Resenha: Nico & Vinz – Black Star Elephant

Lançamento: 16/09/2014
Gênero: Hip-Hop, R&B
Gravadora: Warner Bros.
Produtores: Vincent Dery, Thomas Eriksen, Amanuel Kidane, William “Will IDAP” Wiik Larsen, Magnus “Magnify” Martinsen, Stargate, Kouame Sereba, Kahouly Nicolay Sereba, Raymond Sereba e Petter “Walther” Walthinsen.

“Black Star Elephant” é o título do segundo álbum de estúdio do duo norueguês Nico & Vinz, formado por Kahouly Nicolay “Nico” Sereba e Vincent “Vinz” Dery. Foi lançado dia 16 de setembro de 2014, inicialmente na Austrália, e em 14 de outubro de 2014 no restante do mundo. O disco contém um total de 14 músicas e 7 interlúdios, totalizando em 21 faixas. Tanto Sereba como Dery nasceram em Oslo, Noruega, juntando-se em 2009 como Envy e, posteriormente, em janeiro de 2014 como Nico & Vinz, após o sucesso internacional “Am I Wrong”. Nico Sereba, de origem marfinense e Vincent Dery de origem ganense, criaram um som que é uma fusão de gêneros diversos, após serem expostos por várias influências musicais de seus pais, com quem viajavam recorrentemente para a costa ocidental da África. A dupla foi lançada como Envy com a sua apresentação de estreia no Festival Emergenza em 2011. Seguindo, eles lançaram uma mixtape chamada “Dreamworks: Why Not Me” e em junho de 2011, lançaram o seu primeiro single, “One Song”. A canção fez um sucesso considerável na Noruega, chegando a atingir a #19 posição do chart norueguês.

Em abril de 2012, a dupla lançou o seu primeiro álbum, intitulado “The Magic Soup and the Bittersweet Faces”. Porém, somente em 2013 com o lançamento do single “I Am Wrong”, ainda sob o nome Envy, que eles alcançaram notoriedade internacional. Em janeiro de 2014, o duo resolveu mudar seu nome para Nico & Vinz assim que assinaram um contrato com a Warner Bros dos Estados Unidos, para evitar de ser confundidos com outros artistas de nome similar. Com o sucesso internacional de “I Am Wrong”, a dupla ganhou reconhecimento nas principais paradas musicais do mundo, atingindo o primeiro lugar no Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia, bem como o Top 10 nos EUA, Austrália, Alemanha, Itália e Holanda. “Black Star Elephant” traz um repertório incorporado por uma infinidade de gêneros, como música africana, latina, hip-hop, R&B, reggae, soul e pop. É um registro um tanto quanto superlotado, inclusive, com vários interlúdios. Normalmente, os ritmos das músicas são muito simplificados, exuberantemente intercalados com tambores e batidas africanas. O positivismo do barítono de Vinz e o tenor de Nico entrelaçam em uma mistura cultural atraente.

O título do disco também acena para as raízes familiares do duo em Gana e Costa do Marfim, combinando os apelidos das equipes de futebol dos dois países. Enquanto a influência da música tradicional africana permeia por todo o disco, o mesmo, infelizmente, não é tão bom quanto eu imaginava. Para começar há uma quantidade extremamente excessiva de faixas e interlúdios, o que culminou em uma falta de coesão e uma direção musical sem graça e bastante esquecível. Musicalmente, é um disco atado com doces riffs de guitarra, violões, bongôs, tambores tribais, etc. O álbum abre com uma “Intro” de 39 segundos que antecede o grande destaque e hit do álbum: “Am I Wrong”. É uma faixa realmente muito boa, que estabelece um tom filosófico e prudente para o disco. Entre sábias palavras é cantado, “Walk your walk and don’t look back / Always do what you decide / Don’t let them control your life”, enquanto a linha central questiona: “So am I wrong / For thinking that we could be something for real?”.

Nico & Vinz

A melodia cativante com os vocais poderosos, cronometradas em conjunto, foram peças fundamentais para criação de uma canção notável. Os ritmos afrobeat, que permeiam na música, constróem a medida que avança, um refrão sólido e infeccioso, que promove toda a influência do canto tradicional africano. A faixa seguinte, “Last Time”, é outro som agradável, assim como a canção anterior, beneficiando-se de sua ranhura hiper percussiva e do tom globalmente entusiasmado. Uma linda balada com uma melodia encantadora, que destaca-se pelas vozes dos dois vocalistas complementando-se um ao outro muito bem. Juntamente com “Am I Wrong”, essa foi uma das poucas faixas que realmente me chamou a atenção. Porque, infelizmente, o restante do álbum fica bem aquém do esperado. “Know What I’m Not”, terceira faixa, é uma canção introspectiva, que estabelece a importância do indivíduo em ser fiel a si mesmo, em vez de ser o que os outros querem que sejam (“Father told me to listen to my heart / And don’t do what doesn’t feel right / So my conclusion is I am who I am / And everything that I am not”). A letra é realmente sincera, enquanto as batidas tribais a conduzem musicalmente.

Em “Miracles” temos a bateria, o bandolim e a guitarra ditando o seu ritmo, enquanto a mesma ainda permanece fiel às influências afrobeat. É particularmente uma canção bem exótica, com a dupla dissipando a conotação rebuscada da palavra “milagre”, em favor do trabalho árduo e mais viável. Chegando em “My Melody” parece que você é automaticamente transportado para a Costa Africana, graças às vozes em tons ricos e emocionantes. A guitarra acústica e os bongôs simplistas, juntamente com os vocais influenciados pelo reggae, trazem uma substância a mais para o registro. O dedilhar e a percussão de “Another Day” conduzem letras cheias de histórias de infância e experiências pessoais da dupla. Embora seja um pouco agitada, essa música realmente fica mais obscura ao falar sobre o mundo e suas lutas de sobrevivência. “People”, por sua vez, abraça um tom socialmente consciente, jogando para um ponto de vista positivo da vida. Sonoramente não me despertou tanto interesse, entretanto, a sua letra mostra que a dupla possui um talento especial para escrever.

Nico & Vinz

“Runnin'” é outra faixa de destaque, uma canção de amor íntegro e carinhoso, com letras como: “But I’ve been loving with you loving me / Keep runnin’, runnin’ from me / Keep runnin’, runnin’ from me”. É uma música muito doce que fica presa na cabeça facilmente, enquanto os instrumentos no fundo fluem muito bem com o sotaque do duo. “Imagine”, em seguida, abre com cântico africanos distintos, na mesma medida que passa um sermão, “I’m just a humble, little sailor with too much to prove / But my boat’s so small and the ocean so huge / So I need you to be part of my team / Without you where would I be?”. As vozes dos cantores e a melodia de fundo fizeram dessa uma das músicas mais relaxantes do disco. “In Your Arms”, lançada como segundo single, não é tão marcante quanto “Am I Wrong”, mas é outra boa música com os vocais no ponto e, novamente, bem escrita. É uma mensagem tranquilizadora de Nico & Vinz, para que suas namoradas saibam que eles sentem-se confortáveis quanto estão em seus braços (“Life is a journey where you stumble and fall, but I’m ok when I lie down in your arms”). A guitarra acústica é muito atraente e evocativa, enquanto os “oh oh oh oh oh” auxiliaram para transformá-la em uma faixa pop bem cativante.

Com gaita e uma melodia influenciada por Paul Simon, a décima quinta faixa, “Homeless”, infelizmente não correspondeu a todas às expectativas. Não é uma música necessariamente ruim, entretanto, passa muito despercebida em meio a tantos interlúdios. Eles também incluíram canções sobre o lado negativo de relacionamentos amorosos, como ouvimos na faixa “Thought I Knew”. É uma conto de desgosto e decepção, que capta os sentimentos de perda e tristeza. Musicalmente, deriva em direção a um som indie rock, com surpreendentemente fortes cordas e uma grande interação melódica com o piano. “When the Day Comes” também traz uma linha de piano em sua abertura que, a propósito, soa estranhamente familiar. Em sua composição também temos guitarras cintilantes e um refrão arrebatador, que mesclam com uma letra sobre aceitação. Seguida do interlúdio “Kokadinye”, a última faixa é intitulada “Imma Imma”, um som comemorativo que termina o repertório de forma positiva com seu conteúdo lírico.

O único aspecto de “Imma Imma” que soa coesa com o restante do registro é sua letra, porque, sonoramente, fornece uma confluência de R&B, indie rock e uma batida feroz. Basicamente, Nico & Vinz demonstraram serem, além de músicos, ótimos contadores de histórias, com cada faixa possuindo uma lição valiosa. E ainda demonstraram ter uma abordagem muito otimista para a escrita de cada canção. No geral, o “Black Star Elephant” é um registro bem-vindo e fresco para o cenário pop atual. Ele serve uma dose da música mundial facilmente palatável, enquanto permanece fiel às suas raízes. A maioria das músicas são refrescantes e cativantes, mas não são de fato memoráveis. O registro também sofre com a falta de consistência, sendo que eles poderiam ter lançado um álbum bem mais curto. Outra ponto negativo é o excesso de interlúdios, que para mim, pareceram inúteis, visto que alguns possuem poucos segundos. Mas dada a grande autenticidade da dupla, eu acredito que eles ainda podem crescer muito como artistas, porque esse atual álbum está entre mediano e bom.

55

Favorite Tracks: “Am I Wrong”, “Last Time”, “Another Day”, “Runnin'” e “In Your Arms”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.