Resenha: Noel Gallagher’s High Flying Birds – Chasing Yesterday

Lançamento: 25/02/2015
Gênero: Rock Alternativo, Rock Psicodélico
Gravadora: Sour Mash
Produtor: Noel Gallagher.

Por conta do seu som, “Chasing Yesterday” poderia facilmente ser um disco do Oasis se caso a banda não tivesse acabado em agosto de 2009. Alías, há poucas bandas tão universalmente adoradas como o Oasis. Algo muito compreensível, afinal, eles são donos de dois dos maiores álbuns de rock da década de 1990 inteira: “Definitely Maybe” e “(What’s the Story) Morning Glory?”. Eles se separaram por conta das brigas e desentendimentos nos bastidores entre os irmãos Liam e Noel Gallagher, mas sempre serão lembrados como uma grande e aclamada banda britânica. Lançado em 25 de fevereiro de 2015, “Chasing Yesterday” foi gravado em 2014 no Abbey Road Studios, Londres, e precedido pelos singles “In the Heat of the Moment” e “Ballad of the Mighty I”. Ele foi escrito e totalmente produzido por Noel, e é o segundo álbum de estúdio de sua nova banda chamada de Noel Gallagher’s High Flying Birds. Para quem não conhece, a banda é formada pelo vocalista homônimo, o pianista Mike Rowe, o baterista Jeremy Stacey, o baixista Russell Pritchard e o guitarrista Tim Smith. Noel é um talentoso compositor e, após ajudar a construir a base do Oasis, também construiu a banda High Flying Birds.

Igualmente ao Oasis, o som da banda é bastante influenciado por três elementos sonoros: a música dos Beatles, o glam rock dos anos 1970 e o sonoridade predominante da geração na década de 1980. Essa mistura fica em bastante evidência na maioria das 10 faixas do álbum. Por conta disto, o registro transmite uma impressão de ter um espírito bem focado no passado. Noel Gallagher parece não dar a mínima para a música contemporânea, pois este álbum não tem qualquer evidência de que foi lançado no século XXI. Em seu álbum de estreia auto-intitulado com o High Flying Birds, Gallagher o construiu com base onde o Oasis parou. Agora, com “Chasing Yesterday”, ele utiliza essa mesma fórmula, porém, aprofundando-se ainda mais no rock & roll do passado. Sua estreia superou as expectativas, enquanto “Chasing Yesterday” continua a tendência estando um passo à frente do seu antecessor. É um álbum que não abre novos caminhos para Noel, entretanto, possui adições interessantes como saxofones e uma boa dose de funky. O seu som sempre foi definido através de um olhar para trás. Ele fez isto magistralmente na década de 90 com o Oasis e, agora, continua a fazer com High Flying Birds.

“Chasing Yesterday” é, portanto, um registro repleto de canções que soam naturais por um homem que só conhece uma única e eficiente maneira de fazer música. O álbum abre com “Riverman”, um número acústico com acordes iniciais que nos trazem, imediatamente, “Wonderwall” à mente. No entanto, conforme a música desenrola apresenta um som muito diferente da mesma. O riff simples acompanha a busca aparente de Noel Gallagher por uma mulher, enquanto o refrão retrata uma verdadeira sensação de emoção e saudade (“Eu tentei ir embora, mas eu só parei e fiquei olhando / A chuva que vem / Todo o amor que foi deixado para trás se foi”). Mas a maior surpresa vem na segunda metade da canção, quando um forte solo de guitarra e um saxofone atmosférico aparecem. É um número realmente adequado para abrir o registro, uma balada mid-tempo encorajoradora e uma das melhores peças de Gallagher. “In the Heat of the Moment”, primeiro single do álbum, é outra faixa cativante que entrega um som com letras fáceis de fazer qualquer ouvinte cantarolar junto. É uma canção energética, intensa e realizada em conjunto com uma batida implacável de tambor.

Noel Gallagher

Ela ajuda o disco a transbordar ao fazer claras referências a outros grupos, enquanto ainda soa como um título do próprio Oasis. É uma música que abre com um agradável toque de efeitos de estúdio antes de lançar uma série de extravagantes e grudentos “Na Na Na Na Na’s”. A batida é sua força motriz, acompanhada por graves potentes e um riff de guitarra quase bluesy durante os versos. Além disso, ainda é emparelhada por sinos de igreja que criam um som estranhamente legal. Em seguida, a fantástica “The Girl with X-Ray Eyes” nos leva para uma incrível atmosfera através de sua sonoridade britpop. Inicialmente, ela surge com base em uma estrutura de acordes um pouco instáveis, mas, rapidamente, se transforma em um verdadeira tesouro. É uma canção melódica guiada por uma melancolia nórdica, enquanto suas batidas aparecem insistentemente na mistura. A adição de um solo de guitarra a deixou ainda mais completa e cativante. “E então ela me pegou pela mão / Nós seguimos pistas deixadas na areia / Enquanto ela engolia o espaço e o tempo (…)”, ele canta no refrão enquanto o mundo à sua volta parece estar encharcado por cores deslumbrantes.

Originalmente escrita para o Oasis, a faixa “Lock All the Doors” é sem surpresa a faixa de mais alta energia do registro. Com um ritmo mais acelerado, essa canção oferece grandes guitarras para assim levar o ouvinte em uma verdadeira viagem. Mais uma vez, uma progressão de acordes simples é acompanhada por energéticos tambores e flutuantes guitarras. Parece ser uma música inspirada por “Hello” ou “Morning Glory”, portanto, deve ter agradado os maiores fãs do Oasis. Ela, provavelmente, ficaria muito bem na voz de Liam Gallagher, mas, felizmente, Noel também tem uma voz forte o suficiente para conduzi-lá sem problemas. Abrindo acusticamente e de forma suave, “The Dying of the Light” pode ser a mais forte conexão com o seu primeiro auto-intitulado álbum. Aqui, ele continua com o mesmo tema romântico, quase cinematográfico, que dominou seu trabalho de estreia. É uma balada com melodias irresistíveis, versos elegantemente melancólicos e uma crescente influência dos The Smiths. “The Dying of the Light” parece lamentar o declínio da cultura popular e de todas as grandes coisas que desaparecem a partir disto. “O mundo mudou e eu me tornei um estranho / Cansei de ver todas as flores se tornarem pedras”, ele canta.

O funky e jazzy da sexta faixa, “The Right Stuff”, mostra Noel Gallagher ampliando um pouco seus horizontes. Nesta faixa temos lentas e pensativas melodias, juntamente com letras profundas que a fazem contar uma história própria. É um canção muito descontraída que irá levar o ouvinte através de uma criatividade musical que flui livremente, sem restrições. Ela é uma doce e sensual balada, executada em um dueto promissor com a cantora Joy Rose. Abrindo com um acorde acústico, esta música, posteriormente, se move em direção a um som quase psicodélico com direto a guitarra elétrica e saxofone. Enquanto isso, “While the Song Remains the Same” é uma faixa belamente introspectiva, com uma melodia sentimental e ótimos vocais de Noel. É uma faixa que mistura vários elementos e prova que Gallagher realmente está disposto a experimentar novas coisas. Aqui, ele mostra como escrever uma canção pop adequada em quatro minutos. “Me encontre um lugar onde o sol brilha através da chuva / Me encontre o prazer na dor / Enquanto a música continua a mesma”, ele canta enquanto traz as memórias de sua infância à tona. Gallagher não parece tentar forçar o passado voltar, mas isto é uma parte indispensável de sua personalidade como músico.

Noel Gallagher's High Flying Birds

Sonoramente, essa faixa oferece acordes menores, mas ainda possui uma abertura com guitarra acústica. Noel e sua banda conseguem criar um monte de sons durante a utilização de instrumentos mais suaves. É um número sólido, que ainda oferece um solo de guitarra interessante durante a ponte. “The Mexican”, por sua vez, é mais simples que as demais e tem uma melodia semelhante a de “In the Heat of the Moment”. Pode ser considerada a mais fraca e inacabada do registro, entretanto, não deixa de ser cativante. Ela é conduzida por um atrevido trabalho na guitarra e letras pungentes, enquanto a melodia é realizada em conjunto com vocais de apoio femininos. Por outro lado, a penúltima faixa, “You Know We Can’t Go Back”, é uma das mais atraentes de todo o álbum. Aqui temos o retorno de uma ótima batida de condução, que contrasta bem com a sua positividade e o rápido refrão. É também um número que, provavelmente, Noel teria feito quando fazia parte do Oasis, visto que sua estrutura de arranjos e letras são quase uma reminiscência da banda. O título parece até ser direcionado ao seu irmão, Liam Gallagher, mas, independentemente disto, é uma fantástica música.

O álbum fecha com “Ballad of the Mighty I”, mais um exemplo das mudanças interessantes e imprevisíveis de acordes que Noel ainda não teria tentado utilizar na década de 1990. Essa canção, surpreendentemente direta e melodiosa, é outro destaque e, sem dúvida, uma excelente maneira de concluir o registro. Essa imponente faixa ainda apresenta contribuição de Johnny Marr, ex-guitarrista do The Smiths. Ela abre com uma bateria e baixo energéticos, que a direcionam claramente para o funky, entretanto, logo em seguida, uma guitarra aparece e a faz mudar de direção. Com sua batida constante, os vocais de Noel são o foco principal, enquanto as guitarras e pandeiro complementam a faixa em geral. No refrão cada linha é repetida e a sobreposição funciona muito bem, enquanto as letras são solidificadas e garantem a vivacidade de sua abertura. É difícil não ser infectado pela boa vibração desta canção, uma maneira realmente apropriada de terminar o “Chasing Yesterday”. Esse álbum é, resumidamente, uma viagem musical que combina boas letras, belos acordes e cativantes melodias.

É um registro absolutamente suave e fácil de lidar do início ao fim. Ele mostra cada detalhe que Noel Gallagher’s High Flying Birds coloca em suas canções. Mesmo nos momentos que não permanece em seus laços musicais do passado, Noel continua a escrever afiados e instantaneamente memoráveis refrões. Seus arranjos ainda são criativos e atraentes o suficiente para manter cada ouvinte antenado. Este disco é uma extensão do seu talento e consegue mostrar, mesmo que brevemente, seus limites artísticos existentes. Enquanto “Chasing Yesterday” pode não ser o registro que defina sua carreira, ele mostra uma intensão de explorar novas fronteiras. Ele até poderia ser mais consistente, mas ainda assim ostenta grandes momentos e destaques brilhantes. É um álbum com um olho no passado e outro sobre as novas e futuras perspectivas de Noel Gallagher. Também é praticamente impossível negar o espectro do Oasis aqui, uma vez que paira sobre qualquer coisa que Noel toca atualmente. Mas, que assim seja. Porque, no geral, “Chasing Yesterday” capitaliza os pontos fortes de Noel como compositor e expande-se sobre o que ele tem de melhor.

69

Favorite Tracks: “Riverman”, “In the Heat of the Moment”, “The Girl with X-Ray Eyes”, “You Know We Can’t Go Back” e “Ballad of the Mighty I”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.