Resenha: Morrissey – World Peace Is None of Your Business

Lançamento: 15/07/2014
Gênero: Rock Alternativo, Pop Rock
Gravadora: Harvest Records
Produtores: Joe Chiccarelli.

O britânico Morrissey lançou em julho de 2014 o seu décimo álbum de estúdio solo, sob o título “World Peace Is None of Your Business”. Foi produzido por Joe Chiccarelli e distribuído pela gravadora Harvest Records. O disco foi gravado em fevereiro de 2014, no La Fabrique em Saint-Rémy-de-Provence, França, enquanto a sua capa apresenta uma imagem de Morrissey agachado e oferecendo uma caneta para um labrador. Steven Patrick Morrissey chegou à fama na década de 1980 como vocalista da banda The Smiths, que foi altamente bem sucedida no Reino Unido, mas se separou em 1987. Posteriormente, Morrissey seguiu em carreira solo, tornando-se Top 10 no UK Singles Chart em dez ocasiões. Seu primeiro álbum solo, “Viva Hate”, foi lançado em 1988 e atingiu o #1 lugar nas paradas musicais. Morrissey é amplamente considerado um importante inovador do cenário musical indie. A revista New Music Express, inclusive, considera Morrisey um dos artistas mais influentes de todos os tempos. Na mesma medida, em 2004, a Pitchfork o classificou como “uma das figuras mais singulares da cultura popular ocidental dos últimos 20 anos”.

Suas letras costumas ser descritas como dramáticas, desoladas, engraçadas e sobre relacionamentos condenados. Morrissey também é muito conhecido por seu estilo vocal barítono incomum, embora às vezes use o falsete, pelo seu corte de cabelo com topete e por suas dinâmicas performances ao vivo. O astro também já atraiu a atenção da mídia, em geral, por suas opiniões francas e muitas vezes contrárias, além de ser um defensor do vegetarianismo e dos direitos dos animais. Inclusive, o próprio se descreve em uma autobiografia como um protecionista animal. “World Peace Is None of Your Business”, lançado após um hiato de 5 anos, não fica aquém de seus melhores trabalhos, pois o seu espírito invencível, que o consagrou como um ícone do indie-rock, marca presença. Sua opinião distinta sobre a vida continua caracterizada através de seu lirismo e musicalidade influenciada por padrões antigos. Sua recente autobiografia indica que seus fãs são algumas das poucas pessoas que ele se importa em agradar, ao contrário dos críticos de rock, companheiros de bandas e outras personalidades. E nesse álbum ficou claro que ele é dedicado a dar a seus fãs o que eles realmente querem.

Se o “World Peace Is None of Your Business” não é o seu registro menos autobiográfico, é certamente um dos mais dispersos. O disco está cheio de declarações políticas amplas e esboços de personagens estranhos. Musicalmente, Morrissey permite que seus ouvintes vão à loucura com batidas eletrônicas, acordeões, floreios orientais, guitarras espanholas e sintetizadores. Ele, certamente, mostrou com esse álbum que ainda tem a capacidade de nos surpreender, mesmo após 30 anos de trabalho. Claro, que o produtor Joe Chiccarelli também merece muitos créditos, pois cooperou e ajudou a criar um som rico e bem estruturado. A faixa-título, “World Peace Is None of Your Business”, abre o repertório da melhor maneira possível. Uma canção maravilhosa apoiada por exuberantes guitarras e atacando as classes dominantes, como ouvimos nos versos: “You must not tamper with arrangements / Work hard and sweetly pay your taxes”. Claramente, vemos que é um número liricamente de sátira política, “Each time you vote you support the process”, ele argumenta três vezes na abertura, um verso irônico sobre o valor da democracia e sua rendição racional ou menos sombria da humanidade.

Morrissey

Cantando sobre uma batida programada rígida, teclados latejantes e alguns acordes ferverosos de guitarra, Morrissey nos apresenta a música “Neal Cassady Drops Dead”. Como o título sugere, Morrissey presta homenagens ao poeta Neal Cassady, figura importante da Geração Beat (Beat Generation) dos anos 1950 e do movimento psicadélico. É triste, é estranha, em suma, é uma música totalmente a cara do Morrissey. “I’m Not a Man”, por sua vez, é uma canção de sete minutos sobre as maneiras que ele nunca se encaixa em categorias masculinas tradicionais. Assim, como a faixa-título é uma balada que não deixa espaço para outras interpretações. Morrissey é vegetariano, não é um soldado, não é mulherengo, enfim, o cara se sente fora de sintonia com o homem moderno. É uma pista longa que começa lentamente com uma sinistra sonoridade e termina com batidas pesadas e gritos abafados. Ele evita totalmente o estereótipo masculino e zomba da masculinidade ao falar sobre ser vegetarianismo e políticas ambientais: “I’d never kill or eat an animal / And I never would destroy this planet I’m on”.

A quarta faixa, a misteriosamente exótica “Istanbul”, é construída com teclados orientais e retrata um drama familiar turco. Ela ainda inclui sons ambientais, bem como guitarras agressivas e sintetizadores jogados de encontro com a melodia agridoce. A letra fala da dor de um pai que perdeu seu filho rebelde e é obrigado a identificar o seu cadáver. O título da faixa “Earth Is the Loneliest Planet” pode aparentar ser o de uma canção tradicionalmente chorosa, mas seu trabalho na guitarra, com elementos furtivos de flamenco, harpa e uma explosão de acordeão, prova o contrário. “Earth is the cruelest place you will never understand”, ele canta, resumindo sua visão do mundo. “Staircase At the University”, com suas guitarras dominadas por sintetizadores, fala sobre as pressões que enfrentam os jovens que estudam para entrar em uma universidade. Essa confecção pop e agridoce detalha o suicídio de uma jovem aluna que se viu incapaz de viver de acordo com as expectativas apresentadas por sua família dominadora. Essa faixa é obscuramente cômica e uma triste lembrança do quão bom Morrissey pode ser quando está em sua melhor forma artística.

Morrissey

Abrindo com um toque de trombetas, temos a faixa “The Bullfighter Dies”, uma mensagem direta dos direitos dos animais. Conhecendo sua profundidade lírica, nem chegamos a encarar como um absurdo quando ele canta: “Nobody cries / Because we all want the bull to survive”. Após ditar uma lista de cidades espanholas, nós ouvimos ele comemorar no refrão a morte de um toureiro, porque o touro sobreviveu. O acordeão utilizado aqui, ainda consegue dar uma sensação de alegria do velho mundo. Dificilmente mais alguém consegue fazer uma música tão simples como “Kiss Me a Lot”, ser tão vertiginosa e romântica. É uma canção conduzida por guitarras e cheia de floreios musicais inesperados. Essa também possui um sabor latino em seus dedilhados dramáticos e em sua sintonia espanhola, é realmente uma música arejada e muito linda. A oitava faixa, “Smiler With Knife”, é provavelmente a mais fraca do registro ou pelo menos a que ficou mais aquém do restante. É uma balada, acústica em sua maior parte, com letras torturadas de uma pessoa apaixonada que foi profundamente ferida.

Como o seu próprio título grita, “Kick the Bride Down the Aisle” flerta com a violência misógina. Aqui, ele é um convidado em um casamento espanhol, advertindo seus colegas sobre o noivo prestes a se casar. Musicalmente, começa com um tremendo acordeão, como um órgão de casamento na igreja, enquanto harpas florescem perto do fim. A penúltima faixa do álbum, “Mountjoy”, é uma boa canção acústica-orientada, onde ele canta sobre uma verdadeira prisão em Dublin, que já abrigou o poeta Brendan Behan e outros membros do Exército Republicano Irlandês (“Many executed here / By the awful lawfully good (…) / Bredan Behan laughter rings / For what he had or hadn’t done (…) / We all lose / Rich or poor, we all lose”). É uma canção tanto musicalmente como liricamente bem desenvolvida, com uma boa sintonia acústica em um conceito pesado. A faixa de encerramento é “Oboe Concerto“, uma nota mais suave e melancólica, na qual Morrissey entoa: “Round, round, rhythm of life goes round”. Essa possui uma das melodias mais bonitas do disco, embora seja vagamente conectada com sua instrumentação. Os melhores momentos do “World Peace Is None of Your Business” está, sem dúvida, em sua primeira metade, mesmo que a segunda parte também seja boa.

É um registro que terminou por ser uma contribuição distinta para o catálogo de Morrissey. Ele pode até dividir opiniões à respeito, mas é, definitivamente, um disco decente. Suas ideias ainda são claras, escritas sem espaços para suposições ou indefinições. E nesse álbum as progressões de acordes, os refrões, a instrumentação, enfim, quase tudo cooperou para iluminar o processo ainda mais do que o habitual. Por isso, felizmente, o álbum em seu conjunto final tem a força suficiente de outros trabalhos de Morrissey. Mesmo aos 55 anos, ele ainda não perdeu suas notas altas e sua elasticidade vocal, como outros cantores de rock. Morrissey ainda manteve sua expressividade e poder vocal, melhorando simultaneamente a sua entonação. Ele como sempre coloca seus vocais a frente e as palavras precisamente articuladas, mesmo que as letras não sejam consistentemente de alta qualidade como de outros projetos. Com “World Peace Is None of Your Business”, Moz deixa claro onde ele se encontra, continuando a mostrar seus pontos de vistas sociais e políticos, bem como sua forte personalidade. Ele deixa claro que está no controle e mantendo os ouvintes com aquilo que todos querem ouvir dele. É um alívio saber que o disco é realmente divertido, com diversos aspectos explorando a sua identidade criativa.

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Favorite Tracks: “World Peace Is None of Your Business”, “Neal Cassady Drops Dead”, “Istanbul”, “Staircase At the University” e “Kiss Me a Lot”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.