dave Fridmann e Tony Hoffer. É o primeiro trabalho do grupo em quatro anos, o seu último disco foi o “Of the Blue Colour of the Sky” de 2010. “Hungry Ghosts” é um álbum conceitual, com 12 faixas, sendo liricamente, em sua grande parte, sobre os prós e contras de um relacionamento. Possui uma abordagem mais moderna e eletrônica se comparado aos seus trabalhos anteriores, sendo gravado em um período de três anos na Tarbox Road Studios de Friedmann, em New York. O disco estreou na modesta #74 posição da Billboard 200, enquanto o primeiro singles, “The Writing’s on the Wall”, ganhou um prêmio de “Melhores Efeitos Visuais” no último MTV Video Music Awards, realizado em agosto de 2014. Para quem não conhece a banda, o OK Go surgiu em Chicago, Illinois em 1998, porém, atualmente, residem em uma sede na Califórnia. É composta por Damian Kulash (vocais e guitarra), Tim Nordwind (baixo e vocal), Dan Konopka (bateria) e Andy Ross (guitarra e teclado). Ross juntou-se à banda somente em 2005, substituindo Andy Duncan.

OK Go é muito conhecido por seus vídeos musicais, que são extremamente peculiares e elaborados. Inclusive, o videoclipe da música “Here It Goes Again” foi responsável por dar à eles o seu primeiro Grammy Award em 2007. Mesmo dada a sua série de vídeos incrivelmente coreografados e artisticamente executados, é difícil esquecer o verdadeira talento de OK Go em fazer bons álbuns. Logo, no “Hungry Ghosts” o OK Go ainda continua a impressionar. Trabalhando mais uma vez com Dave Fridmann, o quarteto entregou outro material melodicamente satisfatório e atraente. As canções presentes aqui provam que essa versátil e encantadora banda sabe como fazer um álbum sólido. Quase todas as faixas são engenhosamente trabalhadas e divertidas, eles são realmente brilhantes. E não apenas isso, eles também são imensamente criativos, algo que reflete inteiramente em suas músicas e vídeos. O “Hungry Ghosts” pode não ser tão mágico quanto os seus dois primeiros álbuns, mas ele tem seus pontos fortes. Esse é apenas o quarto disco deles, mesmo possuindo 16 anos de carreira. Os cérebros criativos do grupo optaram recentemente em operar o seu próprio selo e deixar a gravadora Capitol Records, transmitindo um senso de independência desafiadora para si mesmos.

Musicalmente, “Hungry Ghosts” baseia-se em influências eletrônicas ainda mais do que seus antecessores. Faixas sem sintetizadores pesados são raras e os solos de guitarra de Andy Ross estão mais escassos. De qualquer maneira, em sua maior parte, o repertório é simplesmente delicioso e agradável de se escutar. “Hungry Ghosts” também me pareceu muito semelhante a bandas indie modernas, como o Foster the People, porém com um toque eletrônico prevalente. A maioria das canções são imediatamente cativantes e cheias de ganchos pegajosos. Por isso, com um álbum tão diversificado como este, selecionar uma música representativa ou até duas, torna-se um desafio. A canção mais moderna do conjunto é “Upside Down & Inside Out”, a maravilhosa faixa de abertura. Possui vocais distorcidos, sintetizadores pop e guitarras em erupção durante toda a sua execução. Ainda apresenta um refrão irresistivelmente empolgante, que cresce em você com muita facilidade. Essa música realmente me impressionou bastante, uma grande escolha para se começar o álbum.

OK Go (1)

O primeiro single, “The Writing’s On the Wall”, lançado em junho de 2014, é outro grande destaque do disco. Essa possui uma sensação eletrônica amplificada, com a introdução sendo entregue ligeiramente como uma reminiscência de um melancólico som do final dos anos 1980. Esse sabor oitentista é destacado principalmente por causa de sua bateria eletrônica e efeitos sonoros. “The Writings On the Wall” é realmente excepcional, reunindo uma musicalidade notável e uma letra séria e madura. Podemos até considerá-la como uma suave introdução para a nova direção musical do OK Go. A sincronicidade enlouquecida de palmas e riffs de guitarra nervosas em “Turn Up the Radio” também me agradou muito. É um dos momentos mais densamente eletrônicos do álbum e mostra que o brilho do OK Go é o fato de serem divertidos de uma forma inofensiva. A música ainda faz a banda levantar o repertório com seu grande coro (“Turn up the radio / And turn off the lights”), por isso esse título ritmicamente excitante.

Em “I’m Not Through” temos pequenos sons que evocam jogos de videogame, como Super Mario, e uma vibe descontraída, incluindo chocalhos implementados, que entretém o ouvinte. No entanto, seu refrão tímido, suave e suas principais características, o estilo funky polvilhado, os sintetizadores e a guitarra disco distorcida, não chegam a impressionar tanto como as três faixas anteriores. “Bright As Your Eyes” é um pouco melhor por conta da parte de cordas orquestrais que chegam a ser comoventes. As linhas de violino foram uma boa inclusão, pois forneceu algo de novo para o repertório. “I Won’t Let You Down”, sexta faixa, mergulha na disco music de forma brilhante. É sem dúvida uma das músicas mais cathy do registro. É uma música otimista e com atmosfera extremamente contagiante, os vocais de Damian Kulash estão realmente muito empolgantes aqui. A sua inclusão no meio da tracklist deu uma respiração altamente energizada e fresca, servindo perfeitamente como uma mudança de ritmo.

OK Go

A sonoridade de “If I Had A Mountain” soa quase como uma caixa de música e o seu estilo musical me lembrou, em alguns momentos, o cantor Prince. É uma canção sincera, mais lenta e melancólica, guiada por um piano cintilante e uma ruptura no baixo. É romântica e comovente, mas nada muito além disso. Porque quando a banda opta por algo mais silencioso, sacrificam sua grande criatividade para coro cheios de ganchos poderosos. Claro, que nem sempre isso é necessariamente uma desvantagem. “Another Set of Issues”, por sua vez, é uma canção que baseia-se no forte falsete de Kulash e um arranjo escasso com simples tambores. O baixo sintetizado, que praticamente rosna, foi uma interessante colocação para deixar a música mais forte. A sedutora “Obsession” é outro destaque, um número lento, porém furtivo, repleto de sintetizadores e riffs de guitarra distorcidos. Além disso, ainda possui uma batida de bumbo constante e uma pitada de percussão latina que complementa os vocais sensuais e sussurrados de Kulash.

“The One Moment” se destaca pelas boas letras e a emoção genuína transmitida, podendo ser facilmente imaginada como trilha sonora de um grande filme. Musicalmente, é construída com algumas guitarras e acordes de piano, que permitiram a voz de Kulash demonstrar um desempenho apaixonante. Em “The Great Fire” temos um início eletrônico em linha reta e um sintetizador viciante, assim como um solo de guitarra muito emotivo. É outra boa música que ainda traz uma letra poética, justaposta e bem destacada pelo baixo distorcido, que ofereceu uma ideia melódica convincente. A única coisa que não gostei muito em “The Great Fire” foram suas constantes oscilações, que ficaram parecendo um disco quebrado. A apropriadamente intitulada “Lullaby” fecha o disco como uma canção de ninar à base de guitarra acústica, uma verdadeira e delicada joia. É uma música que se concentra principalmente nas harmonias vocais, ao invés da escrita ou da instrumentação. A sua suave melodia é tão doce que consegue evocar sentimentos como nostalgia, saudade e amor. Foi uma nota de fechamento absolutamente sincera, que sente-se especial e verdadeira em comparação com o resto do álbum.

“Lullaby” é um pequena ilustração de quão impecável e versátil a banda OK Go pode ser. Logo, é seguro dizer que o “Hungry Ghosts” é um material que tem algo para todos. A banda não precisa confiar em quaisquer truques para vender discos, porque a música convence por si só. A sua única limitação é a falta de uma real profundidade em alguns momentos e os fatores funky do seus trabalhos antecessores que estão praticamente inexistentes aqui. É um registro principalmente pop, mas que pode ser considerada uma coleção afiada, eclética e para todos os públicos. Basicamente, desempenha um repertório que afasta-se de suas origens rock, para focar na música pop tingida eletronicamente. É certamente um disco mais experimental, ainda que também se beneficie de ser mais focado e determinado que o inconsistente “Of the Blue Colour of the Sky”. A maioria das músicas são instantaneamente cativantes, ao passo que as letras são bem planejadas e poéticas. Sua música está cada vez mais diferente e mesmo que “Hungry Ghosts” não seja a evolução musical que os fãs esperaram após quatro anos, posso afirmar que a criatividade do OK Go permanece intacta.

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Favorite Tracks: “Upside Down & Inside Out”, “The Writing’s On the Wall”, “Turn Up the Radio”, “I Won’t Let You Down” e “Lullaby”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.