Resenha: MØ – No Mythologies to Follow

Lançamento: 07/03/2014
Gênero: Eletrônica, Synthpop, Indie Pop
Gravadora: RCA Victor
Produtores: Diplo, James Dring, August “ELOQ” Fenger e Ronni Vindahl.

Karen Marie Ørsted, mais conhecida por seu nome artístico MØ, é uma cantora dinamarquesa de 26 anos de idade. Em março de 2014, ela lançou o seu primeiro álbum de estúdio, intitulado “No Mythologies to Follow”, com um total de 12 faixas. O disco estreou em #58 na parada de álbuns britânica ao vender 1,4 mil cópias em sua primeira semana. Nascida em Odense, Dinamarca, MØ explora a música eletrônica e já foi comparada a artistas como Grimes, Twin Shadow e até Janet Jackson. Sua estreia no mainstream aconteceu em novembro do ano passado na canção “Beg for It” da rapper australiana Iggy Azalea. A canção chegou a atingir a posição número #27 da Billboard Hot 100 dos Estados Unidos. MØ também já colaborou com o Major Lazer no sucesso internacional “Lean On”, que chegou ao número #1 na Austrália e top 10 na Nova Zelândia e França. Diplo, do Major Lazer, inclusive aparece no álbum como um dos produtores.

MØ começou a se interessar pela música aos 7 anos de idade, quando escutava as Spice Girls. Em sua adolescência costumava a escutar música punk e bandas como Nirvana, Smashing Pumpkins, Yeah Yeah Yeahs e Sonic Youth. Agora, já adulta, a cantora e compositora surge com um ótimo material de estreia. Assim como muitos escandinavos, MØ produz canções pop convincentes e de qualidade. O seu encanto e seriedade, como vocalista e compositora, é o que deixa seu trabalhos ainda mais atraentes. Desde o iníco do “No Mythologies to Follow” somos apresetados a uma MØ sofisticada, soulful e obscura. Nesse disco também há um som entusiasmado e vertiginoso correndo ao lado de uma ambição, como uma estrela pop vendo seus sonhos de infância se tornando realidade. Como resultado, a energia deste material de estreia é tangível e que vence, principalmente, pelo entusiasmo.

De acordo com a própria é um álbum sobre “ser jovem, confusa e inquieta, alguém apenas tentando encontrar o seu próprio caminho através do mundo moderno”. E o álbum materializa isso, pois explora a rapidez, agressividade, bem como a tristeza, para ser tornar um adulto. Ela foi capaz de produzir faixas pop potentes, provando que é uma artista bem reflexiva e saudosa. Seu vocal é equilibrado entre o adolescente apaixonado e o de uma divindidade da música eletrônica. Além de ser uma boa vocalista, consegue transmitir emoções em sua entrega, bem como através de suas letras. Liricamente, ela explora bastante esse lado da confusão que é a vida de uma jovem-adulta. O registro, no geral, consegue torcer e girar através de alguns gêneros e estilos distintos, além de fornecer vocais surpreendentes que adaptam-se facilmente a todas as músicas.

MØ

A primeira faixa, “Fire Rides”, começa pintando uma imagem de uma mulher indiferente e confiante, e ao mesmo tempo insegura e medrosa (“In too deep / I have become / My darkest dream / Which I’m running from”). É uma canção synthpop densa com um ótimo refrão e uma mistura de Lana Del Rey com Crystal Castles. A segunda faixa, “Maiden”, é um synthpop com exuberantes guitarras elétricas programadas e melodias latinas. A letra narra o período complicado que passamos entre a adolescência e a idade adulta, refletindo com precisão a desvantagem de ser uma pessoa muito emocional. Em “Never Wanna Know” temos influências dos anos 1950 e a voz de Ørsted em seu tom mais apaixonado possível. É realmente uma canção vintage brilhante, dramática, sentimental e um das poucas baladas do álbum.

Enquanto isso, “Red in the Grey” combina uma batida dubstep e sintetizadores com uma entrega lírica influenciada pelo soul. A letra cita uma lembrança existencial de cada noite fria que ela vivenciou com certa pessoa (“Every night was cold as I / So you hold me close to your heart”). A mesma entrega soulful aparece em “Pilgrim”, mas dessa vez sobre uma batida de tambor, palmas, buzinas e uma linha profunda de baixo. Os instrumentos dessa faixa permitiu a vibração vocal de MØ flutuar sem esforços ao longo de sua execução, acrescentando harmonias de vários gêneros sem perder o foco. “Don’t Wanna Dance”, um dos destaques do disco, foi lançado como single e é uma das únicas canções que olha para o lado positivo de ser jovem, confuso e perdido na sociedade. O repetitivo refrão – “I don’t wanna dance with nobody / Dance with nobody, but dance with nobody” – é bastante contagiante e bem acessível.

MØ

Ainda constitui em uma produção eletropop com vocais sensuais, canalizando um lado apaixonado e oferecendo uma das faixas mais dançantes e poderosas do repertório. “Waste of Time” mantém o ambiente pesado e obscuro, graças aos seus instrumentais aventureiros. MØ a escreveu a partir da perspectiva de um rompimento amoroso. E realmente sua letra parece ser bastante convincente: “Why do you always make me cry? / Oh what a waste of time”. “Dust in Gone” é uma reminiscência melancólica onde MØ adota um tom tremendamente sombrio, que junto com a atmosfera da produção, lembra muito a Lana Del Rey. É uma mid-tempo com mais traços pesados de desgostos e angústia, como ouvimos nos versos: “Salvation will come and break our hearts“, “I would’ve liked this to work / But life had other plans” e “Life is cruel and too short”. A inclusão mais comentada do album, “XXX 88”, colaboração com Diplo, atua como um número poderoso e soando quase como uma reminiscência mais dançante de “Royals” de Lorde. É um dos meus números favoritos do disco, a produção de Diplo, como sempre, ficou impecável.

“All my life I’ve stepped to the rhythm of the drums inside my head”, ela canta na faixa “Walk This Way”. Não, não é um cover do Aerosmith, mas é tão boa quanto. Apesar do pouco ocasional de linguagem explícita ou momentos de ser uma criança co-dependente, ela seria uma ótima escolha para tal devoção a si mesma, como MØ declara orgulhosamente nesta cativante faixa. Na hipnótica “Slow Love” sua voz soa etéreo, com um de seus ganchos mais memoráveis sobre uma animada batida que atrai o house, o reggae e o dubstep. A letra narra uma história, demasiadamente familiar, sobre ser substítuida por outra garota. O álbum fecha com “Glass”, um número intensivo de sintetizadores crescentes e imponentes. É uma das faixas mais fortes do álbum, com guitarras ensolaradas e letras concisas que trazem uma questão existencial no refrão: “Oh, why do everyone have to grow old?”. Com esse álbum, MØ estabeleceu-se dentro de um círculo emergente de artistas poderosos do synthpop e música eletrônica. Com esse material distinto, cheio de versatilidade e vitalidade, podemos considerá-la uma adorável artista escandinava.

“No Mythologies to Follow” pode não ser uma forte coleção de singles, mas como um registro completo é fortemente apreciável. As músicas que MØ apresentou são variadas, universalmente viciantes e que obtiveram êxito em seu produto final. É definitivamente um forte conjunto synthpop, que narra contos e histórias sinceras e emocionais. MØ não só provou ser capaz de elaborar uma incrível coleção de boas canções, como também provou ser uma artista promissora que, provavelmente, terá uma carreira fantástica. Ørsted escreveu todas as 12 canções e lidou muito bem com a pressão de um álbum de estreia. “No Mythologies to Follow” é um daqueles registros que permanecem dinâmicos e expressivos do começo ao fim, com cada faixa conseguindo prender a atenção do ouvinte. É um álbum que exibiu uma visão extraordinariamente singular e confiante, mesmo lembrando alguns outros artistas e combinando o velho com o novo. Por isso, é um material sólido que conseguiu destacar-se e deve fazer qualquer fã de música pop apreciá-lo com entusiasmo.

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Favorite Tracks: “Fire Rides”, “Red in the Grey”, “Pilgrim”, “Don’t Wanna Dance” e “XXX 88 (feat. Diplo)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.