Resenha: Ne-Yo – Non-Fiction

Lançamento: 27/01/2015
Gênero: R&B
Gravadora: Motown Records
Produtores: Ethiopia Habtemariam, Reynell “Tango” Hay, StarGate, Dr. Luke, Cirkut, Lifted, Montay Humphrey e Jesse “Corporal” Wilson.

O cantor Ne-Yo já está há algum tempo na indústria da música, onde começou ganhando fama por suas habilidades de composição. Em 2004 ele escreveu o hit “Let Me Love You” para o cantor Mario e, posteriormente, co-escreveu “Irreplaceable” da Beyoncé e “Take a Bow” da Rihanna. Mas sua grande notoriedade comercial ocorreu em 2006 quando lançou o single “So Sick” e, consequentemente, alcançou o topo da parada de singles da Billboard. Ne-Yo já trabalhou com diversos artistas mundialmente conhecidos, além dos já citados, ele também escreveu canções para Céline Dion, Whitney Houston, Mariah Carey, Leona Lewis, Ciara, Enrique Iglesias e Carrie Underwood. Em 2015 ele lançou o seu sexto álbum de estúdio, intitulado “Non-Fiction”, formado por 14 faixas, através da Motown Records. O álbum foi precedido por dois singles: “Money Can’t Buy”, que caracteriza o rapper Jeezy e “She Knows”, com Juicy J. Em sua semana de lançamento vendeu 59 mil cópias nos Estados Unidos e estreou no número #5 da Billboard 200. Em meio a tantos novos soulmen em cena, como Miguel, Frank Ocean e The Weeknd, Ne-Yo ainda tenta se destacar. Seu jogo de sedução ainda é ousado e aqui, nesse disco, ao canalizar influências de grandes nomes da música, como Michael Jackson e Marvin Gaye, ainda consegue mostrar sinais promissores.

Mas em outros lugares também continua aventurando-se em bangers EDM, como ouvimos na canção em dueto com Pitbull. Apesar dos seus falsetes serem afiados e possuir um tenor rico e flexível, Ne-Yo pecou um pouco no lirismo do álbum por se mostrar tão repetitivo. Ou seja, aqui temos um disco bem produzido, que tenta voltar às raízes musicais do cantor, porém, categoricamente, um material que não mantém um certo equilíbrio. O álbum gira completamente em torno de situações que ocorrem no amor e relacionamentos e, felizmente, começa pela boa faixa chamada “Run”. O rapper ScHoolboy Q participa dela e é o primeiro nome que aparece da grande lista de convidados do álbum. Canalizando um ambiente noturno, a canção é vocalmente gratificante e convincente e, depois de ouvi-lá, eu não poderia ter imaginado um rapper melhor para participar e se encaixar com o seu conceito. O seu som é movido por sintetizadores, uma lenta batida e acolhido primeiramente pelo rapper, que nos apresenta a canção. Enquanto a suave voz de Ne-Yo entra perfeitamente de onde ele pára e encaixa-se bem ao seu rap.

A segunda faixa, intitulada “Integrity”, apresenta Charisse Mills e conta uma história muito cativante sobre uma garota chamada de “integridade”. É um desvio agradável para o cantor, que através do seu showcase fornece uma variedade adorável de falsetes. O rapper T.I. faz uma aparição na faixa seguinte, “One More”, que fala sobre uma mulher que trabalha bastante e não ganha o que realmente merece (“Você está com uma cara de quem acabou de sair do trabalho / E se me permite dizer isso, amor / Você trabalha demais e não ganha o que merece / Estou certo?”). Essa canção permite que Ne-Yo mostre ainda mais de sua voz e fascine no circular refrão: “Let me get one more for the lady (…). A faixa seguinte, “Who’s Taking You Home” (produzida por David Guetta), mantém-se em coesão com as primeiras faixas e é bem executado por Ne-Yo. Impulsionada por um agradável piano, essa canção possui componentes mais rítmicos e traz de volta os elementos EDM que dominaram o último álbum do cantor. A essência da letra chega até evocar a canção “Let Me Love You (Until You Learn Yourself)”, ao focar na insistência do desejo do homem (Garota, eu estou olhando para o seu corpo / E não há ninguém melhor”).

Ne-Yo

A quinta faixa do registro, “Time of Our Lives”, é o dueto com Pitbull, que também aparece no disco “Globalization” do rapper. Produzida por Dr. Luke e Cirkut, “Time of Our Lives” é a segunda vez que Ne-Yo e Pitbull colaboram, pois anteriormente foram parceiros no hit “Give Me Everything” de 2011. É uma canção dancepop/eletrohouse muito agradável e nostálgica, especialmente por conta do ótimo refrão cantado por Ne-Yo. Na letra, ele ainda tenta adicionar um pouco de profundidade ao abordar lutas comuns das pessoas: “Eu sei que meu aluguel já está atrasado há uma semana / Trabalhei duro, mas ainda não vou conseguir pagar”. Um dos pontos altos do álbum é a faixa “Coming with You”, que foi lançada como quarto single em 07 de abril de 2015. Aqui Ne-Yo encontrou harmonias entre diferentes gêneros, como o R&B e UK Garage, e uma reminiscência com tons de Michael Jackson para construir uma música extremamente cativante. Fazendo uso da sensibilidade de um piano elétrico, Ne-Yo obteve uma plataforma ideal para entregar um desempenho muito convincente. “Coming with You” segue principalmente com elementos do house convencional, além de um ritmo sincopado na percussão.

“Eles querem te odiar / Te odiar de uma forma boa / Pois você é tão má”, ele canta para, em seguida, continuar: “Não aceito isso, mas entendo / Pois não é justo, que você é assim”. Começando apropriadamente com cantos de passarinhos temos a faixa “Good Morning”, sétima do repertório. É uma música sensual (e um pouco grosseira) que fala sobre querer dar amor à sua mulher pela manhã. Na letra encontramos versos como: “Eu preciso ouvir você gritar e gritar / Eu preciso de você para derreter na minha boca (…) / Eu preciso que você deixe-me dizer bom dia / Só quero ter certeza de que você comece o seu dia adequadamente”. Ne-Yo tem uma típica capacidade de fazer sensações constrangedoras tornarem-se completamente normais. Os vocais continuam no ponto, com ele atingindo notas altas e entregando mais falsetes. “Make It Easy”, por sua vez, foi uma das primeiras faixas a serem divulgadas na internet, antes mesmo do lançamento do álbum. É uma mid-tempo que apresenta uma boa produção eletro-R&B, especialmente, quando trata-se da batida. Mas embora a produção seja impulsionada por um tambor pesado, ainda é suave e leve. Na mesma medida, Ne-Yo permanece previsivelmente bem no seu jogo vocal.

Liricamente, o cantor quer saber se a mulher que ele ama ainda o amaria se ele não tivesse milhões no banco. “Você me ama como sou? / O meu eu verdadeiro, não meu alter-ego descolado / Eu sei que nunca deixo de ser descolado / Mas se alguma vez deixasse de ser, você andaria comigo?”, ele canta. Apesar de não ser uma das mais fortes do registro, não deixa de ser uma boa canção. “Money Can’t Buy”, nona faixa, foi lançada como primeiro single e, sem dúvida, está entre as melhores faixas do registro. A canção apresenta o rapper Jeezy e foi produzida por DJ Monta, Jaytez, D Lumar e Jesse “Corparal” Wilson. Como esperado, nessa faixa Ne-Yo voltou às suas raízes de R&B para atender às mulheres de valor inestimável. Ele não está sob a ilusão de que uma grande conta bancária possa trazer o seu amor verdadeiro, ele sabe que existem coisas que o dinheiro não pode comprar (“Linda, você sabe que tenho algum dinheiro / Garota, a grana não é problema para mim / Mas quando eu olho em seus olhos / Querida, você tem tudo o que o dinheiro não compra”). “Money Can’t Buy” traz de volta o cavalheiro que todo mundo está familiarizado, que presta homenagem a uma garota da qual está comprometido.

Mesmo sendo um homem de muitos gêneros musicais, Ne-Yo prova que o R&B soulful é a sua verdadeira base. Ele brilha cantando com alma e vigor sobre o seu apreço pelas mulheres, colocando cada nota no seu devido lugar e alternando-se entre um forte vocal e um doce falsete. Como esperado para uma faixa de R&B, o single é composto por batidas de estúdio, loops, uma melodia incrivelmente viciante e sintetizadores que dão uma sensação romântica. O rap de Jeezy também é forte, no entanto, acabaram tirando o requinte da mensagem de Ne-Yo, visto que estão cheios de palavrões e insinuações. Felizmente, o cantor é capaz de reerguer a música e deixá-la novamente dramática e profunda. Enquanto isso, “Religious”, com seus arranjos vocais tingidos de gospel, pode ser considerada tão boa quanto a faixa anterior. Ne-Yo flexiona seu gênero musical e lírico nesta faixa, onde elogia sua mulher e pinta todo o seu amor por ela. “A sua voz na minha orelha é como um coro de anjos, fácil como domingo de manhã”, ele canta. “E eu só levanto as minhas duas mãos, digo obrigado ao homem / Porque estar perto de você é um bênção e agradeço a Deus”.

Ne-Yo

A batida tem uma sensação retrô muito boa, assim como as trombetas elevam ainda mais os vocais de Ne-Yo (especialmente durante a ponte, que soa como um verdadeiro testemunho apaixonado). Produzido por Dr. Luke, “She Knows” é um trap/EDM em parceria com o rapper Juicy J. Foi lançada como segundo single e acabou tornando-se um hit nas rádios dos Estados Unidos. Composto em torno de um riff repetido e viciante, a música proporciona, sob medida, batidas esparsas e dinâmicas melodias. Enquanto seu conteúdo lírico é inundado com um apelo sexual, com Juicy J emprestando seu carisma para versos como: “Reparo no rebolado / Quando ela anda, ela lambe os lábios (…) / Durei tanto tempo, ela perdeu os sentidos / Com as pernas para o alto, ela vai andar no teto”. Mais tarde, na balada “She Said I’m Hood Tho”, Ne-Yo colabora com a cantora sul-africana Candice. É uma canção egocêntrica, onde o cantor narra uma história sobre como uma mulher bastante ousada consegue cativar-lo com a sua honestidade. Embora a sua narrativa seja bem contada, sonoramente a pista é muito sem graça e oferece um arranjo extremamente monótomo.

Liricamente, a pior faixa do álbum é “Story Time”, onde Ne-Yo tenta mostrar um lado bem-humorado para contar histórias, mas peca pela arrogância e imaturidade. Aqui, o cantor tenta convencer uma garota a fazer um ménage à trois, passando-se por um personagem incomodante e insistente (“Eu disse, eu gostaria que você apenas dar-lhe uma tentativa / Você nunca fez isso, como você sabe o que você não gosta? / Ela disse, eu não sou o suficiente para você, é por isso? / Eu disse, não, eu só acho que seria sexy”). Musicalmente, é uma canção distinta das demais por oferecer uma guitarra acústica, boas harmonias e um cenário mais calmo. No entanto, tudo isso acaba sendo arruinado pela voz auto-sintonizada e a falta de letras sofisticadas. Se não fosse por esses inconvenientes, poderia até ser uma das melhores músicas do álbum. A última faixa é “Congratulations”, que entrega uma melancolia e sensação melodiosa que traz à mente o hit “So Sick”. Embora não seja forte e cativante como a citada, não deixa de ser um bom encerramento para o registro.

“Tipo assim, não somos o que éramos, mas parabéns”, ele canta aqui. “Querida, eu não te odeio / Estou contente por ter encontrado um homem que te trata como você merece”. Nessa canção percebemos um problema que foi mencionado no começo da review: suas letras não mudaram completamente ou desenvolveram temas mais sofisticados com o passar dos anos. Apesar do fato de suas músicas, obviamente, terem a intenção de contar histórias, as narrativas muitas vezes simplesmente parecem repertir canção após canção. Talvez a razão pela fala de diversidade no som seja atribuída ao sua carência de diferentes melodias e batidas. Várias músicas tende a ter o mesmo ritmo e harmonias. Se Ne-Yo tivesse mudado as inflexões de sua voz ou o ritmo mais frequentemente, ele teria dado ao álbum uma maior variedade. Os conceitos das músicas também não dão muito espaço para letras poéticas, como esperado em álbuns de R&B. No entanto, não classifico “Non-Fiction” como um registro ruim, porque mesmo com seus descuidos, não dá para negar que o álbum consegue viciar o ouvinte com suas faixas em potencial.

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Favorite Tracks: “Time of Our Lives (with Pitbull)”, “Coming with You”, “Money Can’t Buy (feat. Jeezy)”, “Religious” e “She Knows (feat. Juicy J)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.