Resenha: Nelly Furtado – The Ride

Lançamento: 31/03/2017
Gênero: Indie Pop, R&B
Gravadora: Nelstar Music
Produtores: John Congleton e Mark Taylor.

Após cinco anos sem lançar nada, Nelly Furtado retornou em 2017 com um novo álbum chamado “The Ride”. Lançado em 31 de março por meio de sua própria gravadora, a Nelstar Music, ele mostra a cantora através de uma jornada por vários estilos. Com esse novo disco, a canadense resgatou suas raízes, com composições mais orgânicas semelhantes ao seus álbuns “Whoa, Nelly!” (2000) e “Folklore” (2003). Apesar das semelhanças na escrita, a cantora arriscou-se numa paleta sonora progressiva e timbres mais naturais. Liricamente, o repertório explora a diferença entre a realidade e os sonhos. Ela também fala sobre perdas amorosas, através de um conteúdo lírico forte e singular. Grande parte das músicas lidam com as dificuldades enfrentadas dentro de um relacionamento. Nelly Furtado dominou as paradas musicais no início da década de 2000, com o seu pop e R&B viciante. Após o sucesso global do “Loose” (2006), ela foi catapultada para o topo das paradas ao lado de Beyoncé, Alicia Keys, P!nk, The Pussycat Dolls, Fergie, Gwen Stefani e Shakira. Há exatamente 10 anos, Nelly Furtado era realmente uma das maiores estrelas pop do mundo. Ela atingiu o sucesso com grandes hits, tais como “Maneater”, “Promiscuous” e “Say It Right”. Assim como tantas artistas femininas, não demorou muito para sua imagem mudar. À medida que cresceu como artista, Furtado trabalhou com grandes produtores da indústria (Timbaland, Danja e N.E.R.D.) e suas músicas tornaram-se mais provocativas. Infelizmente, o seu sucesso não durou para sempre, uma vez que o seu último disco em inglês, “The Spirit Indestructible” (2012), não conseguiu causar qualquer impacto.

Furtado decidiu fazer uma pausa para se encontrar novamente como artista e voltou somente em 2017. Com “The Ride”, ela trabalhou de forma independente ao lado do produtor John Congleton (conhecido por suas produções indie-rock), que co-escreveu e produziu a maioria das faixas com ela. Em última instância, “The Ride” é um álbum pop, R&B e eletrônico que permitiu ela experimentar alguns sub-gêneros. Sem surpresas, podemos dizer que é o seu disco mais maduro e pessoal até à data. Esse registro é o renascimento do som orgânico e apaixonado da cantora. “The Ride” é Nelly Furtado cavando suas raízes e moldando-as numa coleção de 12 faixas. Ao contrário dos seus discos anteriores, esse foi produzido e lançado por sua própria gravadora. A influência disso é bastante óbvia, à medida que as músicas aparecem. O álbum começa com o eletropop “Cold Hard Truth”, que oferece uma linha de baixo agressiva e alguns profundos sintetizadores. Liricamente, mostra que você pode superar tudo, não importa quantas vezes você seja pressionado. Com essa faixa, Nelly Furtado confirma que este é um álbum completamente diferente dos seus discos anteriores. “Flatline” segue com um som semelhante e define o humor para o restante do repertório. Há uma beleza na simplicidade das letras que encoraja a independência. A terceira faixa, “Carnival Games”, por sua vez, é uma balada cintilante e sentimental, que flerta com o country em alguns versos. A faixa seguinte, “Live”, por outro lado, tem uma forte batida de R&B e revela o lado mais suave dos vocais de Furtado.

Além disso, ela paira sobre uma sensibilidade pop, contém uma pitada de new wave e fornece letras cheias de reflexão. “Paris Sun” possui algumas vibrações dos anos 80, um balanço sensual e um refrão que lembra algumas canções da Madonna. Sua avaria eletrônica é praticamente um retrocesso e, em determinados pontos, não funciona e sente-se fora do lugar. “Sticks and Stones” é um cover da britânica Arlissa, que revisita o fascínio exótico do “Folklore”. Apresentando sintetizadores, um riff atraente e diferentes arranjos, Furtado equilibra os versos com um refrão igualmente repetitivo e cativante. A faixa seguinte, “Magic”, exala a mesma estética sonora, além de apresentar uma mistura de sinos gerados pelo teclado e melodias de cordas. Aqui, as harmonias e cadências vocais proporcionam um resultado um pouco diferente. A lenta e sensual balada “Pipe Dreams” foi lançada como primeiro single em dezembro de 2016. É uma canção que oferece lindos vocais, uma sonoridade synthpop e alguns diferentes toques de R&B. “Palaces” e “Tap Dancing” contém duas energias muito contrastantes, sendo a última uma canção muito mais lenta e romântica. A voz de Nelly Furtado é o destaque, uma vez que ela evita o auto-ajuste e permite seus tons naturais ocuparem o centro do palco. “The Ride” prova ser um álbum muito dinâmico, à medida que se move sem esforços dos sintetizadores altos de “Right Road” para o som sombrio de “Phoenix”. Nessa última canção, temos um momento de pura reflexão e tranquilidade. Uma música extremamente emotiva e simplesmente bonita.

Aqui, Nelly Furtado mostra ter adquirido um controle ainda maior do seu registro mais alto e estilo vocal distinto. É de forma graciosa, gentil e arejada que “The Ride” sussurra em direção ao seu final. Cada música do álbum tem seu próprio lugar e, em conjunto, se tornam um álbum interessante. É um lado de Nelly Furtado que nós ainda não tínhamos sido apresentados. Muitos podem ter ficados desapontados, porque não tem nenhuma música que lembra o seu auge. Mas, no geral, o repertório tem uma energia muito relaxante e letras introspectivas que incentivam uma renovação. Nelly Furtado pode não ser a mesma artista que você conheceu anos atrás, mas isso não é algo necessariamente ruim. Ela cresceu, amadureceu e experimentou coisas novas. Ela percorreu um longo caminho desde “I’m Like a Bird”, mas não perdeu sua energia e entusiasmo. Após uma ausência de cinco anos, Furtado retornou com um álbum muito bom. Aqui, ela mostra sua evolução criativa de forma bem cultivada. Sua visão sonora está ainda mais profunda e enraizada. Ela parece confortável com sua posição atual no cenário pop, afinal ela não precisa provar mais nada. Com uma carreira de quase duas décadas, ela criou alguns clássicos e dominou as paradas por meses com o “Loose”. Portanto, agora pode criar e liberar o tipo de música que quiser. Dito isto, não é surpreendente ver Nelly Furtado e John Congleton experimentando algo novo. O início do álbum contém algumas técnicas de produção estranhas. Entretanto, conforme o álbum progride, você consegue perdoar os erros iniciais, pois as melhores faixas estão na segunda metade do disco. Por isto, ouça o álbum até o final e surpreenda-se.

Favorite Tracks: “Pipe Dreams”, “Palaces” e “Phoenix”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.